segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Guará com sua rica plumagem flamejante


"Nas praias mais desertas, quando uma camada de lama substitui a areia ou se cobre de vegetação característica dos terrenos banhados pelas grandes marés salgadas, fervilham os caranguejos, os siris, saratus, os maraquanis, guarás, os sararás.
Dá-se então a cena interessante de afluência de várias aves, apenas se retira a maré. Entre elas distingue-se francamente o guará. Sua rica plumagem flamejante faz dele um magnífico ornato dessas praias. Quando novo é ele negro, mas correm os anos e o carvão se faz brasa viva. Quando a aurora rubra sucede às trevas da noite, recorda a transição das cores do guará.
É de particular amigo dos maraquanis; não faz, portanto, concorrência ao homem que não é apreciador desses modestos habitantes das praias, se bem que o não despreze.
Não são deselegantes as linhas do guará. Lembra a garça esbelta. Contudo, o que nele é mais atraente, sem dúvida, é o vivo colorido da indumentária natural. Afirmam-nos que o guará é perfeitamente domesticável, mas que, longe de suas praias povoadas de maraquanis, desbota-se o encarnado da plumagem e fica ele cor-de-rosa. Efeito de nostalgia? [...]". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico: à margem da visita pastoral. 1976. p. 191.


Ninhal de guarás.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de aves amazônicas de Emílio A. Goeldi, 1900-1906.

sábado, 12 de agosto de 2017

Agradável impressão do Araguaia




"[...]. Não posso esquecer-me da agradável impressão que me deixou esta primeira noite do Araguaia. O céu tinha estado nublado até essas horas; de quando em quando, o vento mugia nas praias e as nuvens largavam gotas raras, mas grossas, de uma chuva gelada; na hora, porém, em que eu me deitava, as nuvens rarefizeram-se e foram pouco a pouco se dissipando, até que o céu se tornou límpido e puro como um espelho infinito de safiras; então, no oriente, que se avistava muito ao longe, porque naquelas planícies não há morros, nem outeiros, nem serras, a lua desenhou-se calma e revestida desse encanto melancólico que tem sempre esse astro da noite em nossas solidões, despertando no coração vagas saudades e incertas esperanças de um futuro ideal, que nunca realizaremos na terra, e que é, talvez, uma aspiração de nossa alma para a imortalidade.
Fora-me impossível descrever o que então senti à vista daquelas paisagens tão grandes, contempladas de uma das mais belas praias do rio, ao clarão dessa noite, nas horas silenciosas e quietas que estávamos: era uma espécie de êxtase o estado de minha alma, e eu, contemplo todas essas grandezas, entre a penumbra do sono e da vigília, enxergava não só o que estava presente, como ainda tudo o que eu tinha sentido nesse dia, completamente cheio de impressões profundas e inteiramente novas para mim". José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). Viagem ao Araguaia. 7. ed. 1975. p. 106.


C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum - 1823-1850)






segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As graciosas plantas à margem da lagoa


"Entre as graciosas plantas da margem da lagoa merece também atenção especial a Mari-Mari, qualidade de Cássia, cujas belas e longas vagens são apreciadas pelos índios como um grande petisco.
Nas calmas enseadas, enfim, sobrenadam, grandes como outras tantas barquinhas e da forma de bandejas, as folhas da soberba Victoria regia, a rainha sem rival de toda a flora aquática. Petulantes golfinhos brincam em cardumes no meio do lago. [...].
Lá onde não chegam as inundações periódicas, na chamada terra firme, a vegetação já assume caráter diferente. O castanheiro (Bertholletia excelsa), nosso augusto conhecido das margens do Tocantins, aparece aqui outra vez em grandes bosques, ornado dos seus grandes e pesados cocos.
Aqui também é que se encontra a verdadeira riqueza de madeiras de construção, cuja enumeração encheria um volume. [...]". Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas e Purus. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 305, 1929.



Cassia occidentalis.
M. E. Descourtilz. Flore médicale des Antilles, v. 2, t. 135, 1822.
 Desenho de J. T. Descourtilz.
www.plantillustrations.org

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Encantadores passeios pela floresta


"Um dos grandes prazeres da estadia em Tefé, é que temos ao nosso inteiro alcance encantadores passeios. A minha maior diversão e passear de manhã muito cedo, pela floresta que domina o povoado. É alguma coisa de admirável contemplar, dessa elevação, o sol nascer por cima das pequeninas casas que estão a nossos pés, o lago pitorescamente recortado de pequenos canais que se prolongam ao longe, e, nos últimos planos, o fundo das grandes florestas da margem oposta. Do nosso posto de observação sai um estreito caminho que se estende por entre as moitas e conduz a uma magnífica mata, espessa e sombria. Aí pode a gente vagar ao léu do seu capricho, porque há como que um dédalo de pequenas trilhas abertas pelos índios através das árvores. E como não se deixar tentar pelo sombrio frescor, pelo cheiro dos musgos e das filicíneas, pelo perfume das flores? A mata é cheia de vida e de ruídos; o zumbido dos insetos, os sons estrídulos dos gafanhotos, o grito dos papagaios, as vozes inquietas dos macacos, tudo isso faz a floresta falar. [...]. Um dos caminhos mais bonitos, que se me tornou familiar em meus passeios quotidianos, vai ter, do outro lado de um igarapé, a uma casa ou antes a um telheiro coberto de folhas de palmeiras, situado em plena floresta e onde se prepara a mandioca". Luís Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -  1865-1866. 2000. p. 221-222.


Floresta.
C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum 1823-1850

sábado, 29 de julho de 2017

Uma maravilhosa bromélia


"Procuramos em vão pelo rio Cauhy. Encontramos a estreita foz do rio Nhamundá cercada por um atraente igarapé, uma complexa quantidade de ilhas com árvores atrofiadas obscurecidas pela quantidade de epífitas em seus galhos. A cor dominante era o vermelho, bromélias com folhas escarlates e inflorescências (Achmea huebneri) cresciam junto às concentrações verde-escuras de orquídeas (Schomburgkia) e antúrios com grandes folhas. A paisagem da floresta tornou-se escura gradativamente, com muitas palmeiras Jauari e árvores com troncos enfileirados como colunas góticas; sobre o rio espalhava-se Macrolobium com suas folhas semelhantes às da samambaia. Continuamos navegando pelo rio até ancorarmos próximo ao tronco de uma árvore caída na qual cresciam orquídeas, incluindo uma Catasetum - a primeira que vi na região. Colhi uma maravilhosa bromélia com uma coroa de plumas corais que encontrei em uma palmeira (Achmea huebneri). O ponto alto, no entanto, foi quando uma outra bromélia, a Aechmea polyantha, apareceu em uma grande árvore. Fiquei tão entusiasmada que desenhei até acabar a luz". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2010. p.132.


Achmea huebneri.
Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma floresta de Cecrópias


"Vimos assim, logo nos primeiros dias de viagem no Rio Amazonas, as sumaumeiras saindo da água nas margens inundadas, rodeadas de numerosas mungubas (Bombax munguba), rivais dos citados eriodendros e, em muitos respeitos, semelhantes a eles. Vimos flocos encarnados e brancos da lã de ambas as árvores voando em grande quantidade por cima do rio
Muito menores do que aquelas grandes rivais, providas de muito menos e escassos galhos, ostentando nas extremidades folhas de longos pecíolos e profundamente recortadas, medram em quantidades ainda maiores do que as bombáceas as cecrópias, por toda parte, na orla da floresta. Já falei muitas vezes dessas árvores singulares, cujo tronco oco, em cada cicatriz de folha forma uma parede divisória, servindo de morada às formigas e sobretudo à preguiça. Invadem às vezes toda a floresta, prados inteiros e toda a ilha. Parecem mesmo ter certa propriedade de formar praias. Uma cecrópia será sempre a última árvore a manter-se num terreno pantanoso e a primeira a criar raízes num terreno recém-inundado e transformá-lo, pela proliferação em solo firme. Uma ilha de cecrópias assim, uma floresta de cecrópias como essas, tem o aspecto tão bonito e tão em ordem quanto qualquer plantação e diferencia-se muito da floresta bravia". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. p. 66.


Embaúba. Cecropia peltata.
 M. E. Descourtilz. Flore medicale des Antilhes, v. 2, t. 75, 1822.
Desenho de J. T. Descourtilz.

sábado, 8 de julho de 2017

Os macaquinhos de cheiro


"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiam reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro [...]. Por vários instantes, ficamos nos olhando imoveis, cheios de interesse um pelo ouro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e agora por todo lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. [...]". Emília Snethlage ( 1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.



Macaquinhos na floresta.
Art-Tropical.
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