quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Viajantes: O pirarucu e seus hábitos!

"O pirarucu, como a grande maioria dos peixes da água doce, procura alimentar-se ao entardecer e ao amanhecer; durante o dia, quando o calor é intenso, mete-se por baixo dos araçazais e canaranas, ou busca outra qualquer sombra para fugir dos raios abrasadores do sol amazônico, deixando-se ficar quieto no fundo da água e dela surgindo algumas vezes para tomar o gole de ar; o pirarucu alimenta-se de outros pequenos peixes e por isso é muito frequente vê-lo boiar onde haja cardume de jaraquis.
Alguns peixes, os aerófagos, necessitando do ar livre atmosférico para satisfazerem a necessidade do fenômeno da hematose, sobem à superfície, de espaço a espaço engolindo uma porção de ar, satisfeita essa necessidade, descem para o fundo, expelindo então o excesso de ar aspirado, que sobe à flor da água como um rosário de bolhas; [...]. O pirarucu sempre surge à tona e, quando não o faz de modo visível e estrepitoso, põe muito cautelosamente apenas a ponta do focinho para fora, desaparecendo imediata e silenciosamente, sem nada mais deixar que uma série de círculos concêntricos na superfície quieta dos lagos. Na bacia amazônica, de novembro em diante, quando as primeiras chuvas começam a encher os rios e os baixios marginais, chamados igapós, o pirarucu busca esses lugares de água limpa e rasa para preparar o ninho. O instinto natural de conservação faz com que o peixe procure para isso, os pontos menos frequentados pelos jacarés e pelas terríveis piranhas, inimigas declaradas da sua prole. É assim que vemos o casal de pirarucus escolher de preferência, os igapós dos igarapés, por baixo do mato ralo onde a limpidez das águas lhes permite avistar, de longe, o inimigo e prevenir-se para a defesa. Aí nesses sítios com um metro e pouco de profundidade, é que celebram a sua festa nupcial, debatendo-se, às rabanadas, em alvoroço intenso, ora assomando à tona, ora imergindo os corpos desmesurados por entre a galharia da terra inundada. [...]". Agenor Couto de Magalhães. In: SILVA, Hermano Ribeiro da. Nos sertões do Araguaia. 1935, p. 70-71.
 
 
 
 
Pirarucu (Arapaima gigas)
Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815).
Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (1783-1792).


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Viajantes: Alma-de-gato (Piaya cayana), a formosa rainha do silêncio!


"Esta não é cercada de tanta simpatia como o Sabiá; porém, não deixa de ser uma formosa rainha do silêncio, um tanto enigmática e credora, da maior admiração por parte de quantos se dedicam ao estudo desses seres empolgantes, que povoam as solidões dos pitorescos bosques. [...].
Completamente diferente de suas companheiras, gostando muito de viver a sós, longe da matinada dos outros pássaros, por entre os arbustos existentes nos pomares e nas restingas de capoeirinhas ela passa, assim, grande parte da vida.
Vemo-la, quase sempre muito escondida por entre as folhas, nunca se expondo inteiramente aos olhares dos curiosos por isso, um exame detido na sua linda plumagem é coisa difícil.
Enfeitam o lindo corpo penas multicores, destacando-se, de todas, a cor pronunciada da ferrugem.
O mais interessante que se nota nesta ave é a agilidade com que passa pela folhagem: ora aqui, ora acolá, mais distante, dificilmente podendo-se apreciá-la pousada num ramo, meditando sobre alguma coisa.
O seu espiritozinho é ágil, e a sua diversão favorita parece, saltitar, fazendo mil caracóis, de envolta com os belos e variados gorjeios, desferidos a todo instante, por entre a ramaria em flor!
O seu canto é de uma melodia inigualável, sendo porém, pouco conhecido, talvez por serem os deliciosos prelúdios soltos aos ventos, às escondidas, sem a mais leve vaidade de exibição.
Não distante muito arisca, encontramo-la sempre nos arredores da cidade, rabilonga, elegante e extremamente faceira, fazendo-nos crer que ela, nos rápidos giros matutinos, apressada e oculta nas franças dos arvoredos, reconhece a sua aristocrática beleza, pois, quando é descoberta nos esconderijos passageiros, pelos olhares indiscretos levanta o topete majestoso, inclina a longa cauda e entoa o empolgante e harmonioso canto, e vai em célere carreira pelas umbrosas frondes. [...]". Antônio Caetano Guimarães Junior. Ensaios sobre Ornithologia. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 105-106, 1929.
 
 
Alma-de-gato (Piaya cayana)
Ihering, R. von. O livrinho das Aves. 1914.


domingo, 24 de agosto de 2014

Viajantes: Coqueiros


"[...]. A viagem para o norte ao longo da praia, é fatigante, em parte na areia solta; por isso, já era tarde do dia quando atingimos o lugar do destino. Encontramos, a caminho, bonitos cercados de mimosas fechando os quintais de algumas habitações, e também alguns coqueiros cultivados (Cocos nucifera), carregados de frutos; grande raridade nessa região. [...]." Maximiliano, príncipe de Wied Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958, p. 85.
 
 
Coqueiro
G. F. Müller von Ruffach, 1681.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Viajantes: A famosa Victoria regia.


"[...]. Wallace acabava de regressar de uma interessante excursão a Monte Alegre, e se preparava para subir o rio Negro. Em Monte Alegre ele tinha encontrado a famosa planta aquática Victoria amazônica, e de lá trouxera um fragmento de sua folha, grande o suficiente para mostrar que era verdade tudo o que se dizia a seu respeito.
Durante minha viagem a Santarém, os tapuias me haviam dito que nos lagos existentes ao redor dessa cidade se podia encontrar uma planta aquática denominada forno em português e auapé-iapona ("forno-de-jaçanã"), na língua geral. O nome se devia à semelhança de suas folhas enormes como os fornos seculares usados para assar farinha, bem como ao fato de que as pequenas aves da beira do rio chamadas jaçanãs ou auapés gostam de pousar nelas. [...]." Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 81.
 
 
Lago com Victoria-regias
Pintura de Ernst Heyn, 1892.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Amazônia Exótica: curiosidades da floresta - Tucano.

TUCANO - s.m. Designação popular a aves do gênero Ramphastos da família dos ranfastídeos. Possui o bico muito grande e forte. Sua coloração é preta, vermelha, laranja ou verde.
 
ETIMOLOGIA: Theodoro Sampaio diz que o termo é corruptela de tu-can, 'bico ósseo', ou tu-quã, 'bico que sobrepuja, exagerado'. Sin/Var. tucana, tocano.
 
CURIOSIDADES/FOLCLORE: Nesse relato Eurico Santos descreve de forma divertida o comportamento dos tucanos.
"Martius já escrevia que tucano "lá em cima dos mais extremos galhos chama a chuva com suas altas notas queixosas". [...]. Na época da incubação ficam suspensas as pândegas, os grupinhos, as musicatas; cada qual cuida dos graves problemas da família. Então são vistos os casais atarefados. Como são aves precavidas e desconfiadas, não se lhes devassaram ainda bem certos costumes. Mas Goeldi diz que, à noite, escolhem esconderijo seguro para o sono. Quanto a posição que tomam para dormir essa é curiosíssima. Entortam, ou melhor, reviram a cauda para cima do dorso e escondem a cabeça debaixo da asa, resultando assim uma figura extravagante, uma espécie de enigma pitoresco".
 
LITERATURA: J. Th. Descourtilz relata características a cerca do bico do tucano: "A primeira vista, as espécies do gênero a que pertencem os tucanos nada inspiram a seu favor. Aquele bico de tamanho desmensurado parece incomodar a ave com o seu peso ou dá idéia de uma arma defensiva. Nada mais inexato. Tal trambolho, dando à fisionomia do tucano um ar tão estranho, é internamente constituído por células de paredes membranosas e extremamente leve. E nada há a temer do bico que mal consegue dar pequeno apertão na mão de quem apanhe uma dessas aves ao cair ferida."
 
LENDA/HISTÓRIA: A raposa e o tucano
 
A raposa entendeu que devia convidar o tucano para jantar na casa dela. O tucano foi. A raposa, muito traiçoeira, fez mingau para servir no jantar e o espalhou em cima de uma pedra e o pobre tucano nada pode comer e até machucou seu enorme bico na tentativa de comer o gostoso mingau. O tucano percebeu que foi de propósito e pensou num meio de vingar-se.
Passados alguns dias foi à casa da raposa e disse-lhe:
- Comadre, você outro dia tratou-me tão bem em sua casa oferecendo-me aquele maravilhoso jantar que quero retribuir-lhe a gentileza. Venho convidá-la para jantar comigo. A raposa então disse emocionada:
- Ora, compadre tucano não foi nenhum favor. Sua companhia é muito agradável. Eu aceito o convite. No dia marcado a raposa chegou à casa do tucano que tinha preparado o jantar. Também era mingau, só que ele colocou num jarro de pescoço bem estreito. O tucano meteu o bico e quando tirava vinha-se regalando. A raposa não conseguiu comer nada, lambia somente os respingos que caiam sobre a mesa. Acabado o jantar o tucano disse:
- Isso comadre, não é do meu feitio fazer com os outros, é só para você perceber, que o que fez comigo foi errado. Não queira se fazer de tão esperta.
 
A origem da rede de dormir e do bico grande do tucano
 
 
Há muito tempo, quando os animais falavam, os homens eram selvagens, pois não conheciam o fogo e a maloca. Viviam em bandos dormindo sobre o chão das matas, cobrindo-se com folhas secas ou próximas a sapopema das grandes árvores.
O pequeno lagarto Tamaquaré, que era cunhado do grande espírito Jurupari, resolveu casar-se com a anta. Havia, no entanto, um pequeno problema, o Tamaquaré tinha medo de dormir no chão por causa dos bichos da noite. Jurupari, preocupado com a segurança do pequeno Tamaquaré, pediu ao tucano que ele tecesse uma bonita rede de dormir para o casal. O tucano prontamente trançou longos cipós-imbé, entre um galho e outro das grandes árvores. Em pouco tempo estava pronta uma confortável rede de dormir longe do chão, e escondida dos homens.
Feliz, o Tamaquaré com seu novo abrigo noturno agradeceu ao hábil tucano e lhe pediu um favor: que jamais revelasse a ninguém, principalmente aos homens, como ele ganhara sua rede de dormir.
Certo dia, numa festa, o tucano de tanto beber caxiri, ficou bêbado e começou a falar coisas que não devia, como por exemplo, a arte de fazer rede de dormir. O Tamaquaré, que era um poderoso pajé, se aborreceu com a desobediência do tucano e puxou-lhe o bico dizendo: "Por causa da tua desobediência, teu bico vai crescer, com isso não voarás tão alto e nem falarás como antes. Teu bico só fará nhé-nhén".
 
 
 


Tucano
Ilustração de Eron Teixeira




 
 
 
Para saber mais
 







Você encontra nos seguintes locais:
 
Belém (PA)
 
Livraria Ernst Lohse  - Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi - Av. Magalhães Barata, 376.
 
Livraria da Fox -  Fox Vídeo - Travessa Dr. Moraes, 584.
 
Ná Figueiredo - Estação das Docas  - Boulevard Castilho França.
 
 
São Paulo (SP)
 
 
Livraria Cultura - www.livrariacultura.com.br
 
 
Curitiba (PR)
 
 
Livraria Alexandria - Travessa Nestor de Castro, 223 Loja 2 - Centro. Tel: (41)3027-4741.

domingo, 17 de agosto de 2014

Viajantes: Grinaldas de baunilha.


"Na beira dos numerosos canais e igarapés que atravessam a região das Ilhas, a oeste de Marajó, muitas árvores são ornadas de grinaldas de Baunilha que pendem do alto dos galhos e se cobrem de flores amareladas e brancas no mês de fevereiro. Esta Baunilha é a Vanilla aromática S. W., espécie bastante frequente e espalhada sobre uma grande parte da América tropical". Jacques Huber (1867-1914). Arboretum amazonicum. 2a. Década. 1900, p. 19.
 
 
 
 
Baunilha (Vanilla sp.)
Ilustração de J. Th. Descourtilz.

 
 
 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Viajantes: Orquídeas e suas flores maravilhosas.


"[...]. Entre as flores, a maravilha era completa. Umas augustas, solitárias, esplendendo únicas sobre as hastes longas. Outras, às dezenas ou centenas, vergando os pendões em que se agrupavam. Esta lembrando uma borboleta policrômica. Esta outra, um pássaro de asas ao pairo. Ainda outra, um perfeito escaravelho, ou um casco romano, ou uma sandália grega. E havia também as que simulavam vespas, abelhas, falenas, aracnídeos. E até seres fantásticos, criaturas irreais. Medusas de cabeleira colubrina. Gnomos liliputianos. Umas dir-se-iam esculpidas no mais puro marfim, ou, lacas nos seus tons de mel, modeladas em cera. Outras tinham o brilho das lacas orientais ou o colorido das majólicas italianas. Umas seriam feitas de veludo ou seda, com predominância de uma só tonalidade, enquanto outras seriam recortadas num brocado em que entravam os mais diversos matizes. Pétalas franjadas, onduladas, pubescentes. Pétalas estriadas, pintalgadas, maculadas, venuladas. Labelos carnosos e provocantes que se ofereciam como lábios de mulher.[...]. Flores desde o lilás mais suave ao roxo mais saturado do róseo mais leve ao vermelho mais vivo. Do branco mais puro ao amarelo mais berrante. E azuis, e verdes, e castanhos, e salmonadas." Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2. ed. 1955, p. 62-63.
 
 

Miltonia spectabilis moreliana hort.
Lindenia iconographie de orchidées. v. 3, 1887.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Viajantes: Castanha-de-macaco (Couroupita guianensis Aubl.).


"Esta bela árvore, das mais características da Hiléia, devido as panículas permanentes que lhe revestem o tronco, apresenta a configuração de um imenso candelabro com múltiplos braços, irregularmente distribuídos por toda a sua extensão. É conhecida geralmente por castanha-de-macaco ou cuia-de-macaco.
Com quinze a vinte metros de altura, as suas flores, grandes, róseo-purpurinas, muito perfumadas, nascem diretamente sobre o tronco ou sobre os galhos, o que torna a árvore extremamente festiva e ornamental no período da floração. Tem frutos quase esféricos, com dezesseis centímetros de diâmetro, de polpa e sementes bastante apreciadas pelos símios, de onde lhe provieram aqueles nomes vulgares, sempre em ligação com os macacos.
Floresce anualmente no Jardim Botânico, em março e outubro." Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2. ed. 1955. p. 59-60.
 
 
 
Castanha-de-macaco (Couroupita guianensis Aubl.)
 Alexandre Rodrigues Ferreira. Viagem Philosophica.


domingo, 3 de agosto de 2014

Viajantes: O mamoeiro e o agradável perfume de suas flores!


"[...]. Ladeando os trilhos, estão os mamoeiros (Carica papaya), quase incontáveis, projetando-se para o céu, e dá para andar trechos inteiros sentindo o característico cheiro e agradável que suas flores exalam. Esse cheiro tem em mim um efeito curioso. Vocês ainda se lembram de quando, mexendo nas coisas da mamãe, encontrávamos alguns frascos vazios de perfume? Pois bem. Um deles era Est-bouquet e o outro tinha exatamente o mesmo perfume do mamão trazido pelo vento. Por isso, quando espirro no calor sufocante do meio dia tropical, que lança um véu sobre as coisas, tornando os seus contornos cintilantes e fazendo-as parecer irreais, as memórias mais remotas da minha infância se reacendem, e parece que voltam à tona todas as coisas possíveis que eu, de lá para cá, há muito havia esquecido. Por exemplo, o tanto que eu, já naquela época de criancinha, amava a natureza, embora sem o saber." Emília Snethlage (1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n.1, p. 207-208, 2013.
 
 
 
Mamão (Carica papaya)
Maria Sybilla Merian (1647-1717).
 Insects of Surinam.