sexta-feira, 31 de março de 2017

Tucanos de peito branco


"Alta madrugada fomos surpreendidos por mais chuva, vendo-nos forçados a ir para a canoa e ali, acendendo o nosso fogão. Distraimo-nos contando histórias uns aos outros. O dia amanheceu carrancudo, a mata respingando fortemente. Eu estava satisfeito, pois dormira pouco, porém aprendera mais um pouco de Nhêengatu com o Velho Plácido.
Preparamo-nos para largar. Tomei outro banho no igarapé e às 6 horas em ponto, quando apareceu o primeiro bacurau, rumamos para Tatupiera.
As aves desta região são as mesmas do Rio Negro: tucanos de peito branco, taquiris, garças, marianitas, martins-pescadores, siriris e alguns belos cotingídeos desconhecidos por mim. [...]". José Cândido M. Carvalho. Notas de viagem ao Rio Negro. Publicações Avulsas do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n. 9, p. 58, 1952.



Tucanos.
 John Gould (1804-1881). A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.

domingo, 26 de março de 2017

Uma riqueza de flores


"Foi nessa floresta, ao mesmo tempo temida e inspiradora, que encontrei uma árvore de Heterostemon ellipticus com uma riqueza de flores ametistas. Essa árvore é comumente chamada de árvore de Orquídeas, pois suas flores lembram vagamente laelias e catléias.
Também vi nessa floresta uma Gongora quinquenervis crescendo no alto de uma grande árvore. Foi a única da espécie que pude encontrar durante a minha jornada. Na mata onde  eu a localizei havia pouca vegetação rasteira, exceto por uma espécie de raiz conhecida como Aninga montrichardia. Nas árvores havia inúmeras epífitas: bromélias, orquídeas e raízes. As flores da árvore bola de canhão (Couroupita guianensis) salpicavam o chão com suas pétalas creme e bronze; os sinos vermelhos e pretos de uma trombeta chinesa repousavam ao seu lado, provavelmente caídos de uma das trepadeiras gigantes entranhadas entre as árvores enormes". Margaret Mee (1909-1988). Flores da Floresta Amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. São Paulo: Escrituras Editora, 2010. p. 42.


Couroupita guianensis.
L. von Panhuys. Waterclours of Surinam (1811-1824)

terça-feira, 21 de março de 2017

O dia vem nascendo


"[...]. No céu azul, o disco redondo e branco da lua evocava o luar do sertão. Do lado baixo do igarapé, das ventarolas dos miritizeiros, vinham vozes de aves noturnas, jacurutús e  corujas. Dos campos também subiam trinados, rufos de tambores, remadas vivas de quem aporfia. Eram os sapos. Até que a maria-já-é-dia, num primeiro grito, anunciava o sol. Uma nesga cor de opala com frisos de carmim rasgou o oriente. As saracuras, em seguida, reforçaram o alarme. Era mesmo o carro do sol que vinha estrondando no fogo de mil chamas. O quadrante se avermelhava. Aqui, ali, acolá, rebentavam brochadas escarlates, sangue puro do céu. Todos se sentaram nas redes.
-Dia vem rinchando, gente. Aquele três potes! Três potes! três potes! das saracuras não enganam ninguém. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). O mirante do baixo Amazonas. [s.d.]. p. 71-72.
 
 
Saracuras.
Álbum de Aves amazônicas -1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
 


quarta-feira, 15 de março de 2017

O encanto da paisagem


"[...]. No chão, ao nível da água, viam-se numerosos arbustos em flor, muitas vezes inteiramente recobertos de convolvuláceas, passifloráceas ou bignônias. Os troncos caídos e semi-apodrecidos eram revestidos de parasitas de singulares aspectos, algumas belamente floridas. Atrás delas, no interior da floresta, pequenas palmeiras formavam o fundo do cenário, com seus caules curiosamente conformados e envolvidos pelos mais diversos tipos de cipós.
Não faltavam os seres animados para completar o quadro. Araras de brilhantes penugens escarlates e amarelas passavam voando continuamente por sobre nossas cabeças, enquanto os barulhentos papagaios e periquitos iam de uma árvore para outra em busca de alimento. Viam-se por vezes sobre as águas, suspensos dos galhos das árvores, os ninhos dos japins amarelos [...], perto dos quais voejavam seus donos, neles entrando ou deles saindo continuamente. Realçava o efeito visual o fato de que as cenas sucediam-se umas atrás das outras, à medida que seguíamos pelos meandros do igarapé, numa contínua variedade de paisagens. Passada uma curva, deparávamos com um bando de elegantes garças brancas, pousadas num tronco caído que se projetava da margem sobre as águas. Logo que nos avistavam, as garças alçavam voo e fugiam, mas nós as víamos de novo na curva seguinte, e depois na próxima, e assim por diante durante boa parte do percurso. Vimos também muitas borboletas de cores alegres, pousadas nos arbustos em flor. E de vez em quando, num trecho lamacento da margem, avistávamos um preguiçoso jacaré que repousava ao sol". Alfredo Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas Negro. 1979, p. 70.



Garças.
Pintura de Jessie Arms Botke (1883 -1971)
 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma vida animal abundante


"A vida animal também é abundante. Papagaios e gaviões gritavam, bandos de periquitos chilreavam em revoada barulhenta de um grupo de árvores para outro e, quando cavalgávamos sobre a areia plana e firme e o suave relvado, muitos outros pássaros apareceram, como as pombas-trocazes cinza-pérola, pombos marrons e numerosas rolinhas castanhas e, em alguns dos belos laguinhos e em suas margens de relva, juncos e plantas aquáticas, havia uma abundância de aves aquáticas, marrecos, galinhas d´água (quase iguais à galinha da charneca do Leicestershire, (Gallinula chloropus), numerosos quenquéns cinza com listras pretas, que emitem um grito como o de um gato, e a jaçanã gritadeira comum (Parra jacana), encontrada em todos os pântanos do Brasil. Também avistei um magnífico socó-boi, de pé na água, com seu longo pescoço enfiado entre os ombros, e soltando de vez em quando sons como estampidos. [...]". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 66-67.
 
 
 
Socós (Arapapá - Taquiri - Socó-boi).
Álbum de aves amazônicas -1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


domingo, 5 de março de 2017

Tesouros botânicos


"Uma vegetação totalmente diferente, de uma exuberância e selvagidade autenticamente tropical recebeu-nos aqui. Árvores de folhagem, de um tamanho gigantesco nunca visto erguiam-se para o infinito. Na base dos troncos retos como velas, de uma circunferência monstruosa, corria para todos os lados raízes em forma de paredes, que nós devíamos ultrapassar. Nas esguias palmeiras de paxiúba, que com numerosas raízes aéreas se agarravam no solo, trepavam os filodendros com folhas largas, e outros parasitas subindo para o alto. Em cada racha das árvores, em cada galho seco, em toda a parte onde poderiam encontrar um pouco de alimento, tinham se aninhado as mais diversas orquídeas. Quantos tesouros botânicos estavam abrigados nestes desconhecidos trópicos selváticos!" Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens ao noroeste do Brasil (1903-1905). 2005. p. 238-239.
 
 
Oncidium limminghei.
 Lindenia: iconography of orchids, v. 1, 1885