terça-feira, 29 de março de 2016

Barra do Rio Negro


"No dia 31 de dezembro de 1849 chegamos à cidade de Barra do Rio Negro. Na véspera desse dia, ao por do sol, ainda estávamos nas águas amarelas do Amazonas, mas continuamos remando pela noite a dentro, até bem tarde. Ao chegarmos à confluência do Rio Negro, junto a uns rochedos, paramos nos baixios da margem e ali pegamos alguns peixes. Quando raiou a manhã, vimos com surpresa que as águas haviam sofrido uma extraordinária modificação. Podíamos até imaginar que estivéssemos no Rio Estige, pois as águas que nos rodeavam pareciam antes uma tinta preta, a não ser onde as alvas areias, a alguns pés abaixo da superfície, rebrilhavam com laivos dourados. Na realidade, a água tem uma pálida coloração pardacenta, conforme se pode observar colocando-a num copo de vidro. Mas quando ela está reunida na volumosa massa deste rio profundo, adquire uma cor preta como azeviche, justificando plenamente o seu nome de Rio Negro. [...].
A cidade de Barra do Rio Negro está situada na margem oriental do Rio Negro, a doze milhas de sua confluência com o Amazonas. Assenta-se em terreno irregular, a uma altitude média de uns trinta pés acima do nível do rio. Atravessam-na dois córregos tão insignificantes que até parecem valos. Na época das chuvas, porém, as águas sobem consideravelmente nos seus leitos. Para atravessá-los, foram construídas duas pontes de madeira sobre cada um. As ruas são dispostas de maneira regular, mas não têm qualquer tipo de calçamento. Ademais, são esburacadas e cheias de altos e baixos tornando bem desagradável o ato de caminhar-se por elas à noite. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 109.
 
 
 
Barra do Rio Negro
Aquarela de Jacques Burkhart, 1865.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Palmeiras Paxiúbas


"Com a entrada neste grande rio, toda a vegetação mudou como por magia. A mais bela floresta virgem, que nos mostrava ao mesmo tempo tudo o que é grandioso e tudo o que é encantador que tínhamos visto nas florestas do Brasil, subia pela margem do rio como se quisesse tornar-nos a despedida mais penosa no último momento ou enfeitiçar-nos com o desdobramento na tranquila magia de suas sombras, de todos os encantos da natureza tropical. Majestosos troncos colossais com leves tetos de copas, impenetráveis maranhas de lianas quais paredes semeadas de lindas flores e entremeadas de todas as espécies de palmeiras imagináveis cada uma procurando exceder a outra em beleza e graça, acompanhavam a margem esquerda por onde agora seguíamos.
E como sabiam as palmeiras agruparem-se pitorescamente em volta das numerosas e umbrosas inflexões da floresta, como nichos, destes santuários escondidos nos quais os raios do sol da tarde quase que não podem penetrar, enquanto aqui e ali, uma audaz passiúba (paxiúba) com as leves raízes adventícias rodeadas de um montículo de plantas aquáticas verdes, elevava-se atrevida e alegre sobre um pedaço de terra separado da margem 7 a 15 metros, como sobre uma ilhota, e como se quisesse assim ser admirada por todos os lados. Aliás, as encantadoras e graciosas passiúbas pareciam ser entre todas as espécies de palmeiras as que predominavam aqui, depois delas, porém, a najá e a bacaba, ao passo que a miriti só raramente se mostrava". Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazônia-Xingu. 2002, p. 371.
 
 
Palmeiras Paxiúbas
Socratea philonotia & Iriartella spruceana.
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909).  Sertum Palmarum Brasiliensium, 1903.


quarta-feira, 23 de março de 2016

A orquídea Sobralia dichotoma


"Quando alcançamos a borda superior da vegetação, num trecho em que a inclinação da rocha é de pelo menos 45 graus, verificamos que a planta que, dada a sua resistência à força da torrente, ajuda a sustentar todas as que ficam abaixo dela é uma Bromeliacea cujas folhas lembram as do abacaxi, embora sejam menos rígidas e cujo caule morto tem 6 pés de altura [1,83m]. Abaixo dela se vêm extensas manchas de uma Orquidácea, a Sobralia dichotoma, cujos caules tufosos, dísticos e folhosos atingem de 5 a 6 pés de altura [1,52-1,83m] e trazem no topo umas poucas flores grandes, belas e aromáticas, quase inteiramente brancas, exceto quanto ao labelo, que é amarelo listrado de encarnado, por dentro. E torno das raízes dessa orquídea viam-se moitas de um musgo (Calynoeres) que ostentava frutos, aparentemente da mesma espécie frequente na floresta baixa que ocorre nos trechos de solo arenoso existente ao longo do alto rio Negro". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 256-257.
 
 
 
Orquídea. Sobralia dichotoma.
H.G. Reichenbach. Xenia oechidacea, v. 2, 1874


domingo, 20 de março de 2016

Lá no alto, nesse andar cheio de luz, aromas e flores!


"Lá no alto, porém, nesse andar cheio de luz, de aromas, de flores que se derramam em imensas panículas, ora amplamente abertas, como variegadas caçoilas, dias e dias, ora efêmeras, esgotando-se toda a floração em poucas horas, vamos encontrar um sem número de pássaros e aves escansoras, de cores vivas, metálicas, brilhantes, rivalizando com a pompa da flora ou melhor, aproveitando-se do próprio luxo de sua plumagem para se ocultarem dos inimigos, passando despercebidas entre as flores, fazendo  e desfazendo inflorescências rubras, amarelas, azuis, onde o alimento é farto, flores ruidosas e cheias de vida num mundo muito diverso da sombra e do silêncio dos andares inferiores. [...]". Cândido de Mello-Leitão (1886-1948). A vida na selva. 1940. 1940, p. 122.
 
 
Pintura de Martin Johnson Heade  (1819-1904)
Tutt'Art@
 



quinta-feira, 17 de março de 2016

Pica-paus lentos de cabeça rubra


"[...]. No ar, em volteios de quem espia a presa, constatou alguns gaviões coloridos, de bicos recurvos e garras aduncas, planando no mesmo nível de urubus pretos necrófagos, sinistros; nas árvores ribeirinhas, além do anu escuro, comedor de carrapato, observou outro gavião, o acauan, meio águia e meio bruxo, devorando cobra como um gênio tutelar do homem, mas, do mesmo passo, obrigando por um pio expressivo, certos sujeitos a chocarem pedra, a levantarem os braços como galinhas no ninho, e a exclamarem: - acauan!, acauan!
Nas copas altas, invisíveis, descobriu os uirapurus e carachués, atraentes hipnotizadores os primeiros, maviosos e sedutores os segundos. Pelos galhos, do tamanho de perus, saltando, negros e luzidios como se tivessem penas de aço, bicos em fava encarnada, descortinou mutuns ariscos, medrosos, que engolem pedra, alfinetes, agulha, prego. Voando assustados com o estalido dos sacaís, assinalou graúnas trigueiras, alheias ao carinho materno, insensíveis às ternas bicadas da prole, e que deitam os ovos nas balouçantes bolsas pardas e pendentes das franças redondas, ninhos de japiins para, que estes lhe criem e adotem os filhos; tucanos de cores vivas, de bicos enormes, leves, de costumes e hábitos lentos, tardios, indiferentes, que os tornam entre as aves o que a preguiça é entre os mamíferos, analogia que faz recordar, pela irrequietude, pela curiosidade, pela instabilidade outra, descoberta pelos zoólogos: a do papagaio com o macaco, e mais outra ainda, conjugada ao apuro do faro é a voracidade carnívora: a piranha com o tigre. Cruzavam-lhe o raio visual pica-paus lentos, de cabeça rubra, batendo nos caules com passos ouvidos à distância. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p 45-46.
 
 
 
Pica-paus (Picus albirostris).
 Johann Baptist von Spix (1781-1826). Avium Species Novae, 1825.
Acervo Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - Museu Goeldi.
 


domingo, 13 de março de 2016

Praça da Concórdia




"[...]. Uma trilha que tomei ao acaso levou-me às margens de um bosque em que belas árvores agrupadas de forma irregular, mas pitoresca davam acesso a umas alamedas naturais. Olhando entre as folhagens a vista se perdia numa bruma azulada cortada por raios dourados de luz. O lugar era encantador porque solitário. Nenhum ser humano perturbava a meditação. Os únicos seres vivos que vi foram cobras de várias cores que cruzaram devagar o meu caminho. Havia caminhado uns dez minutos nesse dédalo de árvores quando alguma coisa, à distância, atraiu a minha atenção. Não demorei em distinguir uma figura geométrica que logo se revelou uma pirâmide. Uma pirâmide nesse lugar! A coisa parecia prodigiosa. Corri para lá com toda a velocidade de que minhas pernas eram capazes.
Era sem dúvida uma pirâmide, um corpo sólido formado de quatro triângulos cujas bases formavam um quadrado e cujos vértices se uniam no alto. Examinando-a de perto descobri que era feita de madeira, rebocada de branco e apoiada sobre três degraus de pedra. Com a descoberta, a luz se fez na minha mente, e como Arquimedes de Siracusa exclamei – Eureka, eu encontrei! Três ou quatro anos antes, quando tivera o privilégio de pesquisar na biblioteca de Lima, caíra em minhas mãos uma História do Pará na qual eu lera que em 1782 o vigésimo terceiro governador da Província, um certo senhor José de Nápoles Tello de Menezes, havia erigido, fora da cidade e Santa Maria de Belém, exatamente no limite entre o Largo da Pólvora e o Paço de Nazaré, um obelisco de madeira de quatro faces sobre degraus de pedra, para comemorar um ato de conciliação puramente local  e insignificante. A legenda Concordia bonae fides et felicitati publicae, inscrita por ordem daquele funcionário numa das faces do obelisco, explicava aos transeuntes capazes de ler latim o significado do evento que ela comemorava.
Como a cidade de Belém, que eu havia explorado em todas as direções, não tinha nada parecido com um obelisco a não ser duas piramidezinhas esguias no frontão da sua catedral, a minha descoberta, numa alameda nos arredores da cidade, de um monumento que coincidia em material e estilo com a pirâmide atribuída ao finado José de Nápoles, não me deixou dúvida quanto à sua identidade. O único ponto que daria margem a debates entre arqueólogos, a ausência da pacífica legenda, encontrava explicação suficiente no vandalismo de modernidade, que havia encoberto a legenda com uma camada de reboco. Sentei-me nos degraus do monumento que testemunhara um fato memorável e fumei um cigarro. Depois, dando as costas à pirâmide, encaminhei-me para o norte. [...]". Paul Marcoy (1815-1888). Viagem pelo rio Amazonas. 2001, p. 295-296.
 
 
 
Praça da Concórdia, A Memória, no caminho da estrada do Utinga, depois Nazareth.
Augusto Meira Filho. Evolução histórica. 1976.
 

 

sábado, 12 de março de 2016

No negrume da noite


"A luz da lua é forte e clara, as árvores, algumas brilhando ao luar pálido, outras perdidas no negrume da noite sem luzes, assumem formas estranhas e fantásticas e projetam sombras intensamente negras sobre as águas do rio, que cintila como um espelho de prata aos raios frios e brancos da luz. A noite não é tão silenciosa como de hábito, pois os sapos no pântano próximo produzem um alarido como o dos diversos sons de uma fábrica de algodão, zumbindo, berrando como uma ovelha, assobiando, coaxando, apupando, gritando rai! ai!, rugindo, uma perfeita babel de ruídos, que se erguem e caem conforme predomine a voz de uma ou de outra espécie. Há ainda o ribombar do socó-boi ..., como um berro de um touro; ciganas soltam gritos ásperos; corujas piam, bacuris (uma espécie de curiango) bradam em notas agudas, ba-cu-ri, ba-cu-ri; o mandim grunhe sob a água como um porco; e outros peixes pulam; todavia, todos estes sons tornam a sinistra solitude ainda mais impressionante.
Os mosquitos, felizmente, não nos descobriram, e a atmosfera é fresca e agradável". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 226.


 
 
Socó-Boi.  Á esquerda um jovem da espécie.
Desenho de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.


 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Lindas florestas de palmeiras


"[...]. A viagem de hoje mostra uma mudança no caráter da floresta, pois não apenas a maior parte da vegetação é composta de uma grande variedade de palmeiras, mas a disposição geral é muito diferente de qualquer das florestas do alto do rio. A vegetação rasteira é densa, mas acima dela não há um dossel escuro de folhas suspensas em colunatas de troncos altos, pois, aqui nestas florestas de palmeiras, as árvores e palmeiras mais altas formam grupos, ou erguem-se isoladas e separadas do grupo seguinte, ou da próxima árvore ou palmeira isolada, por um intervalo de vegetação mais mirrada. Cada um desses agrupamentos é imensamente diferente um do outro, e cada poucas jardas apresentam uma mudança variegada na composição e arranjo das plantas. Por exemplo, entre arbustos forrados de parasitas em flor, uma palmeira marajá levanta sua imensa fronde como um volante gigantesco, ou uma palmeira bacaba surge envelopada nas voltas serpeantes de um imenso cipó que, junto à copa emplumada de seu sustentáculo, ramifica-se nos galhos de uma grande árvore, que irá fatalmente espremer e destruir a palmeira, e depois assumir a aparência de um imenso saca-rolhas. Em seguida, vem uma clareira repleta de bambus nanicos, palmeiras inajá em plumas e "cana-braba" (cana-de-açúcar-silvestre), misturada com arbustos espinhentos e plantas parasitas, todos brilhando e cintilando à luz do sol. Agora uma enorme samaúma ergue seu enorme tronco abaulado muito acima de seus vizinhos mais baixos, suavizando as cores destes com a sombra profunda de sua vasta folhagem. O próximo é talvez um grupo de mais palmeiras altas, todas entrançadas com parasitas pendentes ou cipós em flor festonados, de cores brilhantes e vívidas, e assim poderíamos continuar e encher páginas com a descrição destas lindas florestas de palmeiras onde a vegetação  é tão variada. À claridade forte do meio-dia vêm-se alternadamente massas largas de folhagem brilhando ao sol, e sombras suaves projetadas sobre a verdura mais baixa pelos galhos espalhados de imensas árvores umbráticas". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 215.
 
 
Bactris maraja Mart.
D´Orbigny, A. D. Voyage dans l´Amérique Méridionale. 1847.