domingo, 28 de dezembro de 2014

Viajantes: A palmeira Patauá.


"Estou muito interessado nas palmeiras, que aqui são bem mais numerosas do que em Santarém. Acredito que haja entre elas muitas espécies ainda não descritas. Chamo a atenção, dentre as espécies novas, para uma Maximiliana, uma Euterpe, uma Iriartea e duas ou três Geonomae. [...]. Talvez a mais nobre palmeira das florestas de Barra seja o Patauá, cujos troncos, às vezes atingem 80 pés [24,4m] de altura, encimados por frondes enormes. Uma espádice completa, carregada de frutos é carga bem pesada para um homem. As drupas dão muito óleo, aqui utilizado apenas para o preparo de um vinho semelhante ao do açaí.
Com poucos anos, o tronco fica coberto de espinhos delgados e rígidos, de cerca de 2 pés [61 cm] de comprimento, de ponta voltada para cima. Trata-se das nervuras do revestimento basal daqueles pecíolos do qual se desprendem o parênquima, e que os nativos chamam de "barba-de-patauá". Quando o tronco atinge 15 ou 20 pés [4,57-6,09m], a "barba" existente na base começa a cair, enquanto que a da parte superior da árvore, ficando assim privada de seu apoio, cai toda de uma só vez". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 166-167.
 
 

 
Patauá (Oenocarpus bataua)
 J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palamrum brasiliensium, 1903.




 

Patauá (Oenocarpus bataua).
 C. Fr. von Martius (1794-1868). Historia Naturalis Palmarum,  BHL.
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Viajantes: Uapés



"Sobre a água sobrenadam, condensados e unidos, os uapés de mil formas. Entre estes distingue-se um de folhas redondas, verde- avermelhadas, do meio dos quais surdem alvas flores, golpeadas de escarlate, de feitio de estrelas, cujas finas hastes carmesins vêm-se mergulhar através da água cristalina com ondulações airosas de serpentes. Isolada quase, formando um mundo à parte, nos remansos tranquilos de um lago menos batido dos pescadores, e mais perto da terra-firme, a vitória-régia, o "forno de jacaré" dos naturais, desdobra as enormes folhas circulares de bordas cairelados de vivo carmesim virados para cima como um forno indígena, e ergue pouco fora d´água suas grandes flores semiesféricas: de manhã, alvas como a pena da garça, de tarde, cor-de-rosa como o papo da colhereira; dominando apesar de arredada, pela sua estranha e selvagem beleza e pelas extraordinárias proporções do seu tamanho, toda a luxuriosa flora aquática da região. José Veríssimo (1857-1916). Cenas da vida amazônica. 2011, p. 39.
 
 
 
 
Lago das Vitórias-régias.
Museu Paraense Emílio Goeldi-Parque Zoobotânico. Belém-PA
Fotografia: Olímpia Reis Resque


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Viajantes: Os cestos de açaí.


"Em suas voltas pela mata, os Tapuias haviam enchido com frutos do açaizeiro um daqueles cestos que eles fazem num piscar de olhos com um único galho de árvore. Um pintor teria apreciado o contraste de cores entre o violeta escuro dos frutos do açaí e o verde tenro e brilhante da suas folhas, mas um cesteiro teria certamente se maravilhado com a presteza com que esses índios haviam feito um cesto com seus pecíolos e folíolos". Paul Marcoy (1815-1888). Viagem pelo rio Amazonas. 2001, p. 242.
 
 
 
Os cestos (paneiros) de açaí.
 Os caminhos de Belém.  The routes of Belém. Rio de Janeiro, Agir, 1996.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Literatura: A Palmeira



A Palmeira
 
A palmeira Jauari,
mais altaneira que alta,
a solidão prefere
da várzea do Jarauá.
 
A quem a longa leveza
do seu talhe comove,
a palmeira moça estende
a graça da elegância
que me estremece inteiro
o gosto de estar vivo.
 
Do vento ela entende
as sílabas e os silêncios:
sílabas do canto
que as palmas aprendem,
silêncios do espanto
de saber  que segregam
sua futura fúria.
 
Nos dedos longos do ar
me chega o seu cheiro
de palmeira moça.
Para tê-la de perto
(me leva uma estrela)
atravesso o fulgor
do pleno meio-dia
sobre o verde da infância.
 
Toda a floresta vibra.
Na sombra exígua
da moça palmeira
me deito inconsútil
serena alegria.
 
Thiago de Mello
In: MELLO, Thiago. Mamirauá. Tefé (AM): Sociedade Civil Mamirauá, 2002.
 
 
 
 Astrocaryum jauari
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909) . Sertum palmarum brasiliensium :ou Relation des palmiers nouveax du Brésil, découverts, décrits et dessinés d'après nature /par J. Barbosa Rodrigues. 1903



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Lendas e Curiosidades: A voz das aves!


"Na Amazônia, o grande despertador do trabalho, da festa, da reza, o aparelho em suma que anuncia o nascer do sol e o cair da noite, é a voz das aves. O canto dos pássaros, melhor que outro qualquer sinal da natureza, guia o homem, deita-o e levanta-o da rede, chama-o para os movimentos adstintos à vida livre e quase mômade que o atrai na planície imensa. [...].
Existem sem dúvida outras vozes na planície tal a dos sapos, lembrando tambores, remar de canoas, roncos de feras; tal a das cigarras, cujo macho canta e a fêmea estridula; tal a do grilo, a das abelhas, a das onças; nenhuma porém como a voz das aves, precisa e oportuna na trasladação dos astros, no encher e no vazar da maré, no embravecer ou amansar dos ventos.
A Maria-já-é-dia, por exemplo, é quem assinala, do fundo escuro da noite, as primeiras tintas da aurora. E nem o galo é tão minucioso quanto ela, que só canta depois de ver, no seio misterioso do céu, um rasgão de claridade. Seu grito, de ritmo igual ao do próprio nome, tem alguma coisa de sentinela que espia o carro do sol. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). O Homem do Pacoval. s.d. p. 245-246.
 
 
Tesoura-Ben-te-vis-Maria-é-dia-Bentevis-miúdos.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de Aves Amazônicas. 1900-1906.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Viajantes: Macaquinhos na floresta.



"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual  todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir ver nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiram reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro (Chrysotrix sciurea), atual Saimiri sciureus. Por vários instantes, ficamos nos olhando imóveis, cheios de interesse um pelo outro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e, agora por todo o lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. Ao retornar, encontrei macacos pela segunda vez no dia, desta vez dois pequenos exemplares (Saguinus niger), sujeitinhos curiosos que, mesmo deixando claro o seu temor e mantendo respeitosa distância, não conseguiam parar de  seguir por um só segundo aquela coisa lá embaixo. Toda hora eu via nas copas de árvores acima de mim uma cabecinha espiando, que recuava espavorida toda vez que eu parava. No entanto, eles não precisavam temer minha espingarda.[...] Ouvem-se guaribas quase todo dia; pouco tempo atrás, estive bem perto deles também, sem enxergá-los, no entanto. [...]". Emília Snethlage (1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.
 
 
 
Macacos novos e pouco conhecidos da região alto-amazônica (Rio Purus).
 Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)


domingo, 7 de dezembro de 2014

Vocabulário histórico da Amazônia e sua presença na literatura: Jiquitaia.


JIQUITAIA- Formiga de pequeno porte, geralmente avermelhada, cuja ferroada é muito dolorosa.
 
ETIMOLOGIA - Segundo o Prof. Pirajá da Silva: Jequitaia - Gequitaia, corruptela de cigie-taia: "o que queima". Para o Dr.  Vicente Chermont de Miranda  a pimenta malagueta seca e reduzida a pó é conhecida pelo mesmo nome, pois a picada dessa formiga  arde como pimenta. Sin./Var.: formiga-lava-pés, lava-pés, caga-fogo, formiga-brava, formiga-de-fogo, formiga-quente, formiga-malagueta, formiga-ruiva, itaciba, jequitaia, mordedeira, queima-queima, taciba.
 
LITERATURA: Francisco de Barros Junior narra seu encontro com essas formigas:
 
"A formiga-de-fogo, assim denominada vulgarmente pela sua coloração avermelhada, e semelhança a queimaduras, a sensação provocada por suas picadas, é o martírio dos caçadores e pescadores dessas terras.
Quando a enchente ganha a planície, as formigas dessa espécie  abandonam seus ninhos subterrâneos e sobem para as árvores, buscando abrigo sob a casca, ou no caule das imbaúbas, cheio de cavernas. Essa espécie vegetal chama-se também "pau-de-formiga", pois não se encontra uma única de suas árvores sem que nela exista formigueiro. Acredito que se fosse possível destruir a espécie, acabar-se-ia com noventa por cento das formigas do Amazonas. Se o abrigo buscado pelas formigas-de-fogo é de todo submerso pela enchente e está isolado não permitindo passarem-se para outra árvore, agarram-se umas às outras e formam uma bola que flutua sobre as águas, ao sabor da brisa ou levada pela correnteza. Ai do canoeiro desprevenido que esbarre com a embarcação nesse montículo avermelhado! Provocará como que um incêndio que em poucos segundos se espalhará por toda a embarcação, e levará a ardência do fogo às carnes do incauto. E se este não acudir a tempo, o único remédio será saltar para á água, afrontando as piranhas e jacarés, para, inundando o barco, não ser morto, sofrendo os mesmos martírios dos queimados vivos, mas com fogo que vem de dentro do corpo, para onde foi levado pela injeção do terrível ácido fórmico.
O piloto precavido, leva sempre à mão um saco de estopa. Quando por inadvertência esbarra em uma colônia das terríveis formigas, depois de uma violenta remada para afastar-se do grosso dos invasores vai batendo para mata-las ou faze-las caírem na água.
Uma vez, no Aramanduba, íamos quase entrando em um capão inundado, onde, em uma árvore mais alta, pousavam marrecas. Ambos, eu e o piloto, tínhamos toda a nossa atenção voltada para um casal de patos que abava de pousar. Havia ele dado uma forte remada, e o deslizava docemente, enquanto nos conservávamos curvados e imóveis, quando o piloto, dando uma forte remada, exclamou, cheio de pavor:
-Virge! As formiga!...
Com o remo, imprimiu um movimento lateral no casquinho, de sorte que só um ponto próximo da proa roçou o bolo de formigas, por três a quatro segundos apenas. Embora fosse assim de poucos segundos o contato, a borda do barco "avermelhou". O piloto veio para o centro, e como como um possesso entrou a bater com o saco, sem cessar de implorar a Virgem, e outros santos. [...].
Quando navego nesses lagos, ou mesmo em qualquer rio, liberto-me de tudo o que possa dificultar-me a natação, a começar pelos sapatos e polainas, ou botas. Nessa ocasião, estava de meias, que me sujeitavam as bordas da calça do pijama, à guisa de polainas, protegendo-me contra os piuns e carapanãs. Assim, livrei-me por mais tempo das dolorosas ferroadas. O piloto esfregava desesperadamente pés e pernas, entremeava pragas com rogos à corte celestial. Para trás, ficara o bolo de formigas que quase se desmanchava de todo, mas ia-se refazendo em meio da mancha avermelhada das que se haviam dispersado para subir no barco. Neste, a faina de bater e esmagar as que nos ferravam, ia em delírio. Eu, antes do companheiro que arrancava furiosamente as roupas, já estava inteiramente nu, pois indo de pijama, foi-me fácil desembaraçar-me das duas peças já cheias de formigas. Pelo impulso da remada, o casquinho foi deslizando, e a esse tempo estava próximo de uma árvore com um galho horizontal, por debaixo do qual íamos passar. Não perdi tempo. Com a agilidade de um acrobata de circo, instalei-me sobre ele, como sobre uma barra fixa. Verdade é que para consegui-lo, sofri diversos arranhões nos braços, pernas e barriga, e que sangravam, mas ali estava bancando o Adão antes do pecado, porém livre das causticantes ferroadas. [...]". Francisco de Barros Junior (1883-1969). Caçando e pescando por todo o Brasil: Quarta série, 1950.
 
 
Imagem extraída de http://www.formigasbrasil.com/

 
 
 

domingo, 30 de novembro de 2014

Lendas e Curiosidades: O Sabiá-laranjeira.


"Apesar de Goeldi não lhe ter apreciado o canto, dizendo que seus trinados não passam de um "furi-furi" levado ao infinito e, nem, tão pouco ter manifestado simpatia por essa alminha encantadora de Gonçalves Dias, eu o classificarei dentre os nossos pássaros cantores genuinamente brasileiros, como o primus inter pares.
Se tenho razão, não discuto. Julgo que, talvez, esse meu modo de pensar seja questão de profundo entusiasmo que lhe dedico a ponto de reconhece-lo um artista impecável do canto.
Vou, pois apresenta-lo aos meus leitores, em primeiro lugar, não como espécimen raro, merecedor de análise circunstanciada no meio ornitológico, mas, tão somente, como um dos maiores cantores da primavera.
Quem o não conhece?
É ele o mais simpático da família, tanto pela compleição magnífica do corpo, como também pelo brilhante talento musical, fazendo a seus pares enorme sombra.
Olhinhos vivos, cabeça altamente erguida, peito arquejante, uma das pernas escondida por entre as penas bruno-avermelhadas, ei-lo senhor da Natureza, pousado elegantemente num galho, solitário, chamando com um canto vibrante e dolente a terna e encantadora companheira.
Vê-lo nesta sublime posição, dominando os encantos da terra é uma maravilha, um deslumbramento!
Ouvi-lo gorjear neste aspecto airoso, nesta atitude fidalga e enérgica, mas cheia de ternura, é um desdobramento compassivo e doce de saudades infinitas, - indizíveis, perpassadas de emoções evocativas, que nos transportam a tempos remotos, a regiões distantes, longínquas, indecifráveis. [...]". Antônio Caetano Guimarães Junior. Ensaios sobre ornithologia. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 99-100, 1929.
 
 
 
Sabiá laranjeira.
R. von Ihering. O livrinho das aves. 1914.
 


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Viajantes: Que dia delicioso!


"Que dia delicioso! Mas o termo delicioso é demasiado fraco para exprimir os sentimentos do naturalista que, pela vez primeira, erra numa floresta brasileira. A elegância das ervas, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde ofuscante da folhagem e, mais que tudo isso, o vigor e o brilho geral da vegetação, enchem-me de espanto. Qualquer pessoa que ame as ciências da natureza experimenta, num dia como o de hoje, um prazer, uma alegria tão intensa, como não pode esperar sentir igual nunca mais". Charles Darwin (1809-1882). In: MELLO-LEITÃO, Candido. A vida na selva. São Paulo, 1940, p. 2.
 
 
 
Ilustração de Margareth Mee (1909-1988)
Flores da floresta amazônica.  2010.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Viajantes: Cajueiro



"[...]. Entre as árvores que então estavam em flor, a mais abundante era o cajueiro (Anacardium occidentale, L.). Destacava-se entre eles um velho espécime, de casca nodosa e galhos que tocavam o chão de todos os lados, com folhas recentes, de uma delicada coloração pardo-avermelhada, e numerosos frutos amarelos ou rubros (melhor dizendo, seus pedicelos dilatados), parecidos com peras, cada qual tendo embaixo dele uma castanha em forma de rim (que é o fruto propriamente dito). Tratava-se de um exemplar arbóreo bem pitoresco, apesar de seu tamanho modesto". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 77.
 
 
 
 
Desenho de  Mark Catesby
Sec. XVIII


domingo, 16 de novembro de 2014

Viajantes: Uma paisagem maravilhosa!


"O arvoredo desdobra-se, pouco a pouco, em toda sua opulência. Massas de folhagem sobem em trepadeiras verde-claro até às copas e dependuram-se até embaixo como vigorosas velas formando altos e redondos caramanchões. Por toda a parte raízes enormes  e lisas, de cor cinza finas ou grossas como braços, parecem amarras de navio a que estivesse presas enxarcias vindas lá do alto, desaparecendo no matagal florido ou enroscando-se nos troncos. O que se torna de surpreendente efeito é que ali nunca se vê o rio diante de si como uma estrada comprida, pois a cada meio ou um quilômetro há sempre uma volta a dar, aparecendo então uma nova paisagem maravilhosa. Os pássaros levantam-se em voo, sendo o mais elegante a garça esbelta e branca de neve, formando  contraste com a cor da espessa mata, onde não existe uma linha  reta, nem se nota, ao mesmo tempo, formações de contornos regulares. Frequentemente, o nosso conhecido  "Maçarico", de cores tão brilhantes, é chamado por aqui de Martim-pescador. O biguá, nosso mergulhão é visto habitualmente, nos ramos das árvores com muitos companheiros, estirando, curiosamente, o comprido pescoço, ou vem à tona, após mergulhar, correndo de passinhos rentes à superfície. Karl von Steinen (1855-1929). O Brasil Central. 1942, p. 55.
 
 
 
 
Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
Álbum de aves amazônicas 1900-1906.
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930).


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Viajantes: Viagem no "rei dos rios".


"Com a entrada no rei dos rios encontramos novamente o vento geral, que de agora em diante se nos apresentava tão contrário, quanto nos favorecera na nossa viagem rio acima. Com exceção de um curto momento em que pela manhã cedo nos detivemos em Tapará, [...], lutamos quase todo o dia contra ele. [...]. Soprou hoje, com tanta violência que, juntamente com o preamar, desviou o igarité para leste, num movimento remoinhante. Fomos por isso obrigados a cortar varas, para poder impedir com grande trabalho o barco junto aos exemplares de Caladium e juncais da margem. Para a tarde, porém, o vento contrário amainou e não tardou que o céu estendesse seu manto estrelado no qual brilhava o Cruzeiro do Sul, por cima das águas escuras do Gigantesco Amazonas, como se quisesse festejar também a noite de Natal. [...]" Adalberto, Príncipe da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazônia-Xingu. 2002, p. 357.
 
 
 
Caladium.
 L´illustration horticole. Gand, 1891.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Viajantes: As garças brancas nos rios do Pantanal.


"É particularmente ao cair da tarde que mais empolgante se tornam as cenas da natureza para quem sobe os grandes rios do Pantanal. Bandos incontáveis de aves mergulhadoras e ribeirinhas acorrem de todos os lados, convergindo para a fronde das árvores mais altas, não raro, por este sacrifício, inteiramente despojadas de folhas. As de cada espécie preferem de ordinário a companhia de suas semelhantes, tingindo assim a ramagem de pontilhado uniforme. À passagem do barco, a multidão inquieta estremece, vacila e agita as asas, pronta a seguir o exemplo daquele que, mais prudente ou espantadiço ergue-se no ar, projetando nos céus claros a sua silhueta característica. As garças brancas [...], obedecendo o estilo de sua numerosa parentela dobram em S o longo pescoço, estiram as patas para trás em prolongamento à cauda curta, e fendem os ares em lento bater de asas, com o bico apontado para diante; [...]". Olivério Pinto. Notas de uma viagem fluvial a Cuiabá. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 10, p. 336, 1949.
 
 
Garças
 Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum das aves amazônicas (1900-1906).


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Viajantes: A estranha e linda mariposa Urania leilus.


"Chegamos ao sítio de nossa caçada por volta das quatro e meia. O canal era mais largo e apresentava várias ramificações. Faltava ainda hora e meia para o amanhecer e Raimundo aconselhou-me que cochilasse um pouco. Deitamos os dois nos bancos da canoa e adormecemos, deixando o bote vogando ao sabor da maré, então em calmaria. Dormi bem, apesar da dureza do leito, e quando despertei, no meio de um sonho com imagens da pátria, rompia a madrugada. Minha roupa estava úmida de orvalho. As aves agitavam-se, as cigarras começavam a sua música e a Urania leilus, estranha e linda mariposa de asas com um prolongamento caudal e de variegadas cores, de hábito semelhante aos das borboletas, começava a esvoaçar em bandos na copa das árvores. Raimundo exclamou: "Clareia o dia"!" A mudança foi rápida. O céu, para o nascente, tomou de súbito o mais formoso azul, no qual se destacavam estreitas faixas de alvas nuvens. Em tais momentos a gente sente como é realmente formosa a terra. O canal, em cujas águas flutuava nosso pequeno bote, tinha cerca de duzentas jardas de largura. Outros ramificavam-se à direita e à esquerda, recortando o grupo de graciosas ilhas que formam a terra de Carnapijó. Por toda parte a floresta formava ininterrupto caixilho: embaixo era a franja dos mangues, cuja folhagem miúda contrastava com as frondes em leque ou em pluma das palmeiras." Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944. v. 1, p. 230-231.
 
 
 

Urania leilus.
 Ilustração de Maria Sybilla Merian  (1647-1717).
  Insects of Surinam.


domingo, 9 de novembro de 2014

Reflexões: Hora íntima.



 
Quando o tédio vier, nas noites indormidas,
terei de preencher o vazio das horas.
Terei que dar sentido aos momentos estéreis
para não mergulhar no vácuo do não-ser.
 
Deverei ponderar sobre o que não criei,
sobre o desvalimento da presença inútil,
sobre a palavra dita em momento indevido
e sobre a negação de um gesto ou de um olhar.
 
Deverei meditar sobre o quanto não fiz,
sobre os passos levados pelos descaminhos,
sobre a inglória omissão a um apelo de amor,
sobre a invasão da dor na hora inoportuna.
 
Deverei resolver fracassos renegados,
assumir erro e culpa, acordar sofrimentos
que causei, ao vencer talvez espezinhando
impunemente ou não outras almas em ruínas.
 
Deverei descansar minha própria aparência,
surgir diante de mim como quem se confessa,
como quem se revela, em face da verdade,
para viver na luz, para dormir em paz.
 
Dulcinéa Paraense
 
Extraído de: PARAENSE, Dulcinéa. Dulcinéa Paraense a flor da pele. Belém: SECULT, 2011.
 
 
 
 


Pintura de  Francis John Wyburd (1826-1893).
 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Vocabulário histórico da Amazônia e sua presença na literatura: Sapopema.


SAPOPEMA: grandes raízes que envolvem a base do tronco e  se elevam, às vezes, a dois metros de altura. 
 
ETIMOLOGIA: Do Guarani hapó 'raiz' + pembi 'tecedura', segundo Braz da Costa Rubim em Vocábulos indígenas e outros introduzidos no uso vulgar. Revista do Instituto Histórico e Geografico, t. 45, p. 1, 1882. Sin./Var.: sapupema, sapopemba.
 
LITERATURA: Álvaro Maia  comenta:
 
"Nada se vê, a dois metros de distância: as embarcações param, os motores abeiram aos barrancos. Canoas afoitas descem o rio, perto do escuro das margens, guiadas pelas correntezas espumantes e, muitas vezes, perdem os rumos.
As buzinas acordam os moradores. As bordoadas nas sapopemas, troando matas afora, servem para anunciar o caçador ou o seringueiro, que regressa da apanha do leite.
A sapopema acorda a alegria, - alguém vara as brenhas, um sopro de vida perpassa sob as árvores, uma voz vegetal saúda as barracas, que dormem ao longe." Álvaro Maia. Gente dos seringais. 1956, p. 13.
 
 
Árvore  e sapopemas.
 Franz Keller-Leuzinger. Voyage d´exploration sur l´Amazone et le Madeira. 1874.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Viajantes: Palmeiras espinhosas!


"[...]. Não disponho de referências no tocante às palmeiras, e tenho estado atualmente em locais onde essas plantas são muito interessantes. É bem verdade que sua coleta e preservação são extremamente difíceis.
Uma palmeira espinhosa, colhida nas profundezas da mata, num lugar distante do ponto onde se encontra a canoa, é uma carga difícil de ser transportada por um homem. Além disso, trata-se de um transporte extremamente desconfortável, pois as mãos de quem a arrasta estão constantemente sendo usadas para cortar e afastar os cipós que obstruem o caminho". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 170.
 
 
Desmoncus paraensis Barb. Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Viajantes: Acampamento dentro da grande mata!


"A noite desce com presteza; a luz do fogo dança por sobre os troncos e galhos. É muito sossegado aqui na profundeza da mata. Nos campos abertos e perto das cidades há o concerto repicante dos insetos e o choro das aves noturnas; em volta dos lagos da várzea há o coaxar e o cricrilar dos grilos e os peixes a saltarem nos rasos. Nada disso é ouvido em nosso acampamento; não há sinal de vida, exceto as estranhas mariposas que adejam sobre a fogueira e, vez ou outra, o sussurro de algum animal no mato; um veado, talvez, atraído pela luz. Ficamos muito tempo acordados, como acontece num primeiro acampamento, vigiando os tições que se apagam e cismando vagamente! Que ponto minúsculo é o nosso acampamento dentro da grande mata!" Herbert Smith (1851-1919).In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.) Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2011.
 
 
 
 Cte. De Gabriac.
 Promenade a travers L´Amerique du Sud. 1868.
 
 
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Viajantes: Variedade infinita de flores!


"[...]. Algumas árvores ainda estão despidas de folhas, outras se cobrem de folhagem acinzentada ou amarelada, ao passo que outras, ainda, se colorem de matizes róseos e vermelho brilhante. A cor normal é um verde escuro; todas as tonalidades de verde, contudo, aparecem desde o verde  apagado do alho-porro até o verde vivo da esmeralda.
Enquanto muitas árvores estão cobertas de frutas, muitas outras estão cobertas de flores, e, nesse ponto, também, se manifesta uma variedade infinita. As flores  cor de ouro e de púrpura são as que primeiro atraem a vista; não há falta, contudo, de flores azuis e brancas, róseas e roxas, carmesins e escarlates.
Todas elas carregam de perfume  a atmosfera úmida e pesada e, mais uma vez, a variedade se faz sentir, a variedade de cheiros, desde a fragrância da baunilha e do cipó-cravo até o pau-d´alho, que espalha o cheiro que lhe dá o nome por cem metros em torno". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 2001, p. 359.
 
 
 
Flores brasileiras.
Marianne North (1830-1890).
www.kew.org


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Lendas e Curiosidades: "Quinhentos pássaros, quinhentas crianças"!

"Peço licença ao dono da festa para trazer aquela garça que atravessa nesse instante o Paraná do Ramos, que banha a minha Barreirinha. Vem no vento, as asas imóveis, são pura luz. Á suavidade do seu voo, solitário e silencioso, parece um cântico. Preciosa prenda da Natureza, que nos convence de que nela - e não na literatura, por mais fantástica que seja - é que está a realidade mágica, o real maravilhoso do reino desse mundo.
Trago também o canto dos pássaros noturnos. O bacurau, que semeia pela noite as sementes do cacau, como canta o poeta Aníbal Beça. As corujas que velam cantando meu sono. São várias, cada qual com seu jeito sonoro de atravessar a noite. O canto delas é grave de timbre, mas longe de ser triste. O que mais me afaga é o da coruja brancona, que mora nas palmas mais altas da inajazeira. Quando a noite vai findando, todas cantam juntas: é um canto prolongado e um tanto aflito, com o qual elas se despedem das estrelas.
Só não trago a suinara, que os caboclos chamam de rasga-mortalha. Dizem que seu canto agudo e rascante anuncia morte - e a nossa taça é de esperança e de vida.
Sinto pena de não trazer o gavião tão meu amigo, porque ele deixou de me ver. Pelo estremecer das asas brancas, o brilho avermelhado do peito e sobretudo pelo negro esplendor do seu bico, eu sabia que era ele, o meu gavião. Chegava de tardinha, de começo desconfiado, olhando oblíquo, pousava, delicado como uma pomba, no parapeito largo de Itaúba. Ficava me olhando, a grossura das garras me assustando, eu estirado na rede de tucum. Demorava pouco, erguia voo, descobri que dando as suas voltas, não deixava de me olhar. Um dia chegou, pulou do parapeito para o punho da rede e me olhando disse que gostava de mim.
Era um gavião-pinagé, de rapina, mas de boa índole. Comia castanhas de caju, tucumãs maduros. De tanto se sentir aconchegado, acabou se fazendo companheiro de japiins, pipiras, saracuras e até, Deus o louve, dos tucanos. Uma tarde chegou, ficou e olhando imóvel largo tempo, depois voou. Regressou, vi que seu olhar era de tristeza só, não soube me contar a sua pena, e então se foi, as asas lentas, desapareceu no fim dos verdes. Nunca mais voltou. [...]." Thiago de Mello. Quinhentos pássaros, quinhentas crianças. In: ELETRONORTE. Brasil: 500 pássaros. 2000.
 
 
 
Corujas
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906.




quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Viajantes: A decoração dos troncos e galhos na floresta!


"A floresta  era singularmente desprovida do denso mato rasteiro habitual e muitas clareiras e aberturas encantadoras entre as imponentes árvores formavam cenários de beleza silvestre.
Conspícuas entre árvores ficavam as gameleiras gigantes em arco, muitas delas cingidas por profusas lianas envolventes, como por exemplo a Monstera deliciosa, e recobertas de bromélias floridas de carmim brilhante. Árvores delicadas, samambaias e palmeiras de guariroba e jeribá suavizam, com sua folhagem recortada,  o contorno escuro dos troncos maciços. Cipós pendiam em longas linhas suspensas como o cordame de um navio, ou formavam curvas graciosas de árvore a árvore; numerosas orquídeas, parasitas, musgos e líquens decoravam os troncos e galhos, a tal ponto que quase cada uma das árvores era um jardim por si só". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 11-12. 
 
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988)
Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2.ed. 2010.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Viajantes: Uma árvore colossal!


"Martius e Spix ficaram deslumbrados diante de uma árvore colossal, por eles encontrada em uma floresta de terra firme, segundo ele nos conta na notícia dada sob o título "Arbores ante Christum natum enatae, in silva juxta fluvium Amazonum", nas "Tabulae Physionomicae Explicatae" (Flora brasiliensis, v. 1, pars I).
As 11 pessoas que compunham a caravana, de mãos dadas, não puderam abraçar essa árvore gigantesca; a sua circunferência era de 25 metros. [...]. Diz Martius que essa árvore lhe deu a impressão de um rochedo que se elevasse verticalmente.
Duas outras árvores semelhantes em majestade, porém um pouco menos grossas, achavam-se próximas e formavam, com a primeira, um quadro de uma grandiosidade sem igual." Álvaro Astolpho da Silveira. Narrativas e memórias. v. 1  p. 17-18. 1924.
 
 
C. Fr. von Martius (1794-1868)
Physiognomicae in Flora Brasiliensis. 1850.


domingo, 19 de outubro de 2014

Lendas e curiosidades: O Tucano e seu grande bico!


"Porque os índios chamam de ave do diabo o tucano, não pensem vocês que nele vamos encontrar uma segunda águia. O tucano é um devorador de frutas e ovos, mas não de carne. Recebeu o nome de ave do diabo apenas porque os índios pensam que ele, de fato, assim seja. Supõem que, com seu comprido bico, o tucano enfeitice as pessoas.
Mas na verdade nada existe de diabólico no aspecto do tucano. Rir será a primeira coisa que vocês farão quando o enxergarem, pois na cabeça que encima o seu corpo coberto de penas escuras, existe um bico comprido, do tamanho do próprio corpo. [...]. O bico do tucano pode ter quase vinte centímetros de comprimento e cinco de largura. Alguns têm o bico amarelo e vermelho, ao passo que outros têm-no amarelo e preto. Na realidade, todas as cores do arco-iris podem estar representadas no bico do tucano. Lembra ele o nariz do Pinóquio, que tivesse crescido muito além da conta. E para que esse bico? Ninguém até hoje descobriu.
Dizem os índios que o tucano é uma ave diabólica, levando no bico uma flecha mágica, a qual ele coloca no corpo das pessoas que os feiticeiros pretendem curar.
Mas os índios são fantasistas. O bico do tucano não é para enfeitiçar. Também não é usado para matar, pois é leve e esponjoso demais, mas para apanhar frutos. Os tucanos atiram o fruto no ar e apanham-no. Mas isto parecerá grande desperdício de energia, se feito apenas para aproveitar um bico tão grande, especialmente quando se sabe ser difícil voar com tal apêndice. [...].
O grito do tucano lembra o de um cachorrinho latindo, e esta é a razão pela qual os sul-americanos de língua espanhola também o chamam de "pajaro-perro", isto é, pássaro-cão. Outros chamam-no de "Dios te dé", o que significa "Deus te abençoe", porque o tucano, quando bebe, faz uma cruz com a cabeça, como faz o padre, com as mãos, quando dá a benção.
Todas essas lendas dizem respeito a uma ave que possui um bico comprido e colorido. Mas que sabemos, realmente a respeito do tucano? Esqueçamos todas as coisas que se dizem dele! Na verdade, ele é uma ave como outra qualquer. Come frutos, insetos e, quando pode, os ovos de outras aves. É animal diurno, que desperta com o sol e volta ao ninho à tardinha. [...]". Victor W von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. s.d. p. 87-90.
 
 
Tucanos. (Ramphastos toco)
 John Gould (1804-1881). A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.


sábado, 18 de outubro de 2014

Belém do Grão-Pará: A Biblioteca do Museu Paraense.


"[...]. O Museu Paraense deve ter sua biblioteca, e até uma muito boa sobre ciências naturais e etnologia, especialmente em relação a tudo que diz respeito à Amazônia. [...].
É preciso que haja todas as obras que constituem o cabedal do estado atual das ciências naturais relativas à Amazônia (tomada na noção da geografia física), pois é claro, que nenhum de nós poderia discutir com sucesso perante o científico qualquer problema da natureza indígena sem conhecer antes de tudo, bem aquilo que outros autores a respeito já disseram e deixaram arquivado na literatura dos diversos tempos e povos. É esta norma, que invariavelmente nos guia na formação da nossa Biblioteca". Dr. Emílio  A. Goeldi (1859-1917). Relatório apresentado pelo Diretor do Museu Paraense ao Sr. Dr. Lauro Sodré, Governador do Estado do Pará.  Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, Belém, t 1 e 2, 1896, 1898.
 
 
 
Prédio da Biblioteca do Museu Paraense até a década de 80.
Atual Biblioteca Clara Maria Galvão (Museu Goeldi), situada à Av. Magalhães Barata em Belém-Pará.
Ilustração em aquarela de Eron Teixeira (2014).


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Viajantes: A selva brasileira.


"Tais indicações pouco positivas não bastam para caracterizar a selva brasileira em suas regiões mais baixas e quentes, mas não é difícil torna-la mais característica por meio de outras qualidades negativas. Aí não existe o feto arborescente, com suas folhas finas, às margens dos rios, nem o palmito delgado, debaixo do teto protetor das árvores dicotiledôneas. Estas últimas não gostam da sombra escura da floresta, assim como os primeiros não se dão com o solo pantanoso e horizontal. Ao lado destas duas espécies, faltam ainda a embaúba (Cecrópia) e as taquaras (Bambusas), que são das regiões mais elevadas. Onde  estas vegetam em abundância, não se encontra a tonca ou a sapucaia, e uma vegetação muito diferente e mais amena oferece-se à admiração do viajante. De um lado, temos a natureza verdejante, frágil, graciosa e alegre, que atrai e encanta, de outro, a formação gigantesca, majestosa e serena, que nos enche de deslumbramento e contrição e que convida a meditações sérias, como se entrássemos numa catedral gótica de impressionantes proporções. Não há outro sentimento que se possa comparar ao que se apossou de mim, ao atravessar e contemplar a selva brasileira, senão o que me invadiu quando, extasiado, admirei as catedrais de Colônia, Magdemburgo, Notre Dame ou Westminster. Se era a obra do homem que aí me impressionava pela sua perfeição e inspiração, era aqui a natureza viva, que, em sua atividade incessante, produz as maiores maravilhas concebidas pela imaginação humana. [...]". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. s.d. p. 149.
 
 
Selva brasileira.
 Pintura de Manuel de Araújo Porto Alegre (1853).

 



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lendas e curiosidades: Pavão-do-mato, o pássaro de guarda-sol!


"A vida na selva, parece um eterno carnaval. Os animais vivem cobertos de peles e penas, que mais parecem fantasias de carnaval que vestimenta apropriada para floresta. Existem colibris de plumagem verde-bronzeada e cobertos de joias. As borboletas lembram confete a encher o espaço, ou gotas multicores, caídas da palheta de um pintor. Alguns insetos são enormes e tem chifres, como se fossem rinocerontes. Há moscas que imitam aranhas e mariposas que imitam colibris. E até a nossa velha amiga preguiça passeia lentamente em meio a esse carnaval, com o pelo coberto de algas verdes.
Na selva devemos acostumar-nos a coisas espantosas. Mas parece espantoso demais uma ave andar de chapéu-de-sol. Se tomássemos uma pequena gralha (o pavão-do-mato assemelha-se de longe a isso) e colocássemos em sua cabeça um chapeuzinho de sol franjado de preto, como antigamente usavam os nossos bisavós, talvez conseguíssemos imitar o aspecto de nosso pássaro. Agora vamos abrir o guarda-sol e prendê-lo bem firme na cabeça da ave, de modo que as franjas caiam sobre a sua cabeça e quase lhe cobrem os grandes olhos pretos e o bico pontudo. E depois coloquemos no peito da nossa gralha, um penduricalho pesado e feito de penas, como os babados postiços que as senhoras usavam há uns trinta anos, e que chegue até os pés. Teremos, afinal, o retrato do pavão-do-mato. Assim ataviado com seu guarda-sol de franjas pretas e o seu plumoso babado, o pavão -do-mato passeia o dia inteiro pela selva, à procura de pequeninos cocos. Detesta o calor. Prefere as partes mais frescas da mata onde os raios do sol equatorial são filtrados e abrandados pelo ar mais fresco da floresta.
De manhãzinha  voa na parte mais alta da floresta e depois à medida que o sol vai subindo, ele desce e, quando chega o meio-dia, já se encontra no "segundo andar" da floresta. Aí tira uma soneca, dormindo a sesta. [...].
É curioso, mas talvez não seja de se estranhar, que os índios também considerem ave mágica o pavão-da-mata. Os caçadores de cabeças chamavam-no de "ungumi", o que quer dizer "portador da flecha encantada". Não há quem ignore o que seja a flecha encantada. Em tempos idos os homens acreditavam que, quando doentes, eram encantados por uma pequena flecha, que  uma fada má colocava em seu corpo. Nisso ainda acreditam muitos índios da América do Sul, que, quando sentem alguma dor, supõem seja ela causada por uma flecha, lançada pelo feiticeiro e levada pelo pavão-do-mato. [...].
A verdade é que o pavão-do-mato não parece preocupar-se muito com essa história mágica. Sua vida consiste em cantar, comer e voar. Ei-lo que abre as asas, sacode o babado, levanta o chapéu-de-sol e voa alto na selva. [...]". Victor W. von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. s.d. p. 91-93.
 
 
 
Pavão-do-mato, Pavão-da-mata ou Anambé-preto (Cephalopterus ornatus)
Desenho de Antônio Martins. Brasil: 500 pássaros. 2000.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Belém do Grão-Pará: A Estrada de São José!


"[...]. As grandes praças, outrora verdadeiros lodaçais, tinham sido drenadas, capinadas e plantadas com fileiras de amendoeiras e casuarinas, transformando-se em belos ornamentos para a cidade, ao invés de constituírem um triste espetáculo para os olhos, como ocorria no passado. Minha avenida predileta, a Estrada das Mongubeiras, tinha sido reformada e ligada a várias outras magníficas avenidas orladas de árvores que em poucos anos tinham crescido o suficiente para proporcionarem uma agradável sombra; uma delas, denominada Estrada de São José, tinha sido toda plantada de coqueiros. Sessenta veículos para transporte coletivo, além de cabriolés (muitos deles fabricados no Pará) enchiam agora as ruas, contribuindo para aumentar a animação das bonitas praças, ruas e avenidas". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 296.
 

 
Praça São José, à entrada da Av. 16 de novembro (antiga Estrada de São José) em 1901.
O Município de Belém: relatório de 1906 apresentado ao Conselho Municipal de Belém pelo Intendente Antônio José de Lemos.





Praça São José, à entrada da Av. 16 de Novembro (antiga Estrada de São José) em 1906.
O Município de Belém: relatório de 1906 apresentado ao Conselho Municipal de Belém pelo Intendente Antônio José de Lemos.
 


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Viajantes: A beleza e a deliciosa fragrância das orquídeas!


"Antes do nascer do sol deixamos o nosso pouso incômodo. A estrada conduzia-nos, agora, ao longo de uma planície estreita e arenosa que se estendia entre o mar e as lagunas salgadas do litoral. Nenhum interesse possuiria a paisagem se não fosse o grande número de lindas aves ribeirinhas, como as garças e os grous, e a suculência das plantas que se revestiam de formas fantásticas. As poucas árvores atrofiadas que se viam, estavam cobertas de plantas parasitas, entre as quais se podiam admirar a beleza e deliciosa fragrância de algumas orquídeas. Depois de nascido o sol, o dia tornou-se intoleravelmente quente, e a areia branca, refletindo a luz e o calor, causou-nos intenso mal-estar. Charles Darwin (1809-1882). Viagem de um naturalista ao redor do mundo. 1948, p. 32.
 
 
 
Orquídea. Oncidium concolor.
Nativa do Brasil. Orchid Album. 1882.


domingo, 5 de outubro de 2014

Lendas e Curiosidades: A palmeira tucumã no fabulário amazônico.


"O tucumã (Astrocaryum tucuma Mart.), também espinhoso, entrave a qualquer marcha linheira na mata, de belo porte e frutos apreciáveis, concorre para aumentar o fabulário. É o caso que a filha da cobra grande tendo se casado com um moço bonito, isto no tempo em que a noite ainda estava adormecida no seio das águas, não queria, por hipótese nenhuma, se deitar de dia. Então o marido mandou buscar, com o pai da esposa, a noite desejada. Enviaram-na dentro do coquinho do Tucumã, com recomendação expressa de não o violarem. Durante a viagem os portadores ouviram dentro da encomenda um ruído estranho, que parecia de grilos, de sapinhos, de cigarras, de insetos. Alvoroçaram-se. E apesar das ordens terminantes de não abrirem a noz, durante a jornada, a curiosidade os empolgou e venceu. E assim que a partiram, a escuridão alagou o espaço. Haviam soltado a noite. Ora, o que a lenda não explica, é o ruído dentro do caroço ouvido pelos portadores e que não passa de uma larva surgida com o apodrecimento da amêndoa; larva gorda, branca, que as crianças comem assada, verdadeiro torresmo, enfiada em espetos". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1952, p. 96-97.
 
 
Tucuma. (Astrocaryum tucuma).
Alfred Russel Wallace.
Palm trees of the Amazon and their uses. 1853.
Biodiversity Heritage Library - BHL





 


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Viajantes: A vegetação aquática.


"Quando saímos da floresta, entramos na imensidão do lago. Mas temos de passar ainda sobre os tapetes das canaranas, ou seguir canais serpenteantes, antes de chegarmos às bacias onde navegaremos sem obstáculos.
Sentimos o alívio de quem se livrasse de um túmulo. Respiramos com delícia o ar puro da madrugada, ainda não permitindo devassar todo o magnífico cenário. Mas sob o equador, a transição das trevas para a luz e vice-versa, é tão rápida, que deixa pasmos as ádvenas de altas ou baixas latitudes. Está ainda escuro. Mas como se fora em um cenário de teatro, vai clareando com rapidez. Os objetos mais próximos, vão ficando nítidos, os mais distantes vão se destacando, delineando-se, os contornos tomando relevo, surgindo límpidas as cores. E quando damos fé, já é dia. O sol espia vermelho como uma boca de fornalha, permitindo-nos entretanto encara-lo, velado pela imperceptível umidade que satura a atmosfera.
A paisagem é grandiosa. Há imensas superfícies livres de vegetação, mas a maior parte do lago é tomada pelas canaranas, essa gramínea de longos e grossos rizomas, pelo manto verde-negro dos aguapés, de flores branco-azuladas, pelos grandes discos verde-bronze das folhas da vitória-régia de flores alvas, enfim, por toda essa vegetação aquática a que os índios denominaram de "periantã". Francisco de Barros Prado. Caçando e pescando por todo o Brasil. 4a. série: Norte, Nordeste, Marajó, Grandes Lagos, o Madeira, o Mamoré. 1948, p. 192-193.
 
 
 
Vegetação dos lagos.
Curtis's Botanical Magazine, vol. 73, Jan. 1847.


sábado, 27 de setembro de 2014

Viajantes: A vegetação que cobre os troncos!


"[...]. Há ainda outra vegetação que cobre os troncos com suas folhas densas e flores amarelas, brancas ou de um vermelho resplandecente, que tanto embelezam as velhas árvores. Esta vegetação é constituída por espécies das famílias das Aráceas, Bromeliáceas e Orquidáceas. O próprio chão é coberto de espessa camada de ervas e de uma enorme variedade de pequenas plantas, que mergulham suas raízes no humo fértil da mata, formado de tantos restos de plantas em decomposição. O encanto dessa selva imersa em eterna quietude é ainda aumentado pelo vivo brilho das Heliconias purpúreas e douradas, que gostam de reunir-se junto das águas cristalinas brotadas na escuridão da mata". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 60.
 
 
 
Orquídeas e epífitas brasileiras.
Marianne North (1830-1890).
www.kew.org.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Viajantes: Paxiúba, uma das palmeiras mais bonitas da Amazônia!


"Depois do almoço, mostrei desejo de conhecer melhor o riacho, e em vista disso um velho muito cortês e animado, que supus ser um dos vizinhos, ofereceu-se para me servir de guia. Embarcamos numa pequena montaria e percorremos um trecho de uns cinco ou seis quilômetros do riacho, para cima e para baixo. Embora a essa altura eu já estivesse acostumado com a exuberância da vegetação, não pude deixar de ficar maravilhado ao observar aquela região. O riacho tinha cerca de 100 metros de largura, com alguns trechos mais estreitos. Ambas as margens estavam ocultas por trás de altos paredões de verdura, que mostravam aqui e ali uma brecha por onde se podia entrever, sob os arcos formados pelas copas das árvores, as choupanas cobertas de palha dos moradores da região. Dos galhos das altas árvores, que se curvavam por sobre o riacho e às vezes chegavam  até o meio dele, pendiam guirlandas e festões; uma imensa variedade de trepadeiras orlava a beira da água, algumas delas, especialmente Bignonia, exibindo grandes flores vivamente coloridas. A arte não teria conseguido reunir formas vegetais tão belas e tão harmoniosas como a Natureza havia feito ali.
Como sempre, as palmeiras formavam o grupo mais numeroso de árvores mais baixas, embora algumas delas projetassem suas esguias hastes a uma altura de vinte metros ou mais, acenando com o seu penacho de folhas lá no alto do céu. Uma das espécies mais bonitas era a paxiúba (Iriartea exorhiza), que é mais abundante ali do que em qualquer outro lugar. Não se trata de uma das espécies mais altas, pois o seu crescimento máximo não alcança, talvez, mais do que uns doze ou treze metros; as folhas não são tão flexíveis quanto nas outras espécies, nem os folíolos são mais largos, e por causa disso ela não tem a plumosa aparência que algumas palmeiras têm; ainda assim possui um encanto todo especial. Meu guia encostou a canoa na margem, num determinado lugar, para me mostrar as raízes da paxiúba. Essas raízes crescem acima do solo, irradiando-se do tronco alguns metros acima da superfície, dando a impressão de que a árvore se apoia em estacas; nas árvores mais velhas, um homem pode ficar de pé no meio das raízes, com o tronco da árvore começando acima da sua cabeça. Uma das peculiaridades dessa palmeira é que as suas raízes, que se assemelham a varas, são crivadas de grossos espinhos, ao passo que o tronco da árvore é inteiramente liso. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 83-84. 
 
 
 Paxiúbas
A. D. d´Orbigny (1802-1857).
 Voyage dans l´Amérique Méridionale. 1847.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Viajantes: A floresta tropical e suas flores.


"Agora, uma palavra sobre as flores. Pudesse um naturalista reproduzir numa pujante descrição toda a alegria das flores, borboletas e aves que tivesse encontrado na bacia amazônica durante um ano de excursões, e sem dúvida iria produzir um trabalho extremamente fascinante. Por outro lado, iria iludir seus leitores, levando-os a crer que mesmo a décima parte dessas belezas pudesse ser contemplada de um só golpe de vista, ou que fosse em visões sucessivas, no espaço de tempo de um dia. Depende muito de se estar num determinado local no exato momento em que ao menos parte delas estivesse prestes a atingir seu máximo estágio de perfeição e que elas aí ocorressem em profusão. Ademais, o efeito nem sempre é o mesmo, uma vez que depende do gosto pessoal do observador. Para o naturalista, o mero fato de se tratar de algo novo e estranho por si só o reveste de uma beleza particular independente de considerações estéticas. No meu caso pessoal, confesso que, embora seja um admirador apaixonado da beleza das formas e cores, e que sinta uma atração quase sensual com relação aos aromas requintados, minhas lembranças mais deleitosas são as dos cenários mais caracterizados pela novidade.
Mas nada dissemos ainda sobre as flores. Sirva de consolo informar que, no caso das árvores amazônicas, as flores costumam chamar tão pouco a atenção, seja por seu tamanho diminuto, seja por sua coloração verde imitando a das folhas, que ninguém, senão um botânico, iria deter-se para contempla-las. Há, sem dúvida, muitas honrosas exceções, mas só alguns anos depois de ter deixado o Pará e transposto o divisor setentrional da bacia amazônica foi que constatei aquilo que já imaginava: que as flores mais deslumbrantes deveriam desabrochar nas árvores mais altas da floresta".
Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 62.
 
 
 

Flores silvestres do Brasil
Pintura de Marinne North (1830-1890).
www.kew.org.