sábado, 21 de abril de 2018

As folhas numerosas da vitória-régia


"[...]. Os periantãs de canarana, soltos das margens como navios verdoengos das iaras, sobem e descem no vai-e-vem manso das marés. São esmeraldinos tufos flutuantes de gramínea ondulada pelos ventos. Aí pousam as aves aquáticas, pensativas umas, vigilantes outras, mas todas atentas para dentro dessas ilhas suspensas na flor da corrente, a ver se descobrem, no intrincado labirinto das raízes, os peixinhos, os insetos, as células que se escondem sob os talos de capim.
Às vezes, para amortecer a vaga, o tapuio mete a canoa em que marisca nesses tapetes errantes e vai, ao sabor do monção, filosoficamente, perscrutando os sítios daquela derrota imprevista para ele. Nalgumas lagoas mais quietas, paradas e negras, fora da ação das quadraturas e das sizígias, repontam, no esmalte verde dos charões vegetais debruados de tinta ferrugenta, as folhas numerosas da vitória-régia. Marchetam a superfície. De clorofila carregada, quase glauca, com pedúnculos exteriores e floridos, que se erguem do fundo palustre acima das bordas, essa ninféia do tamanho de pratos e do tamanho de tachos é ainda, tutelarmente, o agasalho dos ofídios, dos quelônios, dos poraquês, dos hidrossáurios, que debaixo dela se abrigam". Raimundo Morais (1872-1941). Na Planície amazônica. 6. ed. 1960. p. 21-22.


Beija-flor. em vitória-régia.
Victoria amazonica. Gould, J. A monograph of the Trochilidae, or family of humming birds. v. 5, t. 358, 1861.  www.plantillustrations.org

domingo, 8 de abril de 2018

Tanguru-pará


"[...]. Não víamos, atravessando o espaço, a águia altiva ou qualquer outra ave de rapina; não ouvíamos da mata sair o rugido de um tigre ou o grito de um selvagem; na atmosfera azul, pares de garças alvas, com os pés pendidos para baixo, voavam de uma ilha para outra, e as gaivotas, redemoinhando, com os gritos tão conhecidos dos marítimos, pescavam na cerúlea extensão do rio; das abertas clareiras da mata se erguia o coro alegre de uns passarinhos negros de bico escarlate, a que chamam Bicos-de-brasa, aqui conhecidos com o nome de Tanguru-parás, volteando ao redor de alguma lagoinha, que as chuvas da véspera ali tinham deixado". Ignacio Baptista de Moura (1857-1929). De Belém a S. João do Araguaia: Vale do rio Tocantins. 1989. p. 172.



Tanguru-Pará à direita.
Álbum de Aves Amazônicas. -  1900-1906.
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O sabiá!


"O sol da tarde derramava maravilhosas luzes e espessas sombras sobre a água e a floresta. Os cimos das árvores abrasavam-se no arrebol do poente; brilhavam os japus com mais fulgor nas suas habitações aéreas, e por toda a parte trauteava o sabiá a melodia de seu saudoso canto. O sabiá! Este é para o Brasil o pássaro cantor da elegia, do amor e da saudade, ele e as palmeiras são o símbolo da Terra de Santa Cruz, da qual diz o poeta inspirado:

Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá!

O sabiá é uma espécie de melro, que faz ouvir por toda parte melodioso canto; fala ao ouvido e ao coração, conforme o humor deste, quando a melodia penetra no primeiro. [...].
Não tardam, porém, a misturarem-se outras vozes da floresta aos jambos flauteados do pequeno cantor. Muitos anus ou crotófagos saltitavam, gritando de um lado para outro; pica-paus praticavam seus últimos bate-bates nos troncos; as araras atrasadas gritavam aos pares no ar; o macuco, um cripturus,  fez ouvir seu assobio estridente. E, quanto mais escuro ficava, parecia que toda a  floresta queria ficar acordada durante as próximas horas". Robert Avé-Lallemant. In: CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do Folclore brasileiro. 8. ed. , 2002.  v. 1, p. 132-133.


Sabiá em pé de jabuticaba.
 Descourtilz, J. T. Oiseaux brillans du Brésil, 1834.
www.biodiversitylibrary.org







terça-feira, 27 de março de 2018

A elegante e graciosa palmeira açaí


"Do seio da lagoa, onde escondem e afundam as suas raízes, emergem grupos de grandes árvores; ou então, são troncos mortos e enegrecidos que se erguem no meio das águas com suas formas bizarras e fantásticas. Por vezes, dos altos ramos descem até o solo essas singulares raízes aéreas tão comuns nas florestas daqui, e a árvore parece estar apoiada em muletas. Aqui e ali, beirando as margens, a nossa vista penetra nos recessos da mata e fixa-se na estranha roupagem das lianas, das trepadeiras, dos cipós parasitas que se enlaçam aos tronos ou se balançam entre dois galhos vizinhos como cordas flutuantes. Na maioria dos casos, a margem da lagoa é um talude em declive suave, coberto de vegetação tão fofa e tão vivaz que até parece que a terra recebeu, graças ao seu longo batismo de seis meses, um segundo nascimento e retornou à vida por uma nova criação. De distância em distância, uma palmeira ergue a sua cabeça por sobre o topo uniforme da floresta, especialmente a elegante e graciosa Açaí cuja coroa de folhas, recortadas como penas, vibra ao mais leve sopro da aragem, no alto da estipe lisa e ereta".  Luís Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil - 1865-1866. 1938. p. 330.


Açaí (Euterpe oleracea).
C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum. 1823-1850.
www.biodiversitylibrary.org

terça-feira, 20 de março de 2018

O crepúsculo na mata


"O tempo estava agora firme e seco, e as águas do rio baixaram rapidamente - quinze centímetros em vinte e quatro horas. Nesse lugar isolado e remoto assisti pela primeira vez - e talvez única - à atoarda feita pelos animais ao crepúsculo, que Humboldt descreveu ter testemunhado perto das nascentes do Orinoco mas que não é comum nas margens de rios mais caudalosos. A zoeira começou ao cair de uma tarde de calor sufocante, depois que o sol se escondeu por trás das árvores e o céu se apresentava de um azul intenso e profundo. Dois bandos de macacos - uivadores, um perto de nosso barco e o outro a cerca de uma braça de distância, fizeram ecoar pela mata seus apavorantes gritos. Dezenas de papagaios de mistura com araraúnas, das quais eu tentava conseguir alguns espécimes, começaram a passar em ondas no alto do céu, seus diferentes tipos de gritos e pios compondo uma tremenda dissonância. Juntando-se a essa algaravia, vibrava no ar o canto de estranhas cigarras, algumas de grande tamanho, as quais, empoleiradas no alto das árvores ao redor da nossa pequena enseada, faziam soar suas notas agudas e estridulantes. Seu canto começava com as habituais notas ásperas e rascantes características da sua espécie, as quais se iam tornando gradativamente mais agudas até terminarem num som contínuo e alto semelhante ao apito de uma locomotiva. Uma meia-dúzia dessas extraordinárias cantoras da selva representavam uma ponderável contribuição para a sinfonia noturna. Eu já tinha visto essa espécie de cigarra no Pará, mas lá era mais rara. [...]. A zoeira feita pela bicharada durou pouco, o céu logo perdeu o seu tom de azul profundo e a noite desceu. Começou então o coaxar dos sapos, os quais, acompanhados pelo canto melancólico de um bacurau, continuaram com a sua melopéia pela noite a dentro".  Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 185.


Ararauna.
 Edward Lear (1812-1888). Illustrations of the Family of the Psittacidae or parrots. 1832.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Uma viagem agradável


"[...]. Foi muito lindo entrar do estreito canal para o majestoso Tocantins, largo e cheio de ilhas. As ilhas apresentavam, igualmente todos os estágios possíveis de formação, desde a aluvião baixa que emergiu recentemente da água com arbustos esparsos e aninga (Montrichardia) até as ilhas de mato repletas de monumentais arvoredos antigos, que representam um estímulo tão representativo também para o baixo Amazonas. A viagem realmente voltou a ficar muito agradável, e novamente me tomou aquele sentimento bastante familiar de que jamais havia visto algo mais lindo. Até mais ou menos acima de Cametá, predomina a floresta de palmeiras Mauritia (isto é, uma floresta mista na qual a Mauritia sobressai grandemente e é a planta característica mais perceptível); no entanto, ela não é mais baixa, mas se eleva a uma altura majestosa, trançada por trepadeiras e cercada de um largo cordão de Montrichardia. De singular beleza era um igarapé um pouco abaixo de Cametá, no qual entramos sob uma bela iluminação noturna e permanecemos por cerca de uma hora". Emília Snethlage (1868-1929). In: SANJAD, N. et. al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heirich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v.8, n. 1, p. 199, jan.- abr., 2013.



Aninga. Montrichardia linifera
Peyritsch, J. J. ; Schott, H. W. Aroideae Maximilianae.   p. 30, t. 21, 1879.
Desenho de W. Liepoldt.
 www.plantillustrations.org.

terça-feira, 6 de março de 2018

O exótico Pavãozinho-do-Pará


"[...]. Após cinco horas, chegamos aos arredores do arquipélago das Anavilhanas, um labirinto de ilhas florestais abrigando árvores e plantas magníficas. Filodendros maciços coroavam as árvores mais antigas, com suas raízes formando cortinas; arabesques de bromélias pendiam dos galhos contrastando com o céu emoldurado pela folhagem escarlate da Phyllocactus.
Quando chegamos ao nosso destino, já havia escurecido completamente. Como  estávamos exaustas, nos afundamos pesadamente em nossas redes. Ao raiar do dia, com uma ligeira névoa flutuando sobre o rio e mascarando as florestas das Anavilhanas, apressamo-nos para sair e iniciar a exploração da região. O jardim era um pomar de palmeiras açaí e buriti, além de árvores de caju e cupuaçu. Um igarapé limitava a terra na parte superior do rio; nas margens, sustentadas pelas raízes da sapopema, espalhava-se uma árvore altiva. De seus galhos mais remotos e altos pendiam colonias de ninhos de japus. Talvez o pássaro mais bonito de todos seja o exótico pavãozinho-do-Pará, que pesca no rio ao amanhecer e ao anoitecer, e cujo charme somente se equipara ao do beija-flor,  que é um visitante regular das flores nativas. [...]". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. 2010. p. 138.


Pavãozinho-do-Pará.
Dante Martins Teixeira  e Nelson Papavero. As aves do Pará segundo as Memórias de Dom Lourenço Álvares Roxo de Potf‬lis (1753). 2017.
 Ilustração dos meninos índios.