domingo, 28 de dezembro de 2014

Viajantes: A palmeira Patauá.


"Estou muito interessado nas palmeiras, que aqui são bem mais numerosas do que em Santarém. Acredito que haja entre elas muitas espécies ainda não descritas. Chamo a atenção, dentre as espécies novas, para uma Maximiliana, uma Euterpe, uma Iriartea e duas ou três Geonomae. [...]. Talvez a mais nobre palmeira das florestas de Barra seja o Patauá, cujos troncos, às vezes atingem 80 pés [24,4m] de altura, encimados por frondes enormes. Uma espádice completa, carregada de frutos é carga bem pesada para um homem. As drupas dão muito óleo, aqui utilizado apenas para o preparo de um vinho semelhante ao do açaí.
Com poucos anos, o tronco fica coberto de espinhos delgados e rígidos, de cerca de 2 pés [61 cm] de comprimento, de ponta voltada para cima. Trata-se das nervuras do revestimento basal daqueles pecíolos do qual se desprendem o parênquima, e que os nativos chamam de "barba-de-patauá". Quando o tronco atinge 15 ou 20 pés [4,57-6,09m], a "barba" existente na base começa a cair, enquanto que a da parte superior da árvore, ficando assim privada de seu apoio, cai toda de uma só vez". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 166-167.
 
 

 
Patauá (Oenocarpus bataua)
 J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palamrum brasiliensium, 1903.




 

Patauá (Oenocarpus bataua).
 C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum,  BHL.
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Viajantes: Uapés



"Sobre a água sobrenadam, condensados e unidos, os uapés de mil formas. Entre estes distingue-se um de folhas redondas, verde- avermelhadas, do meio dos quais surdem alvas flores, golpeadas de escarlate, de feitio de estrelas, cujas finas hastes carmesins vêm-se mergulhar através da água cristalina com ondulações airosas de serpentes. Isolada quase, formando um mundo à parte, nos remansos tranquilos de um lago menos batido dos pescadores, e mais perto da terra-firme, a vitória-régia, o "forno de jacaré" dos naturais, desdobra as enormes folhas circulares de bordas cairelados de vivo carmesim virados para cima como um forno indígena, e ergue pouco fora d´água suas grandes flores semiesféricas: de manhã, alvas como a pena da garça, de tarde, cor-de-rosa como o papo da colhereira; dominando apesar de arredada, pela sua estranha e selvagem beleza e pelas extraordinárias proporções do seu tamanho, toda a luxuriosa flora aquática da região. José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011, p. 39.
 
 
 
 
Lago das Vitórias-régias.
Museu Paraense Emílio Goeldi-Parque Zoobotânico. Belém-PA
Fotografia: Olímpia Reis Resque


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Viajantes: Os cestos de açaí.


"Em suas voltas pela mata, os Tapuias haviam enchido com frutos do açaizeiro um daqueles cestos que eles fazem num piscar de olhos com um único galho de árvore. Um pintor teria apreciado o contraste de cores entre o violeta escuro dos frutos do açaí e o verde tenro e brilhante da suas folhas, mas um cesteiro teria certamente se maravilhado com a presteza com que esses índios haviam feito um cesto com seus pecíolos e folíolos". Paul Marcoy (1815-1888). Viagem pelo rio Amazonas. 2001, p. 242.
 
 
 
Os cestos (paneiros) de açaí.
 Os caminhos de Belém.  The routes of Belém. Rio de Janeiro, Agir, 1996.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Literatura: A Palmeira



A Palmeira
 
A palmeira Jauari,
mais altaneira que alta,
a solidão prefere
da várzea do Jarauá.
 
A quem a longa leveza
do seu talhe comove,
a palmeira moça estende
a graça da elegância
que me estremece inteiro
o gosto de estar vivo.
 
Do vento ela entende
as sílabas e os silêncios:
sílabas do canto
que as palmas aprendem,
silêncios do espanto
de saber  que segregam
sua futura fúria.
 
Nos dedos longos do ar
me chega o seu cheiro
de palmeira moça.
Para tê-la de perto
(me leva uma estrela)
atravesso o fulgor
do pleno meio-dia
sobre o verde da infância.
 
Toda a floresta vibra.
Na sombra exígua
da moça palmeira
me deito inconsútil
serena alegria.
 
Thiago de Mello
In: MELLO, Thiago. Mamirauá. Tefé (AM): Sociedade Civil Mamirauá, 2002.
 
 
 
 Astrocaryum jauari
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909) . Sertum palmarum brasiliensium :ou Relation des palmiers nouveax du Brésil, découverts, décrits et dessinés d'après nature /par J. Barbosa Rodrigues. 1903



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Lendas e Curiosidades: A voz das aves!


"Na Amazônia, o grande despertador do trabalho, da festa, da reza, o aparelho em suma que anuncia o nascer do sol e o cair da noite, é a voz das aves. O canto dos pássaros, melhor que outro qualquer sinal da natureza, guia o homem, deita-o e levanta-o da rede, chama-o para os movimentos adstintos à vida livre e quase mômade que o atrai na planície imensa. [...].
Existem sem dúvida outras vozes na planície tal a dos sapos, lembrando tambores, remar de canoas, roncos de feras; tal a das cigarras, cujo macho canta e a fêmea estridula; tal a do grilo, a das abelhas, a das onças; nenhuma porém como a voz das aves, precisa e oportuna na trasladação dos astros, no encher e no vazar da maré, no embravecer ou amansar dos ventos.
A Maria-já-é-dia, por exemplo, é quem assinala, do fundo escuro da noite, as primeiras tintas da aurora. E nem o galo é tão minucioso quanto ela, que só canta depois de ver, no seio misterioso do céu, um rasgão de claridade. Seu grito, de ritmo igual ao do próprio nome, tem alguma coisa de sentinela que espia o carro do sol. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). O Homem do Pacoval. s.d. p. 245-246.
 
 
Tesoura-Ben-te-vis-Maria-é-dia-Bentevis-miúdos.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de Aves Amazônicas. 1900-1906.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Viajantes: Macaquinhos na floresta.



"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual  todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir ver nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiram reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro (Chrysotrix sciurea), atual Saimiri sciureus. Por vários instantes, ficamos nos olhando imóveis, cheios de interesse um pelo outro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e, agora por todo o lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. Ao retornar, encontrei macacos pela segunda vez no dia, desta vez dois pequenos exemplares (Saguinus niger), sujeitinhos curiosos que, mesmo deixando claro o seu temor e mantendo respeitosa distância, não conseguiam parar de  seguir por um só segundo aquela coisa lá embaixo. Toda hora eu via nas copas de árvores acima de mim uma cabecinha espiando, que recuava espavorida toda vez que eu parava. No entanto, eles não precisavam temer minha espingarda.[...] Ouvem-se guaribas quase todo dia; pouco tempo atrás, estive bem perto deles também, sem enxergá-los, no entanto. [...]". Emília Snethlage (1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.
 
 
 
Macacos novos e pouco conhecidos da região alto-amazônica (Rio Purus).
 Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


domingo, 7 de dezembro de 2014

Vocabulário histórico da Amazônia e sua presença na literatura: Jiquitaia.


JIQUITAIA- Formiga de pequeno porte, geralmente avermelhada, cuja ferroada é muito dolorosa.
 
ETIMOLOGIA - Segundo o Prof. Pirajá da Silva: Jequitaia - Gequitaia, corruptela de cigie-taia: "o que queima". Para o Dr.  Vicente Chermont de Miranda  a pimenta malagueta seca e reduzida a pó é conhecida pelo mesmo nome, pois a picada dessa formiga  arde como pimenta. Sin./Var.: formiga-lava-pés, lava-pés, caga-fogo, formiga-brava, formiga-de-fogo, formiga-quente, formiga-malagueta, formiga-ruiva, itaciba, jequitaia, mordedeira, queima-queima, taciba.
 
LITERATURA: Francisco de Barros Junior narra seu encontro com essas formigas:
 
"A formiga-de-fogo, assim denominada vulgarmente pela sua coloração avermelhada, e semelhança a queimaduras, a sensação provocada por suas picadas, é o martírio dos caçadores e pescadores dessas terras.
Quando a enchente ganha a planície, as formigas dessa espécie  abandonam seus ninhos subterrâneos e sobem para as árvores, buscando abrigo sob a casca, ou no caule das imbaúbas, cheio de cavernas. Essa espécie vegetal chama-se também "pau-de-formiga", pois não se encontra uma única de suas árvores sem que nela exista formigueiro. Acredito que se fosse possível destruir a espécie, acabar-se-ia com noventa por cento das formigas do Amazonas. Se o abrigo buscado pelas formigas-de-fogo é de todo submerso pela enchente e está isolado não permitindo passarem-se para outra árvore, agarram-se umas às outras e formam uma bola que flutua sobre as águas, ao sabor da brisa ou levada pela correnteza. Ai do canoeiro desprevenido que esbarre com a embarcação nesse montículo avermelhado! Provocará como que um incêndio que em poucos segundos se espalhará por toda a embarcação, e levará a ardência do fogo às carnes do incauto. E se este não acudir a tempo, o único remédio será saltar para á água, afrontando as piranhas e jacarés, para, inundando o barco, não ser morto, sofrendo os mesmos martírios dos queimados vivos, mas com fogo que vem de dentro do corpo, para onde foi levado pela injeção do terrível ácido fórmico.
O piloto precavido, leva sempre à mão um saco de estopa. Quando por inadvertência esbarra em uma colônia das terríveis formigas, depois de uma violenta remada para afastar-se do grosso dos invasores vai batendo para mata-las ou faze-las caírem na água.
Uma vez, no Aramanduba, íamos quase entrando em um capão inundado, onde, em uma árvore mais alta, pousavam marrecas. Ambos, eu e o piloto, tínhamos toda a nossa atenção voltada para um casal de patos que abava de pousar. Havia ele dado uma forte remada, e o deslizava docemente, enquanto nos conservávamos curvados e imóveis, quando o piloto, dando uma forte remada, exclamou, cheio de pavor:
-Virge! As formiga!...
Com o remo, imprimiu um movimento lateral no casquinho, de sorte que só um ponto próximo da proa roçou o bolo de formigas, por três a quatro segundos apenas. Embora fosse assim de poucos segundos o contato, a borda do barco "avermelhou". O piloto veio para o centro, e como como um possesso entrou a bater com o saco, sem cessar de implorar a Virgem, e outros santos. [...].
Quando navego nesses lagos, ou mesmo em qualquer rio, liberto-me de tudo o que possa dificultar-me a natação, a começar pelos sapatos e polainas, ou botas. Nessa ocasião, estava de meias, que me sujeitavam as bordas da calça do pijama, à guisa de polainas, protegendo-me contra os piuns e carapanãs. Assim, livrei-me por mais tempo das dolorosas ferroadas. O piloto esfregava desesperadamente pés e pernas, entremeava pragas com rogos à corte celestial. Para trás, ficara o bolo de formigas que quase se desmanchava de todo, mas ia-se refazendo em meio da mancha avermelhada das que se haviam dispersado para subir no barco. Neste, a faina de bater e esmagar as que nos ferravam, ia em delírio. Eu, antes do companheiro que arrancava furiosamente as roupas, já estava inteiramente nu, pois indo de pijama, foi-me fácil desembaraçar-me das duas peças já cheias de formigas. Pelo impulso da remada, o casquinho foi deslizando, e a esse tempo estava próximo de uma árvore com um galho horizontal, por debaixo do qual íamos passar. Não perdi tempo. Com a agilidade de um acrobata de circo, instalei-me sobre ele, como sobre uma barra fixa. Verdade é que para consegui-lo, sofri diversos arranhões nos braços, pernas e barriga, e que sangravam, mas ali estava bancando o Adão antes do pecado, porém livre das causticantes ferroadas. [...]". Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil: Quarta série, 1950.
 
 
Imagem extraída de http://www.formigasbrasil.com/