segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As orquídeas nos trópicos


"[...]. Do mesmo modo as orquídeas, nos trópicos, animam os troncos das árvores enegrecidos pelos raios abrasadores do sol e pelas fendas das rochas selvagens. As baunilhas distinguem-se entre estes vegetais pelas suas folhas carnosas, de um verde claro, e pela cor variada e estrutura singular das suas flores. Parece-se estas, ora com os insetos alados, ora com os pássaros, aos quais atrai o perfume dos nectários. A vida de um pintor não seria bastante para reproduzir, ainda que se cingisse a um pequeno espaço de terra, as magníficas orquídeas que adornam os vales profundos dos Andes e do Peru." Alexander von Humboldt (1769-1859). Quadros da Natureza: Humboldt. 1950, v. 1, p. 293.
 
 
Baunilha. Vanilla parvifolia Barb Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Iconographie des orchidées du Brésil (1877-1898)


sábado, 22 de agosto de 2015

Um lugar revigorante


"A mata nos oferecia passeios muito agradáveis. Em alguns trechos, amplos caminhos desciam por suaves encostas, através do que, em nossa imaginação, podíamos tomar por um parque de plantas sempre virentes, até úmidas grotas onde borbulhavam olhos d´água ou deslizavam regatos sobre alvos leitos de areia. Mas a entrada mais bonita era a que atravessava o coração da floresta e ia terminar numa cascata, que os cidadãos de Barra consideram a principal atração dos arredores. As águas de um dos regatos que cortam a sóbria mata despejam-se ali do alto de um penhasco de cerca de três metros de altura. Não é a cascata em si que constitui a principal atração do lugar, e sim a quietude e a solidão que ali reinam, bem como a maravilhosa variedade e exuberância das árvores, folhagens e flores que ornam o poço onde se despeja a água. As famílias do lugar costumam fazer piquenique ai; os cavalheiros - e, segundo dizem, também as senhoras - passam as horas mais quentes do dia banhando-se nas águas frias e revigorantes da cascata. O lugar é histórico para os naturalistas, por ter sido um dos favoritos dos célebres viajantes Spix e Martius, quando visitaram Barra em 1820. Von Martius ficou de tal forma impressionado com a magia e a beleza do lugar que celebrou a visita que ali fez desenhando o seu cenário para servir de fundo a uma das ilustrações de sua grande obra sobre palmeiras". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 135-136.
 
 
 
 
Recanto na floresta
C. Fr. Von Martius. Historia naturalis palmarum, 1823-1850.
 


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paisagem com vida e beleza



"As vertentes desse vale sobem rapidamente em colinas cobertas de florestas primitivas, e as grandes massas rochosas  surgem em grande número, estendendo-se mesmo para dentro da mata. Muitas árvores perdem as folhas nesse período, porém a maioria fica sempre verde, de modo que a floresta estava meio verde, meio cinzenta; [...]. As múltiplas variedades de folhas tenras que vinham brotando começavam a dar à paisagem vida e beleza novas. O tapicuru (Bignonia) estava completamente coberto de belas folhas pardo-avermelhadas, que despontavam; um róseo lindíssimo adornava as cimas da sapucaia (Lecythis); a Bougainvillea brasiliensis entrelaçava-se no topo das árvores, ainda em parte desfolhadas, forrando-as  todas com as flores róseo-escuras; numerosas espécies de bignonias, algumas subindo a grande altura, outras rastejantes, medravam luxuriantemente, enfeitadas de flores variegadas, róseas, violetas, brancas e amarelas. Nessa estação, seria impossível ao melhor paisagista  retratar a infinita multiplicidade de tintas que matizam as frondes das gigantescas árvores  dessas  florestas; e, se o conseguisse, qualquer pessoa que não tivesse admirado  esses rincões, consideraria o trabalho simples devaneio da imaginação. [...]. Maximilian, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2 ed. 1958, p. 257.
 
 
Bougaivillea sp.
The Garden, v. 43, 1893. www.plantillustrations.org.




quinta-feira, 13 de agosto de 2015

As aves mais típicas do Amazonas



"[...]. Havia também considerável animação por cima do formidável curso d´água. Numerosos bandos de papagaios e das grandes araras vermelhas e amarelas passavam voando pelas manhãs e às tardes, emitindo seus estrídulos gritos. Diversos tipos de garças e frangos d´água frequentavam os pântanos de suas margens, vendo-se nas águas plácidas das baías e das enseadas os vistosos marrecões. [...]. Mas as aves mais típicas do Amazonas são, creio eu, as gaivotas e as andorinhas-do-mar, que aqui são vistas em inacreditável profusão. Durante toda a  noite podíamos ouvir seus gritos vindos dos bancos de areia, nos quais elas depositam seus ovos. Durante o dia essas aves continuamente atraíam nossa atenção, em virtude de seu hábito de pousarem enfileiradas sobre os troncos flutuantes, havendo às vezes uma dúzia, quando não uma vintena, umas ao lado das outras, todas na mais completa impassibilidade enquanto o tronco vai sendo levado pela correnteza por milhas e milhas. E lá vão elas, imóveis e sisudas como se estivessem tratando de altos negócios[...]." Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 93.
 
 
Andorinhas
 Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Quando nos altos rios eu viajo...


"Quando nos altos rios viajo quer nos "vaticanos", quer nas chatinhas, que são quase uma miniatura destes, quer nos pequenos barcos motor, sou sempre dos que primeiro saltam da rede. E a claridade indecisa da madrugada vejo desenhar-se a paisagem difusa, criar relevo, destacarem-se os troncos esbranquiçados, recortar-se no cinza-azulado do céu, a copa florida da gigantesca sumaumeira, com a mesma sensação que o jogador viciado "fila" as cartas que recebeu. E antes do chuveiro revigorante, e do confortador café, encho os pulmões com o ar fresco e embalsamado da floresta, de pijama aberto, oferecendo o peito nu à carícia fresca da brisa, provocada pelo deslocamento do barco. Se é na vazante, vemos passar os bandos de marrecas, e contamos os casais de patos e araras barulhentas que cruzam alto refletindo no encarnado de suas penas, os raios do sol ainda baixo no oriente. Ficamos enlevados, com o debrum de arminho que as garças ainda nos pousos, estendem pelas bordas dos rios. E é um colar de alvura, vivo, trepidante, com o bater de asas e a "toilette" das penas, antes de descerem para as comedias.
Se é na enchente, as águas galgam os barrancos, afogando a mata. Deslizam os grandes madeiros, colossais árvores inteiras, cujas dimensões podemos calcular pelo raizame e parte do tronco que emerge. De bubuia, vão também as enormes ilhas de canaranas e camalotes, os periantãs dos índios povoados de cobras, jacarés, sapos-untanhas enormes, garças e jaburus, todos em boa camaradagem, tal como a que deveria reinar na arca de Noé...". Francisco de Barros Junior. Caçando e pescando por todo o Brasil. 4a. série s.d. p. 249-250.
 
 
 
Marrecas
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte.


sábado, 8 de agosto de 2015

Os Colibris


"Não admira pois que a pena dos naturalistas que escreveram sobre Colibris se torne poética ao tratar desse assunto, queira transformar-se em pincel de pintor e ameace disparar com a fantasia, qual cavalo novo cheio de vida com seu cavaleiro. Ouçamos como se exprime Buffon sobre essas aves maravilhosas: "Entre todos os entes vivos é o Colibri o mais belo quanto a forma, o mais esplêndido quanto à coloração. Pedras preciosas e metais, a que a nossa arte  dá o seu brilho, não se podem comparar a essas joias da natureza.
A sua obra prima é este passarinho. Prodigalisou-lhe todos os dons, que as demais aves receberam isoladamente, leveza, ligeireza, agilidade, graça e rico ornamento: de tudo foi dotado este pequeno favorito. A esmeralda, o rubi, o topázio cintilante na sua roupagem, que ele nunca suja  com o pó da terra, porque durante toda a sua vida etérea dificilmente toca por momento o solo. Sempre nos ares, a balouçar de flor em flor, cuja frescura e brilho lhe são próprios e cujo néctar sorve. O colibri habita somente as regiões onde as flores se renovam perenemente; pois aquelas espécies que pelo verão chegam até a zona temperada, aí permanecem pouco tempo.
Parecem acompanhar o sol, avançando e retirando-se com ele, e seguir sobre asas de zéfiro o préstito de uma primavera eterna.". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Os beija-flores. Chácaras e Quintaes, v. 52, n. 3, p. 338, 1935.
 
 
 
Beija-flor.
Proceedings of Zoological society of London. v.2 1848-1854.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A linda flora aquática


"A manhã de 19 de junho encontrou-nos no Canal de Tajapuru, na direção do noroeste. Forma-se aí um rio calmo, quase sem correnteza. Reaparecem muitas miritis e euterpes, e a placidez dos elementos favorece a linda flora aquática. As massas das potederiáceas (murutis) estendem-se muito longe. Entre os milhares de aróideas sem ramos, porém, que formam tronco - a anhinga - floresciam muitos exemplares semelhantes à nossa planta de salão, a cala, com espata branca, espádice amarela e colorido mais avermelhado no fundo da flor. Poucas folhas ornam o topo do pequeno tronco dessa singular aróidea. Por trás delas, vicejam, em muitos lugares, belos maciços de acácias, de folhas peniformes e flores delicadas de finos estames encarnados e brancos, muitas vezes abafadas por bignonias trepadeiras, cuja esplêndida florescência encarnado-clara, onde se mostra, sobrepuja tudo o que pode florir na selva. Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No rio Amazonas (1859). 1980, p 64.
 
 
 
Aninga
 F.C.Hoehne. Plantas e substâncias vegetais tóxicas e medicinais. 1939.


domingo, 2 de agosto de 2015

Os araçaris


"[...]. Uma família de aves veio pousar nos ramos de uma grande árvore e colher seus frutos com gritos de visível satisfação. Pensei tratar-se de papagaios e fiquei admirado de que, ao avistarmos, não houvessem levantado voo com sua estridente gritaria. Chegando mais perto, porém, percebi que estava diante do Pteroglossus bailloni Wagl., de belas penas verde-amareladas. Esta ave comporta-se como um papagaio, não tendo entretanto o mesmo cuidado, pois deixa-se observar tranquilamente, sem se incomodar. Há certa semelhança entre os papagaios e os Pteroglossus ou araçaris, pois, como aqueles, andam aos pares e em pequenos bandos procurando alimento nas árvores e ao levantar voo o fazem também aos pares. Seus parentes, porém, os tucanos (Ramphastus), vivem sozinhos na mata e pousam calmamente, emitindo apenas de quando em vez seu grito rangente; muito esquivos, não esperam que ninguém se aproxime [...]". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 111.
 
 
Araçari. Pteroglossus sp.
 John Gould (1804-1881). A monograph of the ramphastidae or family of toucans. 1992.