quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Plantas que vivem no ar


"O interesse pelas orquídeas data do início do século XVII, quando espécimes exóticos dessa família, com poucos representantes na Europa, começaram a ser trazidos de algumas ilhas das índias Orientais para a Inglaterra e, aí, gente de pecúnia, lordes e grandes damas, porfiavam em ver abrir nas suas estufas as mais raras flores, como jamais haviam sido vistas.
Na verdade, tudo concorria para que sobre essas plantas recaísse a atenção não só dos botânicos mas das pessoas de bom gosto, e que de dia para dia mais amplo se tornasse o círculo dos orquidófilos. A começar pela resistência de que davam prova, pois que, durante as longas travessias de veleiro, privadas do seu habitat nas grandes florestas úmidas e expostas às intempéries marítimas, quando tudo fazia supor que perecessem, amiúde rebentavam em flores, arrancando gritos de espanto à marujada estarrecida. Plantas que viviam no ar, que se agarravam a um tronco ou uma pedra. Que morreriam mesmo, pelo menos a maioria delas, se fossem tratadas como as outras e mergulhadas em terra. Plantas de aspecto estranho, quase sempre de folhas grossas, lustrosas, coriáceas, de formato oval ou lanceolado, às vezes já bastante decorativas, raiadas de amarelo ou prateado, e tendo a sua base mais ou menos entumescida por pseudo-bulbos, característica tão marcante que serviu para batizar toda a família. Flores de extraordinária beleza, reunindo as mais esquisitas formas aos mais inesperados coloridos, e com a vantagem de apresentarem grande resistência, desde que não raro permaneciam em pleno viço durante semanas e até meses. [...].
Mas esses eram apenas os traços mais impressivos, e que não poderiam escapar a quem as defrontasse pela primeira vez. Todavia, a curiosidade não foi menor quando os naturalistas começaram a estudá-las com mais vagar, penetrando-lhes a contextura íntima para admirar o seu pólen aglutinado em massa, observando-lhes os caprichos da fecundação e o importante papel que nela desempenham os insetos, acompanhando-lhes a morosidade da germinação e o tempo exigido pelas plantas, às vezes cinco, seis e dez anos, até que cheguem a completo desenvolvimento e possam florescer. [...]. Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003, p. 61-62.
 
 
 
Orquídea e colibri
Pintura de Martin Johnson Heade -[1819-1904] 
Tutt'Art@


sábado, 24 de outubro de 2015

Um pequeno e agradável córrego


"A pouca distância da casa do dono da fazenda, um pequeno córrego se precipitava ao alto das pedras, entre moitas cerradas de Heliconia, cocos e outras belas plantas, correndo para o rio. Havia nesse sítio uma sombra muito fresca e agradável, onde aparecia em abundância um mimoso passarinho que, a qualquer hora do dia, fazia ouvir um canto breve, porém bastante agradável. Já em Belmonte, havia eu encontrado esse cantor dos bosques ermos e sombrios, entre os rochedos banhados pela água, ao longo dos córregos, mas nesse local, era visto com mais frequência. Aí descobri o seu ninho, construído num buraco à margem do rio, embaixo de tufos de palmeiras novas. Grande número de outras aves animavam as vizinhanças da fazenda, sendo  particularmente abundantes os araçaris [...], num jenipapeiro próximo, coberto também de belas flores brancas e de frutos. Outras grandes árvores estavam tão carregadas de ninhos de japuís (Cassicus persicus), que se via um deles suspenso em cada ponta de galho. Esses pássaros faziam ouvir sem cessar o seu grito áspero, e mostravam, como os nossos estorninhos, o seu talento singular para imitar o canto de todas as aves que se acham então nas vizinhanças. A sua plumagem negra e amarela, bem marcada, é magnífica, sobretudo quando ele abre a cauda, e sobe voando até o ninho, que parece uma bolsa". Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958, p. 348-349.
 
 
Barco num rio da floresta virgem.  Viagem ao Brasil do Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied.
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmbH. 2001.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Árvores-de-cuia


"As flores eram raras e esparsas. Tudo o que vimos foram algumas orquídeas, umas poucas ervas florescentes e um ou outro arbusto ostentando flores alvas ou verdes, dispersos à beira do caminho. Jaziam no solo diversos frutos caídos semidecompostos, entre os quais umas vagens curiosamente retorcidas, parecendo ervilhas de uma jarda de comprimento, umas favas enormes, nozes de diversos tamanhos e formatos e enormes cabaças das árvores-de-cuia, cujo aspecto lembra o de potes com tampas. O tapete herbáceo consistia principalmente de fetos. Scitamineae, algumas gramíneas e umas poucas plantas baixas e rasteiras. A maior parte da superfície do solo era recoberta por folhas mortas e troncos apodrecidos". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 30.
 
 
 
Cuieira (Crescentia cujete)
www.mast.br


sábado, 17 de outubro de 2015

Papagaios e periquitos barulhentos


"Há muitas corredeiras pequenas, onde passamos velozmente por pedras pretas polidas e gastas pelas águas, ou por baixios e espraiados de seixos redondos da formação diamantífera. Uma brisa forte sopra correnteza acima e tempera o calor do sol que monta cada vez mais alto no céu, agora azul e sem nuvens. As margens reluzem com a folhagem brilhante e cintilante, as flores rasteiras e a terra vermelha, tão diferente das praias e vegetação inteiramente cobertas de limo do alto do rio. Garças brancas e grandes borboletas peroladas deslizam à superfície da água adiante de nós, papagaios e periquitos palradores e barulhentos, cigarras, gritando e chiando e berrando e assobiando unem-se em concerto ruidoso e desarmônico, suavizado pelo sussurro e burburinho das águas. [...]. James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 1 p. 263-264.
 
 
 
Papagaios - Tanajuba - Periquitos.
Detalhe de lustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Vestido branco



" A Laelia é uma jovem donzela às vésperas da fase adulta. É como se a Laelia se apresentasse pela primeira vez com vestes brancas. Ao dançar pelos salões, os rendilhados de seus vestidos se agitam, encostando na pele e proporcionando uma sensação bastante agradável. Seus semblantes enrubescem. "Desejo uma vida intensa, porque quero apaixonar-me perdidamente", é a mensagem que a Laellia purpurata nos transmite com seu labelo branco, com centro vermelho, uma combinação de cores que ainda sobressairia mais com um fundo branco. Minha sensação é a de que a mistura  do branco do labelo nos transmite uma sensação de pureza". Takashi Kijuma. Orquídeas: maravilhas da natureza. 1989, p. 54. 
 
 
Orquídea.  Laelia purpurata.
Lindenia. iconography of Orchids. v. 8. 1894. (BHL)

 
 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cattleya labiata, a espécie mais bela!


"[...]. Nas margens do caminho, havia densas sebes de bambu, projetando uma sombra profunda e negra, sob a qual as helicônias, avivadas pelas gotas de orvalho que lhes caíam nas corolas, ostentavam suas belas flores. Imensas folhas de Pothos formavam um teto espesso, e, bem no alto, acima dessas folhas, que brilhavam em sua rica e opulenta cor verde, levantavam-se as densas copas das árvores enfeitadas com barba de velho e em cujos ramos mais baixos prendiam-se as Catleyas cor-de-rosa, das quais a espécie mais bela, a Catleya labiata, tem seu habitat nessas alturas montanhosas. Tudo era calma. Somente o riacho, com o murmúrio monótono de seu deslizar por entre as sebes de bambus e debaixo das folhas de Pothos, atirando-se, por vezes, com ruído um pouco maior, rocha abaixo, lembrava ao viajante a existência da vida que aí pulsa continuamente, através de milhares de veias, com uma intensidade e exuberância sem par, em seu eterno processo de transformação - base inexaurível de toda matéria viva. [...]". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 110-111.
 
 
 
Orquídea. Cattleya labiata var. autumnalis.
Lindenia iconographie des Orchidées. 1885-1903.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um ambiente animado e pitoresco


"[...]. Um curso borbulhante da mais pura água, saltitando sobre pedras forradas de líquens e musgo através de um pequeno paraíso de uma das mais belas vegetações dos trópicos, xaxins e moitas de gramíneas arborescentes, palmeiras de diversos tipos, orquídeas e bromélias em plena floração, margens musgosas e diversas variedades de samambaias, o conjunto graciosamente festonado com liana e cipós e, para dar maior vivacidade, miríades de borboletas coloridas e diversos colibris adicionavam suas cores brilhantes ao ambiente animado e pitoresco. [...]". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, p. 103.
 
 
 
Orquídea. Paphinia cristata Lindl. var. Modiglianiana.
Lindenia iconographie des Orchidées. v. 3, 1887.


domingo, 4 de outubro de 2015

Pequenos bosques de palmeiras


"Até aqui não tínhamos encontrado nenhuma palmeira nestas florestas; hoje, ao contrário, apareciam em grande número, contudo só nas margens dos riachos e sobretudo em trechos pantanosos nas seladas do terreno, que, como as colinas, aumentando em altura cada vez mais íngremes, chamavam mais a atenção do que ontem. Num destes pequenos bosques descansamos alguns minutos; diante de nós corria um claro riacho murmurante, e a um lado ficava um pequeno rancho com um leve telhado ensombrado pelas altas  coroas de esguias palmeiras, por entre as quais se divisava o céu azul escuro, no qual, muito alto  no zênite, o sol mandava para baixo seus poderosos raios, tão quentes, tão abrasadores como se quisesse fazer-nos esquecer, toda a chuva da noite anterior! Imaginai a par disto, caro leitor, a satisfação com que engolimos algumas amêndoas de cacau da árvore sacudida, algumas castanhas-do-maranhão e um punhado de farinha que o padre levava embrulhado no seu lenço de rapé; imaginai também a avidez com que sorvemos a água fresca do riacho, e tereis um quadro deste curto descanso e dos simples gozos com que nos deliciávamos e nos refazíamos para novos esforços." Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas-Xingu. Brasília, 2002, p. 269.
 
 
 
C. Fr. von Martius (1794-1868)
Historia Naturalis Palmarum (1823-1850)
www.biodiversitylibrary.org