terça-feira, 30 de agosto de 2016

As auroras e os crepúsculos na Amazônia


"Nas regiões sob o equador, já anteriormente o disse, as auroras e os crepúsculos processam-se com incrível rapidez. A escuridão é completa. Mas, sem sabermos como apareceram, vemos no nascente umas nuvenzinhas acinzentadas, ou de um branco sujo, e de contornos esbatidos. Dez minutos depois, tornam-se brancas, e já vemos distintamente recortadas contra as profundezas do céu ainda escuro, as copas das árvores ou colinas desse lado. No poente, a escuridão é ainda completa e nem distinguimos as árvores e barrancos à nossa volta. Poucos minutos depois, já as nuvens são flocos de neve, debruados de ouro. Da mesma coloração, esguios farrapos flutuam mais alto.
E já é dia. A fresca viração que começa soprando, leva um frêmito de vida às mais altas árvores, às palmas das paxiúbas e açaizeiros, agitando-as, como num espreguiçamento, para de todo despertarem. É dia claro, mas do sol só vemos, ainda, as labaredas incendiando as nuvens. [...]". Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil. 5a. série: Purus e Acre. [s.d.], p. 41.
 
Cachoeirinha de Cupati; em primeiro plano, uma paxiúba-barriguda.
C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum, 1823-1850
 


sábado, 27 de agosto de 2016

Diversas espécies de pássaros


"A quantidade das diversas espécies de pássaros nas florestas do Maranhão parece maior ainda que a dos quadrúpedes. É notável que quase nenhum tem canto agradável: é principalmente pelo berrante e pela diversidade de cores da plumagem que eles interessam.
Nada iguala a beleza das penas do colibri, de que vários autores falaram, e que se acham na América em toda a Zona Tórrida. Notarei apenas que apesar de que ele passa comumente por habitar somente os países quentes, não os vi em nenhuma parte mais numerosos do que nos jardins de Quito, cujo clima temperado mais se aproxima do frio do que do grande calor. O tucano, cujo bico vermelho e amarelo é monstruoso em proporção com o corpo, e cuja língua a modo de pluma solta  passa por ter grandes virtudes, não é tampouco particular do país de que trato. As variedades de papagaios e araras, em tamanho, cor e aspecto, são sem conta; entre os primeiros rareiam os inteiramente amarelos, com manchas verdes nas extremidades das asas. Destes só vi dois no Pará. Não conhecem aí absolutamente a espécie cinzenta, que tem a ponta das asas cor de fogo, e tão comum na Guiné. [...]". Charles Marie de La Condamine (1701-1774). Viagem na América Meridional descendo o rio das Amazonas. 1944, p. 121.
 
 
Beija-flores.
Álbum de aves amazônicas - 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ninhal de garças


"A garça real, na alvura de suas penas e na sinuosidade de suas linhas de contorno, é dos mais belos ornatos destas paisagens ribeirinhas dos rios marajoaras. Quando a vemos à beira d´água, a projetar no espelho líquido sua silhueta esbelta, mais nos parece ver concretizado o que julgáramos criação imaginosa de pincel artista. Quando assustada pela embarcação que se avizinha, alça brandamente o voo, dando ao longo colo curvas estranhas, mas sempre graciosas, é majestosa e bela.
Pousada nas árvores, a contrastar a candidez da plumagem com o verde da ramaria, é como enorme magnólia a cujo peso balouçam os galhos em que descansam. Se isolada é graciosa, na multidão é importante, pois a larga envergadura multiplicada dezenas de vezes forma grande e cândida nuvem em que a luz do sol rebrilha intensamente.
A nidificação da garça real oferece espetáculo magnífico a quem lhe pode descobrir o local escolhido para esse fim. Não se encontra isolado o ninho da garça, como sucede com tantas outras aves. Sobre sítios tranquilos, longe do bulício das povoações ou mesmo das moradias das fazendas, as garças, na época instintivamente escolhido, começam a esvoaçar por  largo tempo. Sobem às alturas, fazem demoradas evoluções, sempre sobre o local escolhido e depois descem.
Torna-se então febril a atividade construtora dos ninhos. É um vaivém constante. Umas saem, outras regressam, sem se impedirem na faina. É como uma colmeia de grandes abelhas brancas que não repousam enquanto o dia não declina. Dentro em breve, os ninhos estão prontos e em cada ninho há 3 ovos. [...].
Observação interessante: as garças permitem que certas aves nidifiquem entre elas. São poucas essas privilegiadas e nem sempre são da família: há palmípedes que gozam dessas graças das garças". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico. 1976, p. 365.
 
 
 

Garças. (Detalhe)
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna  - Museu Goeldi

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma abertura na floresta como uma moldura de folhas


"Parei por um momento para contemplar uma abertura na floresta como uma moldura de folhas, dando para as águas iluminadas do rio lá embaixo no vale sinuoso, o clarão brilhante em forte contraste com a profunda sombra do interior da floresta, que ressoava com o zunido constante dos insetos, tais como as notas agudas de mosquitos azul-metálicos, o zumbido de um besouro tonto trombando cegamente em uma árvore, e o assovio monótono das muitas cigarras, todos se misturando melodiosamente ao borbulhar distante do rio  quando passa pelos galhos pendentes das árvores e quando um martim-pescador azul mergulha como uma joia faiscante dentro d´água, de um galho avançado e murcho, coberto de bromélias carmesins, trepadeiras, orquídeas, musgos  cipós pendentes, fazendo balançar na brisa suave um ninho de japiim [...].". James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v.2, p. 81.
 
 
Rudolfiella aurantiaca.
 Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010.
 

 
 
 



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O bem-te-vi e seu jeito de viver


"[...]. Como feitio moral do bentevi, podemos compara-lo a certos indivíduos falastrões e esparramados.
Mal chega a um lugar, arma logo um alvoroço.
Voa daqui para ali, revoa e volta, pondo em cada fronde um alarido. [..].
São sociais e vivem em pequenos grupos e, entre os da sua malta, reina a melhor cordialidade, mas não querem intimidade com outros pássaros...Quando chega um amigo, é logo recebido com evidente e transbordante alegria, batidelas de asas, empinações de crista e uma permuta de saudações  que parecem não ter fim.
O dia inteiro o grupinho vive junto em correrias e brincadeiras, entremeadas de gritos, mas nas épocas dos amores, as coisas mudam. Cada macho procura a sua companheira, e os solteirões são escorraçados, segundo me parece...". Eurico Santos (1883-1968). Pássaros do Brasil. 1960, p. 102-103.
 
 
Bem-te-vi.
Ilustração de J. Th. Descourtilz (1796-1855)
História natural das aves do Brasil. 1983
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A floresta


"[...]. Uma cigarra aguda, penetrante bem próxima, de repente assusta a gente como um escape repentino de vapor de uma máquina e atrai nossos olhos para o labirinto circundante de enormes troncos arqueados, pontilhados de líquens e musgo; os cipós, entrançados caindo com cordas festonados, enrolados sobre o chão ou envolvendo os troncos como imensas cobras; arbustos que lembram murta; os longos troncos das árvores novas lutando para alcançar a luz do sol; samambaias gigantes e palmeiras esguias; as borboletas flutuantes como manchas escarlates na luz sombreada, o leve odor combinado de especiarias, musgo e folhas úmidas em decomposição. É tudo a mesma floresta que se vê em toda parte, só variando nos detalhes, pois a cada passo ela é outra". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 81.
 
 
 
Dentro de uma floresta virgem.
Por Johann Moritz Rugendas  (1802 - 1858)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Urucu


"Urucu (Bixa orellana) é dedicado a Francisco Orellana, primeiro que navegou o Amazonas. É uma das plantas mais conhecidas entre nós pelo emprego que tem na arte culinária. Com as belas flores de pétalas cor de rosa, ou com as panículas de capsulas pardacentas e espinhosas, sempre se torna recomendável como árvore útil e de ornamento.
O seu principal emprego está na polpa viscosa, resinosa e vermelha ou cor de laranja, segundo as variedades, que envolve as sementes. Com esta polpa que tem um cheiro esquisito, os índios se pintam, não só para se fazerem bonitos, como para evitarem as ferroadas dos mosquitos. Com essa mesma polpa preparam uma massa dura e em paus, com que tingem não só os ornatos, como a cerâmica. Esta massa é exportada para o estrangeiro que dela se aproveitam na tinturaria. A cor é fixa e não se altera com o alumem e com os ácidos, porém, altera-se, com o tempo e com o sabão. [...]. A madeira é leve e empregada pelos índios para tirar fogo. Medicinalmente, a massa do urucu é antifebril e refrigerante e as sementes são estomáquicas. A raiz dizem ser digestiva. O pó que os índios denominam wakaka é afrodisíaco". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Hortus fluminensis ou breve notícia sobre as plantas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 1894, p. 19.
 
 
Urucu (Bixa orellana).
Anônimo, s.d.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, Brasil.


domingo, 7 de agosto de 2016

Um lugar pitoresco


"Um dos lugares mais pitorescos nos arredores de Belém é o banhado pelo rio Guamá, onde há florestas virgens que se estendem ao norte e ao sul da cidade. Gigantescos troncos de árvores aparecem naquelas solidões matagosas; ali se vêm a sapucaia (Lecythis) o pau d´alho, o bacuri, cujo tronco tem de cinquenta a sessenta pés de largura e cem pés junto às raízes. Essa magnífica vegetação encontra suas condições de desenvolvimento não somente nos raios ardentes de sol, mas também na umidade de que a terra está embebida. Aqueles colossos vegetais assemelham-se a déspotas, pois absorvem a vegetação de uma ordem inferior.
Encontram-se, frequentemente, naquelas florestas virgens, espaços bastante extensos, sem um arbusto, sem uma planta mais desenvolvida sequer. Mal se percebem algumas gramíneas, uma pequena liliácea de flores alvas, semelhante ao gladíolo, e, principalmente, muitas espécies de bromeliáceas e aróideas, entre as quais se distingue o Dracontium polyphillum, planta notável por sua haste da mesma cor da cobra cascavel. Vêm-se ali, pendentes do galhos de árvores, compridas hastes que se tomariam por cortiça e que são cachos de flores. Há uma espécie de sapucaia notável pela sua casca avermelhada, resistente, semelhante a um tecido grosso, que pode ser arrancada em grandes pedaços. Os índios se cobrem com essas cascas, para se protegerem dos insetos. Uma outra espécie do mesmo gênero tem a casca composta de compridos filamentos, muito resistentes, que batidos e amolecidos, servem para calafetar barcos e navios. Uma outra, ainda, a curatari, tem uma casca fina, vermelho-clara, que pode ser retirada em grandes pedaços, e das quais os índios se utilizam para fazer cigarros". Alcide d´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976, p. 80.
 
 
 
Dracontium polyphillum L.
Botanical Register, v 9, t. 700 A (1823).
Desenho de M. Hart


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O lindíssimo guará


"O verde daquelas árvores, uniforme e viçoso, alterna-se mais e mais com a folhagem diversa em muitas tonalidades adornada com grandes flores magníficas, ou com o penacho eriçado da palmeira jupati (Sagus taedigera M.), oferece uma visão incrivelmente pitoresca.
Bandos sem conta do íbis americano, guará (Eudocimus ruber) aninham-se nas copas dessas arvores marginais e animam o verde com o lindíssimo vermelho escarlate de suas penas. Dessa vista gozamos certa manhã, atravessando o rio num bote equipado com quatro remadores para percorrer a fronteira Ilha das Onças. Fomos beneficiados pelo vento de terra e chegamos uma hora depois, na margem oposta a uma opulenta fazenda pertencente a família  Faria. [...]". J. B. von Spix (1781-1826) e C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem pelo Brasil - 1817-1820. 1981, p. 51-52.
 
 
 
Guará e Tapicuru.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi