quinta-feira, 28 de julho de 2016

As manhãs e as noites do Pará



"As manhãs e as noites do Pará são de indescritível beleza. À noite tudo é calma e sossego; apenas de raro em raro se percebe o tímido sussurrar de uma brisa perfumada, e é preciso que se tenha muito viva a imaginação, para que se conceba algo de mais belo que o plenilúnio, em todo o seu esplendor. A luz prateada do luar empresta à folhagem escura e exuberante da vegetação um brilho peculiar que não se consegue traduzir em palavras enquanto que lá em cima palmeiras sem conta, balançando suas folhas esguias, dão maior encanto e mistério ao ambiente". Daniel P. Kidder (1815-1891). Reminiscências de viagens e permanência no Brasil (Províncias do Norte) 1951. p. 188.
 
 
 
C. Fr. von Martius (1794-1868)
 Historia Naturalis Palmarum - 1823-1850

 
 
 
 
 
 
 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O reino da Victoria regia


"[...]. Mas tanto nos rios de água branca como nos rios  de água preta, essa flora da várzea está sempre sujeita ao regime das enchentes e, consoante as sobras que lhe manda o rio e os acidentes do terreno, viverá  com água até a cinta por boa parte do ano. Igapós maiores ou menores serão justamente os baixios marginais, de drenagem precária e onde a vegetação vive quase permanentemente inundada. Não raro, tal seja a depressão do terreno, a água subirá a alguns metros de altura, num lençol corrido por grandes extensões e sobre o qual, sempre por igarapés, lagos e igapós, far-se-ão longas viagens de canoa, sem que preciso seja procurar uma só vez a calha natural dos rios, como dizem pode ser feito à margem direita do Amazonas, da boca do Tapajós até Coarí, já no Solimões, ou então, agora pela margem esquerda da foz do rio Negro até o Putumaio, umas duzentas léguas acima. E nada mais encantador do que um desses percursos, que não raro nos colocarão quase no mesmo plano da copa do arvoredo, com orquídeas a se nos oferecerem, frutos ao alcance da mão, pássaros cantando ao nosso ouvido e toda a bicharada bem pertinho.
Se ainda, navegando por esse dédalo fluvial da Amazônia, que no dizer de Agassiz é um arquipélago num oceano de água doce, entrarmos por qualquer furo ou igarapé que nos conduza a um dos seus inúmeros lagos, onde, ao contrário dos igapós sombrios, o sol bata de chapa sobre a superfície do espelho líquido, então estaremos em pleno reino da vitória-régia, com o seu séquito de mururés, aguapés, golfos e outros nomes que se deem às plantas aquáticas, sobre as quais brincam jaçanãs e esvoaçam jacinas de asas irisadas. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hileia amazônica. 2. ed. 1955. p. 12-13.
 
 
 
Victoria regia.
 Lithograph by Ernst Heyn, 1892.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Alguns coqueiros cultivados


"[...]. A viagem para o norte, ao longo da praia é fatigante, em parte na areia solta; por isso, já era tarde do dia quando atingimos o lugar de destino. Encontramos, a caminho, bonitos cercados de mimosas fechando os quintais de algumas habitações, e também alguns coqueiros cultivados (Cocos nucifera), carregados de frutos, grande raridade nessa região. Passamos através de plantações de mandioca, onde os pés se erguiam dentre os troncos derrubados e semicarbonizados, e o chão era regularmente revolvido em torno das raízes, como se faz com as batatas. Atingimos depois trechos pantanosos, vestidos de altaneiras bignônias de alvas flores e de árvores imponentes. Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1989, p 85.
 
 
 
Cocos nucifera.
C. F. P. von Martius. The Book of Palms. 2015.


domingo, 17 de julho de 2016

Pernaltas marisqueiros


"Já almoçados, prosseguimos derrota pouco depois das onze e, às dezessete, saltávamos numa prainha, à margem direita.
Foi pouco interessante o percurso de hoje... É verdade que vimos pela primeira vez, não só algumas palmeiras babaçus, como um pavãozinho do Pará, muito surpreso à aproximação daqueles monstruosos bichos que lhe deveriam parecer as nossas canoas.
Sempre pensei que aqui viesse encontrar bandos e mais bandos de garças, guarás, passarões e outras aves ribeirinhas, tão abundantes em vários pontos da Amazônia. No entanto, exceção feita de algumas raras corocas ou maguaris que vemos de vez e quando, assim mesmo sempre isolados, as margens apresentam-se continuamente ermas e silenciosas. Não resta dúvida que neste rio, de águas pretas, ao contrário das de aluvião, quase não existe a vegetação litorânea, principalmente os capins aquáticos e praieiros, muito propícios à proliferação dos peixes, que por seu turno, atraem os pernaltas marisqueiros". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930. p. 198-199.
 
 
 
Tuiuiu, Passarão, Ganso-cor-de-rosa, Curicaca, Coró-coró, Guarás.
Desenho de Ernst Lhose (1873-1930)
Álbum de aves amazônicas - 1900-1906
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


quinta-feira, 14 de julho de 2016

O Tucano-de-Bico-Preto


"A primeira vista, as espécies do gênero a que pertencem os tucanos nada inspiram a seu favor. Aquele bico de tamanho desmesurado parece incomodar a ave com o seu peso ou dá ideia de uma arma defensiva. Nada mais inexato. Tal trambolho, dando à fisionomia do tucano um ar tão estranho, é internamente constituído por células de paredes membranosas e extremamente leve. E nada há a temer do bico que mal consegue dar pequeno apertão na mão de quem apanhe uma dessas aves ao cair ferida. [...].
O tucano-de-bico-preto, notável pelo seu bico cor de ébano com bordos lisos, ostenta na base superior do mesmo uma faixa azul que se esvai após a morte da ave. É o mais procurado pelos naturais por causa da viva cor de laranja que ostenta na região da garganta. [...].
Vive em bandos de quatro a dez indivíduos e percorre as florestas onde crescem as bicuíbas, as caneleiras, as mirtáceas e os palmitos.
O amadurecimento dos frutos deste último vegetal é o índice mais seguro da época em que aparecerão os tucanos, pois nas outras quadras do ano, de novembro a fevereiro, é o período em que esta espécie viaja de montanha a montanha ou ganha a espessura das grandes matas para construir seu ninho. [...].
O voo desta ave não é longo, e é feito em linha sinuosa, elevando-se aqui e mergulhando acolá, como o do pica-pau verde da Europa. Um pouco depois de se levantar o sol e um tanto antes dele se recolher, juntam-se os tucanos-de-bico-preto em uma grande e desfolhada árvore, para numa cantoria em conjunto, verdadeira gritaria em tom agudo, na qual cada um procura gritar mais do que o outro e assim ficar até que a noite chega e os convida a procurar abrigo". J. Th. Descourtilz (? -1855). História natural das aves do Brasil. 2. ed. 1983, p. 58.
 
 
 
 
J. Th. Descourtilz
História natural das aves do Brasil
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu  Goeldi


segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Mamorana


"Mostraram-me hoje uma mamorana com flores e frutos. Tive oportunidade de referir-me a essa árvore na Amazônia Misteriosa e lá está, a certa altura do primeiro capítulo: "Durante o percurso, o Manoel avistou uma mamorana, reconhecida por suas flores rajadas de vermelho e branco, e quis aproveitar para colher um pouco de estopa".
Tudo isso é verdade. A árvore dá mesmo boa estopa e tem as flores coloridas daquela maneira. Todavia, por causa dessas mesmas flores é que eu jamais a identificaria. Nunca pude imaginar tão grandes e também aos frutos que vultosos, piriformes, revestidos de felpa castanha, dão a árvore um caráter pugilístico, pondo à ponta de cada um de seus ramos enormes manoplas protegidas para o jogo do boxe. Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930, p. 188.
 
 
Pachira aquatica. Aublet - . Bombacaceae.
Annales de flore et de pomone ou journal des jardins et des champs, ser. 3, vol. 1 t. 9 (1817)

 


sábado, 9 de julho de 2016

O Sabiá


"[...]. É sem favor os sabiás merecem tal conceito; o repertório desses flautistas das nossas matas nem sempre é extenso e variado, mas é sem dúvida à doçura da voz e ao seu timbre que se referem os poetas e demais apaixonados pelas "aves que aqui gorjeiam". O verdadeiro cantor é o "sabiá-laranjeira" de barriga vermelha e por isto também chamado "sabiá-piranga" em guarani; seu único rival, e que até certo ponto o vence pela variedade do canto, é o "sabiá-una", com a cabeça, asas e cauda pretas, de resto cinzento e com bico e pés amarelos. [...]". Rodolpho von Ihering (1883-1939). Da vida dos nossos animais. 1953, p. 95.
 
 
 
Sabiá-laranjeira.
 J. Th. Descourtilz. História Natural das aves do Brasil. 1983.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna


sábado, 2 de julho de 2016

Os Beija-flores


"Muito se tem escrito e noticiado sobre este assunto. Mas no entanto eu prefiro, ao descreve-lo, guiar-me pelas minhas próprias impressões.
Cedo começa a ocupação diária desses pequenos cavaleiros "sans peur et sans reproche". São dos primeiros a despertar. Ainda o sol não nasceu, já o estão esperando pousados em um galho fino, elevado no meio da vegetação, de onde goteja o orvalho da noite à margem de um ribeiro, à beira de uma floresta. Mal o astro do dia começa a lançar uma fisga de luz no vapor d´água em forma de fumaça, voam-lhe alegremente ao encontro dessas avezinhas, zumbindo e como que em folguedos, conservando-se muitas vezes durante  minutos em um mesmo ponto do espaço. Parece que lhes causa sensação agradável e salutar o sorverem esses primeiros raios matutinos pela sua plumagem, a qual cintila tanto como vimos nas várias espécies, no que há de mais esplêndido no mundo das cores. Voltam várias vezes ao pouso predileto para descansarem um pouco e cuidarem da toilette da manhã. De repente porém somem-se - já é completamente dia. Admiramos esta mudança brusca, mas nestas avezinhas todas as deliberações são inspirações rápidas, incalculáveis, que com velocidade pasmosa são traduzidas em atos. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Os Beija-flores. Chácara e Quintaes, v. 52, n. 3, p. 341-342.
 
 
Beija-flor-de-topete. 
William Swainson. A selection of the birds of Brazil and Mexico. 1841.