segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Viajantes: Uma bela tarde de junho!


"Num caniçal de cecrópias - a expressão é apropriada, embora seus troncos ocos tenham muitas vezes mais dum pé de diâmetro - ventilado e ensolarado, os periquitos fazem a sua gritaria, sem ser perturbados, como o nosso pardal dos juncais; bandos inteiros ralham, voando dum lado para outro, até que a aproximação do vapor os faz, primeiro calarem-se por um momento, e depois voarem assustados com estridente gritaria. A bela tarde do dia 25 de junho alegrara-os especialmente; víamos e ouvíamos como gralhavam por toda parte, enquanto papagaios maiores, particularmente os de cabeça amarela e um de cabeça azul, procuravam as regiões mais altas. As grandes araras subiam mais, porque gostam também de voar muito alto. Não me podia fartar de ver essas esplêndidas aves, quando em pares isolados, sobrevoavam a floresta ou o portentoso rio, cintilando aos raios do sol da tarde". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No rio Amazonas (1859). 1980, p. 92.
 
 
 
Periquitos.
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917)


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Viajantes: O Belo Mutum!


"Muito nos divertimos com a mansidão excessiva e quase absurda do belo mutum, que andava em roda de casa. Era espécie grande, de negro brilhante (O Mitu tuberosa), de bico cor de laranja, com uma excrescência do mesmo colorido em forma de fava. Parecia considerar-se da família. Assistia a todas as refeições, indo de uma pessoa a outra, em redor da esteira, para que lhe dessem de comer, e esfregava os lados da cabeça, como se quisesse fazer carícias, nas faces ou nos ombros da gente. À noite empoleirava-se num cesto de um dos quartos, embaixo da rede de uma das meninas a quem  ele particularmente se afeiçoara, acompanhando-a por toda parte no terreno. Esta espécie de mutum é muito comum nas matas do Cupaú, mas é rara no Alto Amazonas, onde a dominante é uma outra espécie próxima, cuja excrescência do bico é arredondada em vez de ser em forma de fava. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 2, p. 109.
 
 
Mutum-de-bico vermelho
(Mitu tuberosa)
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1981.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Viajantes: O Piquiá.


"[...]. Eles perambulam por três ou quatro milhas atrás da escarpa, caçando ou procurando frutos de piquiá, quando é sua estação. O piquiá é um prato favorito. O fruto está contido numa casca grossa; é separado dela, e fervido, e a fina polpa oleosa é raspada do duro caroço interior, da mesma maneira como comemos milho verde. "Não é muito melhor do que uma batata crua", pensou o Sr. Bates, mas a maioria das pessoas gosta muito deles, e são muito nutritivos. Muitas vezes vemo-la à mesa de nossos colonos, uma panelada fumegante, deliciosamente fragrante. Extrai-se do fruto um óleo doce; e da casca externa faz-se tinta, rica em ácido gálico. Os índios gostam muito de piquiá; a medida que avançamos, nossos homens vão tomando nota mental das árvores pelas  quais passamos. São monarcas da floresta; os galhos, ao contrário da regra das árvores da floresta, são espalhados e grosseiros, como os de um carvalho, mas vastamente  maiores do que qualquer dos carvalhos que já vi". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 161.
 
 
Piquiá
Ilustração de Eron Teixeira


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Viajantes: Uma viagem agradável!


"Foi a primeira viagem efetivamente agradável que fiz na América do Sul. Como a canoa era minha, fui senhor de meus movimentos, parando quando queria e prosseguindo quando assim o decidisse. Ademais, a cabine era nova e cômoda, comprida o bastante para conter minha rede sempre estendida, além de uma cama que preparei usando como colchão grossas camadas da casca macia da Castanheira-do-Pará (Bertolletia, segundo a designou Humboldt). Minhas caixas de plantas me serviam de mesa, e os caixotes, de cadeira. No teto, pendurei minha espingarda e diversos  artigos e objetos que eu de fato queria ter o tempo todo à mão. Já a cabine dianteira, aqui chamada de tolda da proa, era ocupada pelas cestas de farinha, alguns pacotes de sal e diversas bugigangas que levava comigo para comerciar com os índios. Quando chovia, servia ainda para abrigar a tripulação. Fora isso, eles preferiam dormir ao relento. De minha parte, avisado pela experiência do perigo que significava dormir ao ar livre nesses rios, eu sempre pernoitava no interior da tolda, e foi a isso que atribui o fato de não ter contraído as febres que tinham sido fatais para tantos europeus neste rio. [...]". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 196.
 
 
Embarcação utilizada no período (1836).
W. Smyth e F. Lowe, 1836.