domingo, 28 de junho de 2015

Galeandra perfumada.


"O nível da água dos alagados continuava elevado, deixando as árvores tão imersas que me permitiram ficar mais próxima das flores em suas copas, até mesmo dos enormes filodendros que coroavam a maioria das árvores antigas e cujas raízes se misturavam às das clusias, descendo como cortinas em busca de alimento no solo. Papagaios e tucanos brincavam e se alimentavam nos galhos. Flores mimosas, um suave tom violeta, ornamentavam as margens dos rios e fundiam-se em flores aquáticas amarelas.
Um bando de macacos de tronco amarelo seguia o barco, assobiando excitados enquanto espiavam pela folhagem  das árvores na beira da água. Logo começaram a ser seguidos por pequeninos macacos castanhos que pulavam de galho em galho tagarelando barulhentos.
À medida que navegávamos, a paisagem do rio foi-se tornando mais e mais fascinante. Como essa região também havia sido alagada, passamos por diversos casebres isolados e abandonados dentro da água. No caule fibroso e profundamente imerso das palmeiras jarás, brotavam grupos de orquídeas Galeandra devoniana perfumadas. Flores cereja de Cattleya violácea resplandeciam nas árvores ao lado das flores delicadas da Brassavola martiana. Ao longo do rio encontrávamos frequentemente árvores de Gustavia augusta, com grandes flores rosas e brancas." Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 52.
 
 
Galeandra devoniana.
 Ilustração de Margaret Mee.
Flores da Floresta amazônica.  2. ed. 2010.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Um jardim tropical


"[...]. Nenhuma árvore vive sozinha. Cada gigante sustenta outros seres vivos. De cada ramo pendem orquídeas, trepadeiras e plantas aéreas, envolvendo as árvores, como se estas fossem múmias. Grandes cipós, grossos como cordas, passam de uma árvore a outra, tecendo espécies de colgaduras verdes em toda a floresta. O chão nunca se encontra perfeitamente seco; musgos e líquens, úmidos como esponjas, estão sempre a brotar dentre as folhas mortas, e há um contínuo pingar, um gotejar sem fim, de água acumulada nas mil e uma plantas que se acham presas às árvores.
Alegres flores fazem da mata um jardim tropical. De algumas árvores pendem cachos de frutos. Aqui e ali vêm-se palmeiras carregadas de cocos. É aí que brincam e se alimentam os macacos e os pequeninos saguis. Sente-se o cheiro da terra úmida e, no ar, o perfume das flores. Os odores de plantas desconhecidas enchem os dias e as  noites com perfumes de jardim. [...]". Victor W. von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. s.d. p. 43.
 
 
Flores silvestres brasileiras.
Marianne North (1830-1890)
www.kew.org
 

 
 
 

sábado, 20 de junho de 2015

Caprichosas orquídeas


"A grande classe das epífitas, entretanto, disseminada em múltiplas variedades de caprichosas orquídeas, difere, por sua orgulhosa vida autônoma, dessas esfaimadas physalias vegetais. São plantas boas, que não sacrificam os recursos, já armazenados, da economia alheia, nem mandam raízes à terra, para abrir competência com os vizinhos. Pedem, apenas, um encosto para sua reduzida carga de bolbos, um pouco de umidade e a frouxa luz, coada no verde filtro dos ramos. Apanham do ar os princípios fecundantes que a terra evapora, e desses fluídos vitais, já purificados, absorvem os materiais impalpáveis que lhes formam a requintada estesia das flores, nas quais a natureza imprime criadora, quer na forma e colorido, quer nas sutilezas com que destila os embriagadores e finíssimos perfumes.
Então, na penumbra veludosa dos mais taciturnos recantos florestais, as Catleyas abrem doloridas estrelas roxas e as "albae brasiliensis" desenastram o cetim virginal das delicadas pétalas, impregnadas de uma adocicada essência, tão suave e estonteante, que desafia as mais teimosas combinações da química industrial. [...]". Alfredo Ladislau. Terra imatura. 2. ed. 1925, p. 50-51.
 
 
 
Cattleya labiata var. autumnalis.
 Lindenia- iconographie des Orchidées. , v. 3, 1887.
www.biodiversitylibrary.org.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Uma magnífica manga rosa em Belém do Pará


"A primeira vez que estive em Belém, as mangas em geral estavam ainda verdes, mas já havia algumas temporãs. Destas, havia uma, em árvore que ficava mesmo em frente à janela do meu quarto no primeiro andar do Grande Hotel. Durante uns dez dias, acompanhei cobiçoso o crescimento e maturação da magnífica manga rosa. Uma tarde, depois do jantar, fui com os da minha roda, veteranos viajantes, para o largo passeio, onde havia, e ainda há, mesinhas de ferro e cadeiras, para que se pudesse admirar o "footing" das garbosas morenas belenenses, enquanto se degustava sorvetes e refrescos.
Nossa mesa ficava exatamente junto da referida árvore, e poucos momentos depois de nos assentarmos tombou a manga. De um salto, como se me arreceasse de que outrem a disputasse, apanhei-a exibindo triunfante o perfumado e colorido fruto. Os colegas ficaram vexados com meu proceder, pois todas as atenções se voltaram para mim, e em surdina, aconselhavam-me a deita-la fora, asseverando estar eu a fazer um papelão, ao apanhar fruta da rua...Fiz "ouvidos de mercador", mandei vir um prato, garfo e faca, e deliciei-me com ela. Nunca comi tão gostosa manga!" Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil. 4a. série. s.d. p. 102-103.




Manga (Mangifera indica).
Chromolithograph from Etienne Denisse (1814-1845)
www.pinterest.com
 

 

domingo, 14 de junho de 2015

As esplêndidas araras

"Acordou-me no dia 25 de junho uma grande gritaria de araras. Verdadeira manhã de ouro pairava sobre o rio e suas florestas, e as cores vivas de algumas araras brilhavam mais do que nunca nos galhos mais altos duma sumaumeira. [...]". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961, v. 2, p. 88.
 
 
Araras. Jungle Parrots Antique Bird - 1880
www.pinterest.com


sábado, 13 de junho de 2015

Os delírios de asas palpitantes


"Onde quer que haja a doçura misteriosa das águas novas, pelas margens de todos os lagos, nos tufos de capim das ilhotas, pelos mateiros dos baixos, na atmosfera lavada de luz, movimentam-se delírios de asas palpitantes, policromicas de plumas vivazes, abrindo desenhos animados na porcelana do céu, no pano das verduras, no lençol das águas. Recruzam-se, em todas as direções, os casais de patos bravos; vermelhas jaçanãs, volitando pelos aguapés, soltam risadas cromáticas e as ferrugíneas curicacas misturam seu matraquear metálico aos lamentos dos carões, pelo brejo dos aningais."Alfredo Ladislau. Terra imatura. 2. ed. 1925, p. 38.
 
 
 
Cigana-Pavão-do-Pará-Carão-Piaçoca-(Jaçanã)-Saracura-Açanã-Ipequi
Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Mangaba: uma deliciosa fruta


"Seguimos um caminho tão próximo quanto possível dos tabuleiros circundantes de modo a evitar as longas subidas e descidas do terreno ondulante e fechado, alcançando finalmente os níveis mais altos dos tabuleiros. Lá encontramos novamente o cerrado, fino e esparso, mais arbustos do que árvores, novas variedades de cada aparecendo tais como a grande quantidade da bela e deliciosa fruta que lembra a nectarina, a mangaba; uma substância branca, leitosa, exsuda dos troncos, galhos e frutas desta árvore quando entalhados, e imediatamente se transforma em excelente látex com a adição de um pouco de ácido". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995, v. 1, p. 206.
 
 
Mangaba (Hancornia speciosa)
Ilustração de Eron Teixeira - 2010
 



sábado, 6 de junho de 2015

A Palmeira Pupunha


"Viam-se também novas espécies de palmeiras, a pupunha (Guilielma speciosa), cujos frutos eu já comera em Cametá. O tronco redondo e esguio é provido de anéis de espinhos, a intervalos mais ou menos regulares, mas em muito menor quantidade do que as citadas astrocárias. Sob o farto e belo penacho de folhas, que acenam, pende um grande cacho de frutos amarelo-avermelhados. Os frutos ovais são do tamanho duma ameixa regular; mais adiante, brilha o belo colorido da pequena maçã dourada, [...].
O que mais interessa nesses belos frutos da pupunha muito mais conhecida sob o nome espanhol de palmeira pirijau, é o singular abortar de seus caroços. Acontece à maioria deles o mesmo que à banana, não formam caroço, e, sim, massa farinácea inteiramente homogênea. São por isso cozidos  em água, constituindo um excelente alimento Provei-os pela primeira vez em Cametá, em casa do Sr. La Roque, que possuía uma bela pirijau no seu jardim; souberam-me exatamente como as nossas verdadeiras castanhas. A pele sendo de consistência meio coriácea, são fáceis de pilar.
Por isso plantam a popular pupunha perto das habitações e protegem-na contra o corte. Sua madeira é muito semelhante à da palmeira javari; é dura, preta, com desenhos lineares amarelos intermitentes, dum belo efeito quando polida". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961, p. 93-94.
 
 
 
 
Pupunha (Guilielma speciosa)
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Na densa floresta


"Na floresta densa voam guarás vermelhos como labaredas e tucanos de purpurina plumagem como ígneos lampejos, aladas chamas, nesse reino ornitológico faunístico, onde se assiste o singularíssimo tumultuar de asas e de garras. É o ambiente próprio, o cenário a preceito desse mundo imaginoso do habitante ingênuo.
Ouve-se, vê-se, sente-se ou advinha-se como canta Plínio Salgado  no seu admirável poema:

...o riso selvagem das bromélias,
as sedas vaporosas das orquídeas,
a orgia  das asas das araras,
o ouro dos ipês, dos muricis e dos timbós,
o roxo das paineiras, jacarandás e sapucaias,
a púrpura dos suinãs,
as faces coradas das mangabas,
os lábios rubros das pitangas,
o papo imperial dos tucanos
e a túnica escarlate dos guarás.
 
Todo esse mundo assombroso onde:
 
...as iaras desfraldam as bandeiras
do arco-íris
nas folhas,
e nas flores,
e na plumagem das aves.
 
À beira dos rios escutam traiçoeiros os jacarés, passeiam nostalgicamente jacamins e mutuns, este negro, de crista amarela, como áureo diadema, ambos pernaltas; aquele com o seu canto monocórdico, gutural; este soltando na noite silenciosa um som contundente de corda de harpa repuxada com violência; as colhereiras de tom rosado, os casais de torcazes e as garças brancas ou cinzentas - aristocráticas, que traçam no azul cobaltino, no esplendor dos poentes inenarráveis, um recorte airoso por sobre a multiplicidade bem harmonizada de verde, estranha sinfonia de uma só cor em múltiplos tons". Gastão de Bettencourt (1894-1962). A Amazônia no fabulário e na arte. 1946 p. 57-59.
 
 
 
 
Uma densa floresta
Johann Moritz Rugendas  (1802 - 1858)
 


terça-feira, 2 de junho de 2015

Um galante passarinho!


"O pássaro pica-flor é um galante passarinho daquele estado e talvez o menor na república das aves. É do tamanho de uma grande borboleta, e por tal se podia julgar, se o bico e as unhas o não distinguissem: é matizado de várias cores, tem o biquinho comprido e delgado como um alfinete com o qual  anda sempre chupando as flores, como abelha, nem tem outro sustento. E, segundo dizem os naturais nunca pousa, mas sempre anda a dar com as asas no ar, o que me parece hipérbole, porque ao menos de noite parece que se lhe deve conceder algum repouso. [...]". Pe. João Daniel (1722-1776). Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. 2004, v. 1, p. 180-181.
 
 
 
Beija-flor.
Ilustração em:  Proceedings of Zoological Society of London (1848-1854)