quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Sumaumeira


"Depois que partimos de Manaus, a floresta se mostra menos luxuriante e mais baixa nas margens do Solimões que nas do Amazonas, mais fragmentária, mais aberta. As palmeiras mesmo são menos numerosas do que antes, mas vê-se agora uma árvore que rivaliza em majestade com elas. Sua copa achatada, em forma de disco, domina a floresta das alturas, e vista de longe, ela tem alguma coisa de arquitetural tão regular é a sua forma. Essa árvore majestosa é a Sumaumeira. É uma das árvores, raras nesse clima, cujas folhas caem periodicamente, e, precisamente agora, ergue acima da massa verdejante da vegetação que a rodeia, uma copa arredondada, quase destituída de folhas. Os galhos de ramificação múltiplas, muitos nodosos, de simetria perfeita, são como o tronco cobertos por uma casca branca. Não deve tardar muito que a Sumaumeira readquira a sua verde coroa, pois já despontam aqui e ali as folhas novas. [...]." Luiz Agassiz (1807-1873); Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil - 1865-1866. 1938, p. 255-256.
 
 
 
Ceiba pentandra  (Sumaumeira) L. von Panhuys (1763-1844)
Waterclours of Surinam (1811-1824)


domingo, 24 de abril de 2016

Os encantos de uma região


"Os encantos de uma região vão-se revelando pouco a pouco, à medida que contemplamos as diversas partes que a compõem, e à proporção em que nossa educação e nossos hábitos nos permitem compreendê-los e admirá-los.
É isso, particularmente o que se dá e relação às regiões tropicais. Alguns desses locais, sem dúvida, poderão causar, à primeira vista, uma grande impressão, como se fossem algo absolutamente inigualável; todavia, na maior parte das vezes, será  somente com o passar do tempo que diversas peculiaridades tais como os costumes da população, as estranhas formas de vegetação e as novidades do mundo animal se irão apresentando de maneira a formar na mente uma impressão coerente e definida. [...].
Como um exemplo do que acaba de ser dito, posso mencionar que, durante a primeira semana de nossa residência no Pará, embora eu estivesse constantemente excursionando pelas florestas existentes nas cercanias da cidade, não consegui enxergar sequer um único beija-flor, papagaio ou macaco. E contudo, conforme posteriormente vim a descobrir, beija-flores, papagaios e macacos são ali abundantes! É necessário, porém, procura-los, o que exige certa dose de familiaridade com eles, a fim de encontrar os locais que frequentam. É preciso também alguma prática para que se possa avistá-los por entre a galharia das árvores, mesmo quando se pode escutá-los bem próximos da gente". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagem pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 18-19.
 
 
 
Colibris.
Pintura de  Martin Johnson Heade  (1819-1904).
 Tutt'Art@
 

sábado, 23 de abril de 2016

Os vales enflorestados


"Durante todo o dia atravessamos magníficas florestas sobre morros, uma terra que produziria com exuberância todas as plantas tropicais. A cana-de-açúcar permite a colheita, ano após ano, sem replante, por dez anos ou mais. O rio corre por um vale profundo e estreito, serpenteando entre precipícios cobertos de matas, cujos lados descem diretamente para a beira da água, sempre forrados de densa floresta. Alguns destes vales enflorestados eram extremamente pitorescos: o céu azul refletido na superfície do rio que coleia em torno das bases das encostas de vegetação verde-escura, onde as árvores são cada uma diferente de sua vizinha, algumas erguendo-se acima de suas companheiras e espalhando-se como um imenso guarda-chuva de folhagem verde-escura;  altos troncos cinza-claros, azuis, acamurçados e marrons, retos como um poste, destacam-se com clareza contra o fundo escuro e sombreado de cipós emaranhados e folhagem; a imbaúba de folhas prateadas e tronco esguio e alto, a begônia púrpura ou dourada, o pau-d´arco, são conspícuos tanto pela quantidade como por suas cores; árvores que possuem as características mais notáveis de todas as florestas, desde  Rio de Janeiro até aqui." James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 80.
 
 
 
Begonia peltata.
L´illustration horticole. Gand, v. 36, t 84. 1889.
 


quarta-feira, 20 de abril de 2016

As Saracuras


"As saracuras dão muita vida aos juncais e moitas de mangue das nossas praias daqui, às regiões baixas e pantanosas das embocaduras dos rios, às matas que bordam os ribeiros, às margens dos lagos e às úmidas campinas do interior. São aves extraordinariamente ativas, que vagueiam o dia inteiro e por assim dizer não descansam um segundo. Quem quiser observa-las nessa faina, deve procurar de preferência o romper d´alva, colocando-se em lugar protegido e conservando-se aí quieto. Não tardará a aparecer uma, depois outra, espiando cauta e desconfiadamente em volta, de cabeça erguida, na qual apresentam esplêndido aspecto os olhos ornados de íris cor de sangue. Se acham tudo em ordem e não reconhecem perigo, começam então a mover-se mais livre e despreocupadamente. Ora caminha ela vagarosa, agitando frequentemente a curta cauda, ora precipita-se rápida para um ponto onde avista alimento.
Às vezes solta um rosnado de satisfação que parte do mais fundo do peito e se pode comparar ao som que produz uma corda grossa, inferior de um baixão posta em vibração. [...].
[...]. Daí a pouco percebe-se também segunda Saracura, depois terceira, e no meio de alegres folguedos, em que, comicamente azafamados, correm umas após outras e vão à cata de alimentação, levam as primeiras horas da manhã, e rápido passa o observador o tempo a contemplar essa cena, que talvez pelo inverno lhe faça esquece o frio úmido nos pés.
De manhã e de tarde exibem de preferência o canto, que consiste num forte e duradouro "ko-ki, ko-ki" etc., ora produzido a uma voz, ora em coro, e que de vez em quando é interrompido por um baixo e profundo "gó-gó-gó".
Enquanto uma ou duas cantam, as outras correm para um e outro lado, e muitas vezes observei que outra ao mesmo tempo intrometia aquele som rosnado, como que fazendo-se baixo na orquestra. Tudo isso faz-nos a impressão de um divertimento de dança e canto executado segundo plano unitário, e no qual cada membro presente desempenha o seu papel
Às vezes também gritam durante o correr do dia, e que é tido como prenúncio de chuva. O fato é que pelo tempo de chuva se fazem ouvir com mais frequência". Emílio A. Goeldi (1859-1917). As aves do Brasil. 1893, p. 451-452.
 
 
Saracuras (Fig. 6) à direita
 Desenho de Ernst Lohse (1873-1930) - Detalhe.
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi


sábado, 16 de abril de 2016

Seringueiras


"Há, ainda, nos arredores da cidade, muitas árvores, que produzem borracha ou goma elástica, chamadas, pelos brasileiros, de seringueiras. É uma árvore  de tronco alto e fino, com o casco de um cinzento amarelado, áspera embaixo, lisa em cima. Essa casca secreta, às vezes espontaneamente, mas, em geral, quando é picada, expele um suco leitoso, que se endurece no ar; apresenta, então, cordões de um cinzento pálido, da grossura de uma pena de ganso e com o comprimento de algumas varas Quando recobrem galhos finos, esses filamentos formam tubos elásticos que, sem dúvida, ensinaram aos nativos que aquela substancia poderia ser utilizada com vantagem. Os próprios índios já haviam feito com ela seringas e tubos para cachimbos. Hoje, são os cultivadores isolados e os mestiços pobres que recolhem e preparam aquela goma. Esse trabalho lhes valeu o nome de seringueiros.
Embora a árvore da borracha seja abundante no Estado do Grão Pará e em toda a Guiana Francesa, a mais importante colheita de goma elástica vem da capital e da ilha de Marajó. Durante grande parte do ano, e principalmente nos meses de maio, junho, julho e agosto, os seringueiros fazem, nas árvores, entalhes longitudinais e prendem, em cima, pequeninos potes de barro, com um diâmetro de dezoito polegadas. Quando a árvore é vigorosa e sã, esses pequenos potes se enchem em vinte e quatro horas. Sua forma mais comum é a de uma pera, como podemos verificar pelo formato da borracha que chega à Europa. Algumas vezes, no entanto, a imaginação do seringueiro varia o seu formato: fazem escorrer a borracha em moldes de formatos bizarros, imitando frutas da região, peixes, macacos, onças, peixes-boi e mesmo a cabeça de um homem [...]". Alcide D´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976, p. 81.
 
 
 
Hevea brasiliensis.
Os caçadores de plantas. Carolyn Fry. 2014.
Ilustração de Franz Eugen Köhler, de 1887-8
Acervo de  Olímpia Reis Resque


quinta-feira, 14 de abril de 2016

A pupunha e seu fruto valioso


"A palmeira mais cultivada em Barra e nos sítios vizinhos, e que dizem nascer em estado silvestre a montante dessa cidade, é a pupunha, que suponho seja a mesma piriaô (Guilielma speciosa, Mart.) que Humboldt menciona ter encontrado no alto Orinoco. Seu fruto é talvez mais valioso como alimento que qualquer outro tipo de coco pois o mesocarpo contém grande quantidade de amido, e este às vezes se desenvolve de modo tal que o núcleo fica inteiramente obliterado. Assado ou cozido, e depois temperado com sal, seu sabor lembra muito o da batata. Costuma-se também servi-lo acompanhado de melado. Uma espádice de pupunha carregada com frutos maduros constitui uma das mais belas imagens proporcionadas pelo reino vegetal: os frutos são escarlates na metade de cima, amarelos na parte central e verdes na base". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 168.
 
 
Fruto da pupunha
 C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum. (1823-1850)
 
Palmeira pupunha
 C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum. (1823-1850)




 


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Os arredores de Belém


 
"Depois que se ultrapassa a linha dos jardins e quintais, onde crescem a noz moscada, o cravo, a canela e outras árvores de especiarias da Malásia, os arredores de Belém assumem, de súbito, o aspecto geral de um campo cortado de águas e florestas. Poucos caminhos, mas brejos, no meio dos quais foram abertos pequenos trilhos. Ordinariamente, as fazendas e sítios ficam na vizinhança da água, que constitui quase que a única via de comunicação, no meio daquela rede de rios, ribeiros, regatos, canais e lagoas. O colono do Pará, o índio, o mulato, estão a tal ponto habituados àquela existência aquática, que atravessam o rio, na sua foz, em uma canoa escavada em um tronco de árvore. Uma distância de várias léguas, o movimento da maré, a ressaca de barra, as ondas do largo, nada os intimida. Se a canoa vira, procuram pô-la de novo sobre a quilha e esvaziá-la de água e, se isso se mostra impraticável, alcançam a costa, a nado. Em geral, um daqueles pequenos barcos (montaria) vai preso à proa das embarcações de cabotagem, servindo para entrar nos canais que penetram no interior das terras". Alcide D´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976, p. 77.

 
 
 
Paisagem amazônica.
Desenho de Percy Lau (1903-1972). Tipos e aspectos do Brasil. 1966.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi
 
 

sábado, 9 de abril de 2016

As esguias palmeiras Açaí


"De ambos os lados  do vasto lençol de água elevam-se florestas virgens de altos troncos, interrompidos o mais aprazivelmente por eretas e esguias palmeiras açaí, que, leves e graciosas quais etéreas sílfides saindo das colossais paredes da floresta, inclinavam-se para a frente daquele caos de lianas, dentre as quais se salientavam sobretudo as purpúreas que muitas vezes revestiam inteiramente, como se fossem joias de coral, árvores de muito mais de trinta metros de altura.
Nunca mais esquecerei esta encantadora riqueza de colorido, que não nos fartávamos de contemplar; tampouco o lindo quadro, que um igarapé, vindo do leste e saindo das profundezas deste bosque encantado, nos oferecia na sua embocadura, permitindo-nos ver até ao mais íntimo desta maravilha da criação." Príncipe Adalberto da Prússia (1884-1948). Brasil: Amazonas-Xingu. 2002, p. 239.
 
 
 
Euterpe oleracea.
 C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum. 1823-1850


quinta-feira, 7 de abril de 2016

As fúrias de um furacão equatorial


"A bordo da goleta mercante, partimos para a cidade de Belém no dia primeiro de setembro de 1828. Abrindo velas à fagueira brisa, depressa deixamos de avistar Santarém com seus navios ancorados e suas duas torres, entrando em cheio no imenso Amazonas. A gosto se me dilatava o peito, navegando em alterosa embarcação naquele rio que tanto tem de largo quanto muitos da Europa de comprido, avistando grandes ilhas a correrem, chatas e extensas como pontões gigantescos cobertos de luxuriante vegetação, avistando a Guiana, admirando o movimento das ondas como em pleno oceano, e de vez em quando tendo ante os olhos um horizonte em que o céu se confundia com as águas do grande caudal. Poucos dias depois de entrado nele e em lugar muito largo e semeado de baixios e escolhos, tivemos que suportar as fúrias de um furacão equatorial. A trovoada não cessava e o vento soprava rijo. Nestas condições caiu densa noite. Eis senão quando o proeiro deu um grande grito em guarani: Itá (pedra). Não houve tempo senão de fazer força no leme; mais dois minutos, estava o barco perdido. Deitamos então âncora ao fundo, mas o rio parecia o mar em fúria, quebrando-se em vagalhões e espumando, e, como pela correnteza, o navio não podia por popa ao vento que soprava de N.E., recebíamos de flanco as vagas de modo demais incomodativo. Tão fortes eram os balanços, tão rápidos, que me era impossível ficar na rede, pelo que subi ao tombadilho, donde presenciei toda aquela cena de furor. Tão altos se elevavam os cachões, que uma falua que ficava próxima de nós, parecia querer vir se atirar dentro da goleta, subindo e descendo com o movimento das águas a seis metros de altura. Às 9 horas tudo entrou em calmaria; a trovoada dissipou-se; o rio voltou à primitiva tranquilidade; e o ar refrigerado soprou suavemente". Hercules Florence (1804-1879). Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. 1948, p. 333-334.
 
 
 
 
Vista do Amazonas perto de Monte Alegre.
 Hercules Florence. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas. 2.ed. 1948.
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (Museu Goeldi)


sábado, 2 de abril de 2016

Excelentes voadores e admiráveis mergulhadores


"[...]. O modo de vida de todas essas espécies tem muitos pontos de contato. Quando muito, consigo encontrar uma diferença no fato das espécies maiores mostrarem-se mais espantadiças diante do homem e costumam fugir já ao avista-lo de longe, enquanto que a pequena Ceryle americana muitas vezes deixa o homem chegar bastante perto. Todas elas excelentes voadores e admiráveis mergulhadores. Gostam muito de pousar  num ramo isolado pendente por cima da água, frequentemente na sombra  de arbustos e arvoredos debruçados num tronco da árvore ou uma estaca à margem do rio. Aí conservam-se muito tempo quietos, movem de vez em quando a cauda para cima e para baixo e eriçam, talvez para variar, as penas da cabeça. Como os seus pequenos e curtos pés - são só próprios para o pouso, mas não para o andar comodamente, raras vezes se mudam dos lugares que uma vez escolheram para se sentarem, e só quando por acaso lhes escasseia a caça. Quem observar por muito tempo um "Martim pescador", velo-á de repente esticar o pescoço, dirigir o bico verticalmente para baixo e, rápido como uma  seta desaparece ele, por momento debaixo d´água. Volta porém e retoma o seu lugar, sacode a água da plumagem e engole o peixe que apanhou, quando é pequeno, ou então prepara-o antes de o devorar, batendo-o fortemente contra alguma coisa resistente.
Também gosta de devorar caranguejos e siris; por isso os franceses e Caiena também lhe chamam "Martim-crabiers". O seu apetite é enorme [...].
O seu voo é muitíssimo rápido, tanto quanto possível em linha reta, porém junto dos ribeiros acompanha-lhes todas as tortuosidades voando quase rente à superfície da água. [...]. Ás vezes vêm-se voar alto no ar de uma para outra ilha, com gritaria penetrante, que se parece com kiá, kiá, kiá, [...]. São aves que dão na vista, e nos lugares que comumente habitam não tardam a ser notadas. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). As aves do Brasil. 1894, p. 189-191.
 
 
 
 
Mergulhões ou Martim-pescadores
Álbum de aves amazônicas. 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse  (1873-1930)-  (Detalhe)
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna (Museu Goeldi)