segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Begônias lindamente floridas


"À entrada da selva passamos junto da grande espécime de Copaifera, que tivera a parte inferior do tronco perfurada a fim de obter-se o bálsamo que segrega. Durante milhas nossa rota correu paralela a um pequeno regato, em cuja margem se seguiam altas árvores, entre as quais observa uma espécie de Laurus e outra de Pleroma, ambas floridas.
A mata baixa consistia de grande variedade de arbustos Melastomáceas, Mirtáceas, Rubiáceas e espécies frutescentes de Begônia. Em outros locais multiplicavam-se elegantes fetos arborescentes com as hastes por vezes cobertas de delicadas espécies da mesa família. Bonitos fetos herbáceos e begônias lindamente floridas eram pisadas a cada passo. Os troncos das grandes árvores cobriam-se de Bromélias, Tillandsias, Orquídeas, fetos e uma espécie de begônia trepadeira. De vez em quando, via-se vultoso Cactus truncatus a pender do tronco de uma grande árvore, coberto de centenas de belas flores. Ao passar sobre uma colina de cerca de quinhentos pés de altura no vale que cortávamos, encontrei seu topo literalmente coberto de várias orquídeas; mas, com exceção da pequenina e linda Sophronites grandiflora, então em flor, já todas haviam sido vistas em lugares menos altos.
Foi aí também que pela primeira vez encontrei a Luxemburgia ciliosa, belo arbusto que produz grandes corimbos de flores cor de limão, pertencentes à família da violeta. Nesta mesma colina observei duas espécies de bambus diferentes das grandes espécies da floresta lá embaixo. Um deles tinha os entrenós bem mais curtos em proporção ao tamanho da planta e era em tudo muito menor. A outra espécie, menor ainda, tinha um caule de não mais de meia polegada de diâmetro, mas continuando desta dimensão até uma altura de quinze ou vinte pés. Romper caminho através deles foi a parte mais penosa da jornada do dia". George Gardner (1812-1849). Viagem ao interior do Brasil. 1975, p. 43-44.


Begônia.
Curtis´  Botanical Magazine. 1892.
 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Um buritizal


"A medida que prosseguíamos por aquele terreno arenoso, sentíamos o sol cada vez mais causticante e opressivo. A água da cabaça já fora inteiramente consumida e não sabíamos onde encontrar mais. Nossos índios disseram que havia uma nascente mais adiante, na meia encosta, mas que talvez estivesse sem água, visto estarmos no auge da estação seca. A informação deu-nos um novo alento e fez-nos caminhar mais rapidamente em busca do local, até que o alcançamos. A esperança aumentou quando avistamos ali onde diziam estar a fonte, um buritizal  (os buritis sempre nascem em lugares úmidos) e algumas manchas de relva bem verdinha. Dirigimo-nos então para o buritizal. As palmeiras cresciam, de fato, num terreno encharcado, quase pantanoso. A água escorria por entre a relva num filete tão insignificante que levamos quase meia hora para encher a cabaça. Vendo um adensamento das relvas num certo ponto pouco acima de onde nos encontrávamos, dirigimo-nos para lá, presumindo que se tratasse da mina propriamente dita. Ali descobrimos, para nossa grande satisfação, um filete de água cristalina e deliciosamente fresca, além de uma gostosa sombra onde pudemos repousar e lanchar confortavelmente. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 100.
 
 
Miriti ou buriti (Mauritia flexuosa, Linn.)
Alfred Russel Wallace. Palm trees of the Amazon and their uses. 1853.




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um tucano silenciosamente empoleirado


"[...]. Costumávamos estacionar em pequeno lugar limpo, toleravelmente livre de formigas e à beira d´água. Aí nos reuníamos depois de fatigante caçada matutina em várias direções, pelas brenhas, e tomávamos nossa refeição bem ganha, sentados no chão. Duas largas folhas de banana silvestre serviam de toalha e, terminado o almoço, ficávamos um bom par de horas ao abrigo do grande calor da tarde. A diversidade de produções animais era tão maravilhosa como a das formas vegetais nessa rica localidade. Vejo em meus apontamentos que não era raro encontrar, num dia de pesquisas, trinta ou quarenta espécies novas de belos insetos, mesmo depois de ter realizado certo número de excursões ao mesmo lugar. Era agradável ficar deitado, durante a parte mais quente do dia, a examinar os movimentos dos animais, enquanto minha gente dormia. Às vezes um bando de anus (Crotophaga), aves de plumagem negra e luzidia, que vive em pequena sociedade, vinham dos campos, um a um, chamando-se, a esvoaçar de árvore em árvore. Ou um tucano (Rhamphastos ariel), ficava silenciosamente empoleirado ou subia e descia pelos ramos, a espiar, para dentro das fendas e interstícios. Notas de aves solitárias ecoavam pelos matos. Acidentalmente via-se algum preguiçoso surucuá, pousado num ramo baixo, sem fazer o menor movimento durante uma hora inteira. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 2, p. 5-54.
 
 
Rhamphastos ariel.
John Gould (1804-1881). A monograph of the ramphastidae or family of toucans. 1992
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - MPEG


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Um suave crepúsculo tropical


"Quando as sombras da noite se aproximam, a paisagem próxima à fazendinha torna-se esplendidamente suave e encantadora. Em torno de nós, e estendendo-se das bordas do rio encrespado até bem distante, há uma larga extensão de campo verde-vivo, pontilhado aqui e ali com laguinhos brilhantes, alguns cercados por numerosas plantas aquáticas em flor, outros por bosquetes de árvores imponentes e delicadas palmeiras; outras moitas cercadas de flores formam grupos isolados na planície aberta ou, nas margens do rio, espelham suas formas nas mornas águas que refletem o sol e formam com sua folhagem um rendilhado contra o céu claro e sem nuvens, azul escuro a leste, cinza-pérola a oeste; grandes sombras movem-se suavemente através do gramado e tons quentes  e das águas cintilantes, pássaros gorjeiam seu "boa noite", ou gritos ríspidos soam nos lagos, quando alguma ave aquática se ergue em voo pesado e toma o caminho de casa; uma brisa gentil de doce perfume balança e faz farfalhar as folhas das palmeiras, cujas palmas brunidas reluzem e rebrilham com cintilações de diamantes aos últimos raios dourados do dia que parte. Que cores havia! E como é vão tentar comunicá-las por meio de palavras àqueles que não tiveram o privilégio de presenciar as delicadas nuances opalinas de um suave crepúsculo tropical". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 2, p. 67.
 
 
Palmeiras ao entardecer
 Johann Moritz Rugendas  (1802 - 1858)


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Um quadro sedutor


"Aqui e acolá, apoiando-se nos ramos de alguma árvore, uma gramínea arborescente projetava-se ousadamente no espaço vazio atravessando a distância que se separava do suporte semelhante, situado na margem oposta do regato, e balouçando na atmosfera úmida os festões graciosos e longos; depois, como se esse quadro já não fosse bastante sedutor, sobre aquela ponte frágil que a mais leve aragem fazia mover-se, cresciam duas ou três Billbergia, que embora se mantivessem a custo em tão estreito sustentáculo, desabrochavam suas lindas corolas escarlates. Não me animei a romper esse harmonioso conjunto. Outras bromeliáceas maiores seguravam-se às reentrâncias mais insignificantes das velhas árvores, enquanto noutros troncos seculares, já sem vida, e caídos às vezes de través entre dois rochedos, medravam os fetos e viçavam as orquídeas, infelizmente destituídas de flores nesta estação. Dos flancos destes rochedos pendiam muitas belas espécies de Peperomia, os caules cilíndricos e articulados de uma cactácea do gênero Rhipsalis e as longas frondes estreitas de um gracioso Nephrodium. Detiveram-me ainda outras inúmeras riquezas, passando eu todo o dia a vagar por entre essas cenas inebriantes". François Castelnau (1810-1880). Expedição às regiões centrais da América do Sul. 1949, v. 1, p. 55.
 
 
 
Billbergia zebrina. Ilustração de Marianne North (1830-1890).
BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North - 1872-1873. 2012.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uma vegetação que chamava a atenção




"Maravilhosas formas de vegetação chamavam a cada passo a nossa atenção. Entre elas havia várias espécies de bromélias, ou plantas semelhantes ao ananás, com suas longas folhas rígidas, em forma de espadas, algumas com as bordas serrilhadas ou denteadas. Havia também a fruta-pão – árvores importadas, é certo – mas digna de nota por suas grandes folhas luzidias, verde-escuras, fortemente digitadas e por sua interessante história. Muitas outras plantas curiosas por suas hastes, folhagem ou modo de crescimento apareciam na orla da floresta que era atravessada pela estrada que percorríamos, todas eram cheias de atrativos para os recém-chegados, cuja última excursão campestre, em data muito recente, tinha sido realizada nos brejais frios do Condado de Derby, numa manhã de chuva e geada de abril". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 1, p. 35-36.
 
 
 
 
Ananás.
 Curtis´s Botanical Magazine, v. 38, plate 1554, 1813.
 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O dia de um naturalista na Amazônia


"[...]. Levantávamos às seis e ficávamos arrumando as caixas e redes de insetos, enquanto a velha cozinheira preparava o café da manhã, que era servido às sete. Terminado o café, dávamos dinheiro a ela para que providenciasse as compras do almoço, e saíamos às oito para um bom local de coleta que tínhamos descoberto, situado a cerca de umas três milhas da cidade. Ali ficávamos à espreita dos insetos até por volta das duas ou três horas. O lugar era frequentado pela belíssima Callithea sapphira, uma das mais delicadas de todas as borboletas, e pelas diminutas, curiosas e brilhantes Erycinidae. Quando regressávamos, parávamos no Tapajós para tomar um banho, depois do que seguíamos para casa. Ali chegando, sempre havia uma deliciosa e refrescante melancia à nossa espera. Trocávamos de roupa, comíamos e ficávamos atarefados com os insetos até a tardinha. Aí, quando o tempo refrescava, tomávamos chá e íamos visitar ou receber visitas de nossos amigos brasileiros e ingleses. Entre estes, contávamos agora também com Mr. Spruce, o botânico, que aqui chegara proveniente da cidade do Pará pouco antes de regressarmos de Monte Alegre". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 103.


Callithea sapphira.
www.metmuseum.org
 
 

 
 
 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tucanos de bico vermelho


"Pela manhã, depois de carregarmos a canoa, segui por uma indistinta trilha a caminho de casa. O panorama era de modo geral desolado e estéril. Às vezes não avistávamos uma folhinha de grama num espaço de milhas. Subitamente, eis que surgia um gigantesco bambuzal atravessando a ilha de um lado para o outro, em toda a sua extensão. Outros trechos eram revestidos de mimosas cheias de espinhos. Aqui e ali viam-se consideráveis bosques de árvores desfolhadas, cujos troncos eram diligentemente perfurados por numerosos pica-paus. Avistávamos também gaviões e urubus. De vez em quando, grupos de três ou quatro  tucanos de bico vermelho (Rhamphastos toco) passavam voando sinuosamente. O céu estava nublado e ventava razoavelmente, mas aqui não chove nesta época do ano. Em vista disso, não me apressei e cheguei em casa pouco depois do meio dia, bastante cansado, mas satisfeito com a caminhada". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 74.
 
 
Tucanos.
Álbum de Aves Amazônicas (1900-1906)
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Acervo da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna - MPEG