domingo, 25 de junho de 2017

Viagens pelos rios de água preta


"Se viajarmos pelos rios, principalmente os rios de água preta, escassos de sedimento, ao contrário dos outros, os de aluvião, não teremos grande contato com a avifauna amazonense. Essas correntes fluviais são tão pobres de caça e de pesca que se lhes deu o nome de rios famintos e neles, mormente se atingirmos os seus altos, acima das cachoeiras, não será difícil passar fome. Conhecemo-los bem, pois foi por um eles, o Erepecuru, e depois o Parú, de oeste, que subimos até chegar aos contrafortes de Tumucumaque, já nos limites da Guiana Holandesa. Aí, uma ou outra ave que se visse, durante todo um longo dia de viagem, era sempre um acidente digno de nota. Isolados maguaris que , com voo pesado, à aproximação da canoa, abandonavam um pouso para procurar outro, em sítio mais distante, mas sempre à mesma margem. Arirambas maiores ou menores que riçavam o espelho das águas e surgiam com um peixinho no bico. Biguatingas de pescoço esguio colubreante mergulhando aqui para aparecer muitos metros além. Um casal de araras vermelhas cortando o azul do céu ou um caracará de asas ao pairo, pronto a despejar-se sobre qualquer presa. Em bandos, só as gaivotas, sempre a gritar, revoluteando sobre as praias, onde os seus ovos incubavam ao sol; ou, então, alguns patos asa-branca, nadando gostosamente nos espraiados de água remansosa. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003. p. 86-87.




Biguá e Biguatinga.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986. 


terça-feira, 6 de junho de 2017

Enormes tufos de bromélias


"[...]. Espécies dos gêneros Cocos, Melastoma, Bignonia, Rhexia, Mimosa, Inga, Bombax, Ilex, Laurus, Myrthus, Eugenia, Jacaranda, Jatropha, Vismia, Lecythis, Ficus e milhares de árvores outras, a maior parte ainda desconhecidas, compõem o maciço da floresta. O solo está juncado de flores, e fica-se embaraçado para saber, de qual elas provêm. Alguns galhos gigantescos, cobertos de flores, de longe parecem brancos, amarelo vivo, vermelho escarlate, róseos, violetas, azul celeste, etc.; nos lugares pantanosos, erguem-se em grupos unidos sobre longos pecíolos, grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que têm às vezes de 8 a 10 pés de altura, acompanhadas de flores de forma extravagante, e cor vermelha carregada, ou de fogo. No ponto de divisão dos galhos das árvores maiores, crescem enormes bromélias, de flores em espiga ou em panícula, escarlates ou de outras cores igualmente belas; descem grandes feixes de raízes, à semelhança de cordas que descem até o solo e constituem novos obstáculos para o viajante. Esses tufos de bromélias cobrem as árvores até que, depois de muitos anos de existência, morram e, desarraigados pelo vento, caiam em terra com grande fragor. Milhares de plantas trepadeiras de todos os tamanhos, desde as mais delicadas até as que têm a grossura de uma coxa , muitas de lenho rijo (Bauhinias, Banisteria, Paullinia e outras) entrelaçam-se em volta dos troncos e dos galhos, elevam-se até o cimo das árvores, onde dão flores e frutos fora do alcance da vista humana. Alguns desses vegetais têm forma tão singular, como por exemplo certas espécies de Bauhinia, que não podem ser observadas sem surpresa. Não raro o tronco em volta do qual elas se enrroscaram morre e vai-se consumindo; vêem-se então cipós colossais que sobem com as espirais livres, e compreende-se facilmente a causa do fenômeno. Seria bem difícil representar o aspecto dessas florestas, pois a arte ficará sempre aquém do que pretende exprimir". Maximilan, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958. p. 350-351.



Bromélia. Aechmea fulgens.
D´Orbigny, C. V. D. Dictionnaire universel d´histoire naturelle. v. 3, 1841-1849.
www.plantilustration.org.