quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma floresta de Cecrópias


"Vimos assim, logo nos primeiros dias de viagem no Rio Amazonas, as sumaumeiras saindo da água nas margens inundadas, rodeadas de numerosas mungubas (Bombax munguba), rivais dos citados eriodendros e, em muitos respeitos, semelhantes a eles. Vimos flocos encarnados e brancos da lã de ambas as árvores voando em grande quantidade por cima do rio
Muito menores do que aquelas grandes rivais, providas de muito menos e escassos galhos, ostentando nas extremidades folhas de longos pecíolos e profundamente recortadas, medram em quantidades ainda maiores do que as bombáceas as cecrópias, por toda parte, na orla da floresta. Já falei muitas vezes dessas árvores singulares, cujo tronco oco, em cada cicatriz de folha forma uma parede divisória, servindo de morada às formigas e sobretudo à preguiça. Invadem às vezes toda a floresta, prados inteiros e toda a ilha. Parecem mesmo ter certa propriedade de formar praias. Uma cecrópia será sempre a última árvore a manter-se num terreno pantanoso e a primeira a criar raízes num terreno recém-inundado e transformá-lo, pela proliferação em solo firme. Uma ilha de cecrópias assim, uma floresta de cecrópias como essas, tem o aspecto tão bonito e tão em ordem quanto qualquer plantação e diferencia-se muito da floresta bravia". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961. p. 66.


Embaúba. Cecropia peltata.
 M. E. Descourtilz. Flore medicale des Antilhes, v. 2, t. 75, 1822.
Desenho de J. T. Descourtilz.

sábado, 8 de julho de 2017

Os macaquinhos de cheiro


"[...]. Poucos dias atrás, ouvi um ruído estranho e um estrondo na mata, que a princípio não conseguia explicar. Por um momento, pensei que uma gigantesca árvore tinha caído no meio da mata, tamanho foi o estalo da galharia; notei, então, que o barulho mudava de lugar e achei que era o estouro de um bando de animais de grande porte, quem sabe até porcos selvagens correndo pelo mato. Por fim, quando o barulho que vinha em minha direção estava bem perto, ouvi também o chilro agudo e estridente com o qual todos os nossos macaquinhos se distinguem, porém sem conseguir nada além de alguma sombra por entre os galhos, de vez em quando. Então, de repente, surgiu numa copa de palmeira mais baixa, bem perto de mim, uma cabecinha: duas orelhinhas pontudas e cara rosada com focinho preto permitiam reconhecer, na mesma hora, o meu predileto do jardim zoológico, o macaco-de-cheiro [...]. Por vários instantes, ficamos nos olhando imoveis, cheios de interesse um pelo ouro; então, a pequena sentinela (claramente o chefe do bando) demonstrou preocupação; emitindo um som curto, quebrado, recuou; em seguida, ouvi o barulho de galhos quebrando de novo e agora por todo lugar, o grito de alerta, enxergando em seguida os bichinhos esguios praticamente voando de copa em copa em enormes ajuntamentos. Por muito tempo, foi possível saber para onde iam pelo barulho que faziam. [...]". Emília Snethlage ( 1868-1929). In: SANJAD, Nelson et al. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 202-203, jan.-abr. 2013.



Macaquinhos na floresta.
Art-Tropical.
 www.pinterest.com

domingo, 2 de julho de 2017

Uma encantadora paisagem



"O rio desdobrou hoje aos nossos olhos perspectivas encantadoras. Bastante mais espaçoso, dado que em certo ponto teria mesmo quatrocentos metros de largura, o seu leito apresentava-se constantemente garrido de pequenas e atraentes ilhotas, com prainhas muito limpas, pedras bem polidas e uma viçosa vegetação sombreira. Nelas predominavam os araparis, alguns em flor, bosquetes de mongubeiras e uma ou outra soca de palmeiras jauaris. As suas franjas de praia, caprichosamente recortadas, são quase sempre de areia avermelhada, formando brilhante contraste com os verdes do arvoredo. A mais, neste trecho do rio, amiudavam-se as peúvas, debruçadas das ribanceiras e como que a se mirarem no espelho das águas, que lhes reproduzia a imagem em grandes manchas de ametista líquida". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1930. p. 127-128.


Paisagem amazônica.
 Arte de Edivaldo Barbosa de Souza

domingo, 25 de junho de 2017

Viagens pelos rios de água preta


"Se viajarmos pelos rios, principalmente os rios de água preta, escassos de sedimento, ao contrário dos outros, os de aluvião, não teremos grande contato com a avifauna amazonense. Essas correntes fluviais são tão pobres de caça e de pesca que se lhes deu o nome de rios famintos e neles, mormente se atingirmos os seus altos, acima das cachoeiras, não será difícil passar fome. Conhecemo-los bem, pois foi por um eles, o Erepecuru, e depois o Parú, de oeste, que subimos até chegar aos contrafortes de Tumucumaque, já nos limites da Guiana Holandesa. Aí, uma ou outra ave que se visse, durante todo um longo dia de viagem, era sempre um acidente digno de nota. Isolados maguaris que , com voo pesado, à aproximação da canoa, abandonavam um pouso para procurar outro, em sítio mais distante, mas sempre à mesma margem. Arirambas maiores ou menores que riçavam o espelho das águas e surgiam com um peixinho no bico. Biguatingas de pescoço esguio colubreante mergulhando aqui para aparecer muitos metros além. Um casal de araras vermelhas cortando o azul do céu ou um caracará de asas ao pairo, pronto a despejar-se sobre qualquer presa. Em bandos, só as gaivotas, sempre a gritar, revoluteando sobre as praias, onde os seus ovos incubavam ao sol; ou, então, alguns patos asa-branca, nadando gostosamente nos espraiados de água remansosa. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 2003. p. 86-87.




Biguá e Biguatinga.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986. 


terça-feira, 6 de junho de 2017

Enormes tufos de bromélias


"[...]. Espécies dos gêneros Cocos, Melastoma, Bignonia, Rhexia, Mimosa, Inga, Bombax, Ilex, Laurus, Myrthus, Eugenia, Jacaranda, Jatropha, Vismia, Lecythis, Ficus e milhares de árvores outras, a maior parte ainda desconhecidas, compõem o maciço da floresta. O solo está juncado de flores, e fica-se embaraçado para saber, de qual elas provêm. Alguns galhos gigantescos, cobertos de flores, de longe parecem brancos, amarelo vivo, vermelho escarlate, róseos, violetas, azul celeste, etc.; nos lugares pantanosos, erguem-se em grupos unidos sobre longos pecíolos, grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que têm às vezes de 8 a 10 pés de altura, acompanhadas de flores de forma extravagante, e cor vermelha carregada, ou de fogo. No ponto de divisão dos galhos das árvores maiores, crescem enormes bromélias, de flores em espiga ou em panícula, escarlates ou de outras cores igualmente belas; descem grandes feixes de raízes, à semelhança de cordas que descem até o solo e constituem novos obstáculos para o viajante. Esses tufos de bromélias cobrem as árvores até que, depois de muitos anos de existência, morram e, desarraigados pelo vento, caiam em terra com grande fragor. Milhares de plantas trepadeiras de todos os tamanhos, desde as mais delicadas até as que têm a grossura de uma coxa , muitas de lenho rijo (Bauhinias, Banisteria, Paullinia e outras) entrelaçam-se em volta dos troncos e dos galhos, elevam-se até o cimo das árvores, onde dão flores e frutos fora do alcance da vista humana. Alguns desses vegetais têm forma tão singular, como por exemplo certas espécies de Bauhinia, que não podem ser observadas sem surpresa. Não raro o tronco em volta do qual elas se enrroscaram morre e vai-se consumindo; vêem-se então cipós colossais que sobem com as espirais livres, e compreende-se facilmente a causa do fenômeno. Seria bem difícil representar o aspecto dessas florestas, pois a arte ficará sempre aquém do que pretende exprimir". Maximilan, Príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil. 2. ed. 1958. p. 350-351.



Bromélia. Aechmea fulgens.
D´Orbigny, C. V. D. Dictionnaire universel d´histoire naturelle. v. 3, 1841-1849.
www.plantilustration.org.

sábado, 20 de maio de 2017

Pavãozinho do Pará


"[...]. Mas tornemos ao pavãozinho-do-Pará, para surpreende-lo agora no seu habitat natural, preferentemente sempre solitário, à beira de furos e igarapés sombrios, mas gostando também de apanhar o seu bocado de sol, como depõe o americano Rusby, na seguinte passagem:
"Achei muitas das aves desta região tão interessantes como as plantas. Uma das mais encantadoras era a chamada ave-sol (Eurypyga helias). Só pude vê-la uma vez, embora me dissessem que elas não eram raras. Tive uma excelente oportunidade para observar por algum tempo esta que se me deparou, aproximadamente do tamanho de um frango, com formas mais esguias e penas brilhantemente coloridas. Vive na mata fechada, mas procura as clareiras ensoalhadas, para realizar as suas danças acrobáticas. A que eu vi, estava numa aberta bem iluminada, com uns dez a doze pés de diâmetro, situada no meio do caminho. Corria rapidamente, fazendo círculos da direita para esquerda, com a asa direita bem levantada, evidentemente para que tivesse maior estabilidade, não só para rodar com mais rapidez e segurança, como também a fim de inverter o movimento. Então saltou no centro do terreno e aí se pôs aos pulinhos, para cima e para baixo, ora sobre os dois pés ora apenas sobre um. Levantava a cabeça tão alto  quanto possível, para, de repente, curvando o dorso, abaixá-la até o chão. Além desses movimentos regulares, entregava-se à mais extravagante série de saltos e cabriolas que imaginar se possa. Era claro que não havia a menor relação entre aqueles saracoteios e qualquer objetivo prático, como a procura de alimentos. Tratava-se, sem dúvida, de um simples folguedo em instante de alegria. Visivelmente, a ave sentia-se muito feliz e isto deu-me também vontade de participar do seu brinquedo". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955. p. 114-115.



Pavãozinho-do-Pará à esquerda.
Desenho de Ernst Lohse. Álbum de Aves Amazônicas 1900-1906.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Segredos e mistérios do Tajá


"Não é apenas pelo seu feitio decorativo que o tajá (Caladium bicolor) é festejado na Amazônia como planta de estimação. Mais do que pela esbelteza das folhas, pela graça e elegância do corte, pela simplicidade geométrica das linhas, ele possui segredos e mistérios que só a alma cabocla entende e aprecia. Enorme é a variedade dessas plantas que formam as vistosas e esmeradas toiças da planície: tajapeba, com a sua raiz chata; o tajá-piranga, de uma coloração vermelha, belo aspecto, perigoso pelo veneno, e cujas raízes eram utilizadas pelos indígenas do Uaupés como o castigo para as mulheres curiosas que se atreviam a espiar as cerimônias maçônicas do Jurupari; o tajá-pinima, o tajá tatuado, cheio de manchas; o tajá grande, o tajá-preto, o tajá-de-sol, o tajá-membeca, o tajá-purú, este a espécie mais sugestiva e preferida pelas virtudes que são atribuídas às raízes de fazer-nos felizes nos amores e afortunados e bem sucedidos na caça e na pesca. [...]". Gastão de Bettencourt. A Amazônia no fabulário e na arte. 1946. p. 149-150.



Caladium bicolor.
Curtis´s Botanical Magazine, 1861.