quarta-feira, 29 de junho de 2016

A palmeira Miriti e suas grandes ventarolas farfalhantes


"Desejando falar mais detidamente a respeito de uma das muitas palmeiras amazônicas, foi deste ponto de vista etnográfico que recaiu a nossa escolha sobre a miriti.
De fato, já pela sua imensa área de dispersão, sabido que tanto habita a várzea, desde o estuário, como povoa os campos e aí viceja, por vezes, como nas faldas do Roraima, a mais de mil metros de altitude, já por todas as serventias que dela se podem tirar, nenhuma outra palmeira da Hileia será mais útil ao ameríndio do que a nossa Mauritia flexuosa. [...].
De espique ereto e glabro, coroado  a quarenta e até cinquenta metros de altura por um tufo de largas folhas que se dispõem quase à maneira de um leque, é de vê-la, onde quer que se apresente, seja na espessidão da mata, seja nos descampados ermos, seja isolada, seja em família, dominando sempre pela esbelteza do seu porte e a agitar no azul do céu as suas grandes ventarolas farfalhantes.
Avista-la de longe, na aridez dos grandes chapadões, é ter a certeza da boa aguada, da cabeceira acolhedora, do olho d´água dessedentante, e para ela poderá dirigir-se pressuroso o esfalfado viajor. E, se a água não houvesse pelos arredores, a própria palmeira lhe daria, na seiva do seu caule, a mais deliciosa das bebidas, um vinho extremamente doce, tão doce que, engrossado pela evaporação, se transforma em mel e este em açúcar e, se fermentado, passa a ter efeitos ebriáticos. Infelizmente, a obtenção desse licor pede o sacrifício do altaneiro vegetal. Será preciso derruba-lo e abrir no seu espique um ou mais covos, nos quais se acumulará o líquido apetecido. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hileia amazônica. 2. ed. 1955. p. 52-54.
 
 
 
 
 Buriti ou Miriti.. Mauritia flexuosa.
Pintura e Louise von Panhuys (1763-1844)


domingo, 26 de junho de 2016

Os melhores cantores da selva


"Entre os pássaros da selva há melhores cantores que entre os seus irmãos da campina. Embora a família dos rouxinóis, considerados os grandes virtuoses do mundo alado, não tenha nenhum representante no trópico, aparecem entre primos dos canários (Fringilidas) e os tangarás (Pipridas) notáveis artistas de grande mérito, escolhendo alguns, para os seus trinados, o mais escondido do arvoredo, trazendo a confusão aos que os procuram identificar. Formou-se na Amazônia a lenda do Uirapuru, escolhendo o silêncio da mata para fazer ouvir o seu canto tão variado e belo que os outros pássaros emudecem, e lhe fazem uma corte comovida e atenta, estranhando Humberto de Campos: "ainda existir um pássaro no mundo que se fique a escutar quando outro canta!". Cândido de Mello-Leitão (1886-1948). A vida na selva. 1940, p. 123.
 
 
 
 
Uirapuru-verdadeiro-Juruviara-Verdinho-coroado.
Eurico Santos. Pássaros do Brasil, 2004.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Belas aves


"[...]. O silêncio que reina nessas solidões, é interrompido pelo canto forte das araras vermelhas, do surucuá (Trogon) e outras aves. Nessas paragens, onde o amigo e pesquisador da natureza é solicitado a cada passo por coisas interessantes e novas, éramos obrigados a parar por muito tempo e penetrar no âmago das matas em perseguição de animais que até aí não havíamos tido ocasião de ver.  Muitas belas aves nos alegraram, entre as quais era muito comum a rendeira de duas penas mais longas na cauda (Pipra caudata Lath.); encontramos também um novo "tangará" de cocoruto amarelo-vivo.
Depois de percorrer uma região que apresenta numerosas irregularidades de terreno, e que permite apenas um estreito caminho praticável a cavalo, chegamos ao vale de Jibóia, rodeado por todos os lados por altas florestas virgens. Aí é que se acham construídas as pequenas choças dos índios, [...]. Essas construções estavam cercadas por touceiras fechadas de bananeiras, por trás das quais as árvores gigantescas da floresta, cerradas umas contra as outras, se erguiam como colunas de um pórtico, entremeadas de uma multidão de plantas diversas, formando como que uma muralha. Do fundo dessas matas sombrias, ouvia-se sair frequentemente o agradável canto da chamada pelos portugueses pomba amargosa (Columba locutrix), de que já falei. Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958. p. 430.
 
 
Pombas
Álbum de Aves Amazônicas.
 IIustração de Ernst Lohse. (1873-1930)
 


terça-feira, 21 de junho de 2016

Um amante das palmeiras


"[...]. As laranjeiras estão bebendo sol; as folhas das palmeiras ondulam e acenam e torcem a luz em seus dedos delicados e fazem padrões caleidoscópicos para seu próprio adorno. Não, não! O dia também está cheio de gente - a minha gente - corpos e corações reais, construindo essa grande vida que vibra, com sua maravilhosa umidade, sua infinita variedade. As pessoas falam das palmeiras como se fossem todas uma coisa só. Há trinta espécies de palmeiras nos arredores de Taperinha, desde a marajá-i de quatro pés de altura, à dominadora inajá, e cada espécie tem sua própria soberba majestade, ou graça delicada. Agora sou um amante das palmeiras. Se alguém mais insistir que elas são como "espanadores atingidos pelo raio" desejo que saboreie sua opinião. [...]".  Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 149-150.
 
 
Oenocarpus minor Mart. Bactris acanthocarpoides Barb. Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989.
 
 
 
 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Papagaio-verdadeiro


"[...]. Os tupis chamavam a esse papagaio, Aiuru ou Ajuru e Ajuru-etê e estimavam-no como o mais dócil e mais domesticável.
Também é chamado Ajuru-curuca, ou melhor aiuru-curuca. Curuca quer dizer resmungador. Coroca terá origem em curuca? Velha coroca não será velha remungadora?
Entre nós pode ser considerado o mais vulgar e eloquente dos palradores. Seus talentos oratórios são incontestáveis. Sabe tudo que lhe ensinam, canta, assobia, ralha, pilheria e descompõe.
Não sei a razão por que também recebem o nome de papagaio-grego.
[...]. Durante o período de nidificação, de outubro a março, anda sempre o casal idilicamente juntinho. No ninho, feito segundo a norma geral da família, no oco de um tronco encontram-se dois ovos brancos, que medem 37x28mm. [...].
Uma vez terminada a incubação, reúnem-se as famílias em grandes bandos em procura das fruteiras silvestres. Quando descobrem uma roça de milho, então é um regabofe. Abatem sobre ela muito caladinhos e só se ouve o "trac-trac" das mandíbulas.
À tarde, após as excursões, volta o bando gárrulo ao pouso escolhido e, antes de se acomodarem, disputam os papagaios entre si os melhores sítios, surgindo altercações, roucas imprecações e beliscadas de arrancar penas.
Quando tudo já parece que serenou, rebenta nova discussão entre vizinhos mal acomodados e, de novo, o bando todo protesta contra o distúrbio e novamente o berreiro se alastra pela floresta.
Adensa-se o crepúsculo, as sombras da noite descem e então reina o silêncio no bivaque dos papagaios...". Eurico Santos (1883-1968) . Da ema ao beija-flor. 1979, p. 236.
 
 
Papagaio-Verdadeiro (Amazona aestiva)
Desenho de Antônio Martins
Brasil 500 pássaros. 2000


segunda-feira, 13 de junho de 2016

As casas de campo na "Cidade do Pará"


"[...]. O mundo peculiar, que se inicia com o Pará e se alonga por toda a extensa rede fluvial que ali começa, quase na direção de todos os pontos cardiais, já foi descrito muitas vezes como de maravilhoso encanto. E oferece de fato tão variadas maravilhas, tal diversidade de belezas que aí especialmente o coração e o espírito se refazem por igual, como em qualquer parte do mundo.
Na verdade, o estado de primitividade da Natureza, mesmo nos arredores da cidade atingidos pela civilização avassaladora já recuou várias vezes, embora triunfando igualmente por toda parte sobre a arte e a cultura, ela tenha deixado seus soberbos representantes e plantado mesmo outros. [...]. As viçosas bananeiras ensombram lindas casas de campo; a Tacsonia maracuya, uma passiflora de frutos gigantescos, trepa de latada em latada e mostra por baixo do verde-escuro da folhagem sua esplêndida florescência. E mais, mangueiras, artocarpos e numerosas anonáceas, laranjeiras, cafeeiros e tudo o mais que  viçosa vegetação tropical pode apresentar; tudo isso se aglomera em redor das bonitas casas de campo, nas quais o paraense procura escapar à canícula tropical.
As casas de campo e a vegetação alcançam toda sua beleza, sobretudo nas proximidades da igreja de Nazaré. Uma pequena igreja com uma praça relvada, celebra todos os anos a grande festa comemorativa do milagroso salvamento dum naufrágio e das angústias da morte, realizado pela Mãe de Deus.
A cidade inteira acorre a essa festa e diverte-se, esvaindo-se em suor os europeus, sob o calor tropical. Aí vi as casas de campo de melhor gosto e reintegrei-me na mais perfeita cultura nórdica. [...]. Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No Rio Amazonas (1859). 1980, p. 30-31. 
 
 
 
Largo de Nazareth.
Pintura de Joseph Leon Righini (1820-1884)
 


sábado, 11 de junho de 2016

A vistosa flor-da-paixão



"Via de regra, as orquídeas não são tão abundantes nas florestas do interior como nas mais próximas do mar, onde pendem das árvores com tufos de rosas e perpétuas. Os ramos superiores das árvores são mais ricos em Cactáceas pendentes e, embaixo, sustentam os fios da bizarra e grisalha barba-de-pau ou Tillandsia. Mais abaixo, ainda florescem guirlandas e festões de Aráceas, Marantáceas e tinhorões, com suculentas folhas cordiformes, verde-escuras. Notável é uma bromeliácea com um cálice vermelho coral e os pontos das folhas passando da cor de chama para o azul arroxeado. Há ramalhetes de flores vermelhas, amarelas e alaranjadas, em espigas e umbelas, ora com o lírio, ora fazendo lembrar o jacinto, apertam-se umas contra as outras e, algumas vezes, uma espécie enraizará em outra espécie diferente. As trepadeiras são bauínias lenhosas, paulínias e banistérias, misturadas com convolvulos e ipoméias cobertas de flores azuis, muito parecidas com o nosso convôvulo comum; a baunilha, cujas vagens aqui alimentam ratos; a granadilha, cheia de "maçãs", e uma variedade da esquisita e vistosa flor-da-paixão. Muitas delas, Ampeliáeas, Aristoloquiáceas, Malpiguiáceas e outras, são famílias que pertencem a este Novo Mundo, ou nele se desenvolveram melhor, e cada uma delas dividida em muitas espécies. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 1976 p. 252.
 
 
 
Maracujá e sua flor-da-paixão
Ilustração de J. Th Descourtilz


terça-feira, 7 de junho de 2016

Um verdadeiro orquidário natural


"[...]. Num pequeno trecho do campo com arbustos esparsos, a cerca de uma milha da aldeia, encontrei uma grande abundância de orquídeas. Nunca havia visto antes tantas orquídeas reunidas num único local. Aquilo era um verdadeiro orquidário natural. Depois de examina-las por cerca de uma hora, verifiquei a ocorrência de cerca de 30 espécies diferentes. Algumas não passavam de plantas diminutas, pouco maiores do que musgos. havia outras, porém, que eram enormes espécies semiterrestres, formando touceiras de 8 ou 10 pés de altura. Poucas estavam floridas, e a maior parte delas possuía florzinhas muito pequenas, conquanto bonitas. Mas num determinado dia eu fiquei agradavelmente surpreendido ao deparar subitamente com uma flor magnífica. Brotando do tronco apodrecido de uma árvore, á altura dos meus olhos, lá estava um verdadeiro ramalhete formado por 5 ou 6 dessas flores. Elas eram quase redondas, tinham 3 polegadas de diâmetro e sua coloração era amarela, passando de uma tonalidade pálida, que lembrava a da palha, à mais dourada e escura que se divisava na base do labelo. Como sua esquisita beleza sobressaía naquele local selvagem, arenoso e estéril!
Daí a um ou dois dias, descobri outra bonita espécie, cujas flores, diferentemente do que ocorre com as da maioria das outras orquídeas, tinham vida muito curta, desabrochando pela manhã e durando apenas um único dia. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 193.
 
 
Orquídea. Oncidium iridifolium Lindl.
Lindenia-iconographie des orchidées, v. 4, 1888 


domingo, 5 de junho de 2016

Formas belas de vegetação


"Em várias ocasiões fiz excursões muito agradáveis pelas vizinhanças. Visitei, um dia, o Jardim Botânico onde cresciam plantas muito conhecidas pela grande utilidade das suas propriedades. As folhas da cânfora, da pimenta, da canela e do cravo desprendiam um aroma muito delicioso; e a fruta-pão, a jaca, a manga disputavam entre si a primazia da magnificência da folhagem. A paisagem dos arredores da Bahia quase que se caracteriza por estas duas últimas árvores. Antes de as ter visto, não fazia nenhuma ideia de que houvesse árvores capazes de projetar no solo uma sombra tão preta. As duas estão para com a vegetação sempre verde destes climas na mesma razão em que na Inglaterra, os loureiros e os azevinhos estão para com o verde mais pálido das árvores decíduas. Pode-se observar que, nos trópicos, as casas são sempre rodeadas das formas mais belas de vegetação, por isso que muita  delas são ao mesmo tempo as mais úteis ao homem. Quem poderia duvidar de que essas virtudes se achassem reunidas na bananeira, no coqueiro, nas muitas variedades de palmeiras, na laranjeira e na árvore da fruta-pão?". Charles Darwin (1809-1882). Viagem de um naturalista ao redor do mundo. 1860, p. 42.
 
 
Canela (Cinnamomum zeylanicum)
Carolyn Fry. Os caçadores de plantas 2014.
Acervo particular
 


sábado, 4 de junho de 2016

Um lugar pitoresco


"[...]. Cedo atingimos um lugar pantanoso e pitoresco, cercado de coqueiros novos e touceiras de helicônias. Formam estes a mataria baixa, acima da qual se altanam, imponentes, frondosas e sombrias, as grandes árvores. Eram comuns os "Surucuás" (Trogon viridis, Linn.) de cor verde, azul e amarela, cantando nos galhos sob a espessura das folhagens. [...]. É uma das aves mais frequentes nesses lugares. A floresta prosseguiu cada vez mais exuberante, e novas e magníficas flores não regatearam trabalho ao nosso botânico. Vimos cipós entrelaçados da maneira mais singular, notadamente lindas Banisteria, na sua maioria de flores amarelas, troncos de formas curiosas e, não raro, majestosas e imponentes coqueirais, ornamentos das florestas de que nenhuma descrição consegue dar uma ideia justa. Sobre nós, entre as ramagens, viam-se as belas flores das bromélias. Vozes inéditas de pássaros excitaram-nos o interesse, enquanto que a branca Procnias (Araponga) era particularmente comum".  Maximiliano , príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2.ed. 1958, p. 79.
 
 
Surucuá-Açu
Desenho de Antônio Martins
Brasil 500 pássaros. 2000.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Selva exuberante


"Teria tido uma impressão muito mais intensa e profunda dessa selva exuberante se o tempo me houvesse permitido estuda-la mais demoradamente, mas a atenção que era obrigado a prestar ao meu animal de montaria distraía-me do espetáculo da natureza. O solo era juncado de raízes e de restos de troncos, que o machado dos viajantes anteriores deixara ao desbravar o caminho acidentado. Os tocos que emergiam do solo eram mais perigosos ainda pois os animais nem sempre os notam, podendo tropeçar e machucarem-se seriamente na queda. Assim, tendo de dobrar os cuidados, eu não podia contemplar à vontade a interessante paisagem, e por isso não posso descrevê-la em seus pormenores. Guardo apenas a impressão causada por tão luxuriante conjunto de vegetação, bem como a de algumas formas ou espécies até então novas para mim. Entre estas últimas, chamou-me a atenção uma palmeira (Astrocaryum jauary) de tronco nodoso, que parecia formado de faixas, ora mais largas, ora mais estreitas. [...]". Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 148-149.
 
 
Astrocaryum jauari e Leopoldinia pulchra.
C. Fr. von Martius (1794-1868).  Historia Naturalis Palmarum  (1823-1850)