quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma paisagem deslumbrante


"A janela aberta do salão formava uma moldura para um quadro da cena lá de fora. Lá, no espelho do rio, flutuava a vasta extensão de folhas verde-claras e as delicadas flores cor-de-malva das massas de nenúfares, aqui e ali pontilhadas com as jaçanãs vermelho-castanho, que gritavam como gatinhos e cujos corpos leves e patas largas lhes permitiam correr com facilidade sobre a superfície da vegetação flutuante em busca do alimento. Cortando o centro das massas revolventes de plantas, a forte correnteza tinha formado um canal de água aberta, que brilha à luz do sol como um fio de ouro brunido. Longas linhas de mato espesso indicavam as margens do rio ao fundo, muitas carnaúbas, solitárias ou em grupos, erguem seus caules roliços, frequentemente cobertos de bromélias, samambaias e trepadeiras parasitas. Suas folhas em leque sussurram e cintilam com muitos brilhos, faiscando quando soprados pela brisa. Mais ao longe, uma cadeia de montanhas forma o último plano; seus sulcos, seus cumes gramados e as encostas cobertas de matos e pedras estão minuciosamente delineados no clarão forte do sol da manhã, o céu azul claro e suas ofuscantes nuvens brancas". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio e Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 57.



Bromelia. Aechmes angustifolia.
E. Poeppig. Nova genera ac species plantarum. v. 2, t. 159. 1838.
www.plantillustration.org.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Os encantos da natureza tropical


"Com a entrada neste grande rio, toda a vegetação mudou como por magia. A mais bela floresta virgem, que nos mostrava ao mesmo tempo tudo o que é grandioso e tudo o que é encantador que tínhamos visto nas florestas do Brasil, subia pela margem do rio como se quisesse tornar-nos a despedida mais penosa no último momento ou enfeitiçar-nos com o desdobramento na tranquila magia de suas sombras, de todos os encantos da Natureza tropical. Majestosos troncos colossais com leves tetos de copas, impenetráveis maranhas de lianas quais paredes semeadas de lindas flores e entremeadas de todas as espécies de palmeiras imagináveis, cada uma procurando exceder a outra em beleza e graça, acompanhavam a margem esquerda por onde agora seguíamos. E como sabiam as palmeiras agruparem-se pitorescamente em volta das numerosas e umbrosas inflexões da floresta, como nichos, destes santuários escondidos nos quais os raios do sol da tarde quase que não podem penetrar, enquanto aqui e ali, uma audaz passiúba com as leves raízes adventícias rodeadas de um montículo de plantas aquáticas verdes, eleva-se atrevida e alegre sobre um pedaço de terra separado da margem 7 a 15 metros, como sobre uma ilhota, e como se quisesse assim ser admirada por todos os lados. Aliás, as encantadoras e graciosas passiúbas pareciam ser entre todas as espécies de palmeiras as que predominavam aqui; depois delas, porém, a inajá e a bacaba, ao passo que a miriti, só raramente se mostrava". Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas-Xingu. 1977. p. 238-239.


Palmeiras paxiúbas. Socratea phlonotia Barb. Rodr. e Iriatella spruceana Barb. Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O clima na Amazônia


"[...]. A aproximação das nuvens de chuva se fazia de uma maneira sempre uniforme e muito interessante de se observar. Primeiramente, a fresca brisa marinha, que começava a soprar por volta das 10 horas e se ia tornando mais forte à medida que aumentava o calor do sol, diminuía de intensidade e finalmente cessava. O calor e a tensão elétrica da atmosfera tornavam-se então insuportáveis. O torpor e o desconforto se apossavam de todo mundo, e até mesmo os animais da floresta demonstravam seu mal-estar. Nuvens brancas começavam então a aparecer no leste, formando cúmulos que se iam tornando cada vez mais negros na sua parte inferior. O horizonte inteiro para os lados do leste, escurecia repentinamente, e esse negror ia subindo e se espalhando pelo céu até encobrir finalmente o sol. Ouvia-se então o rumor de uma forte ventania varrendo a floresta e agitando o topo das árvores. O vívido clarão de um relâmpago cortava o céu, seguido do estrondo do trovão, e a chuva desabava em torrentes. Essas tempestades são de curta duração, deixando apenas algumas nuvens negro-azuladas e imóveis no céu até a noite. Nesse meio tempo tudo se refresca, mas debaixo das árvores veem-se montes de folhas e de pétalas de flores. Com a aproximação da noite tudo se reanima outra vez, e o ressoar dos cantos, silvos e pios brota novamente do meio das árvores e das moitas de arbustos. Na manhã seguinte o sol surge de novo num céu sem nuvens, completando-se o ciclo primavera-verão-outono, por assim dizer, num único dia tropical. Os dias são mais ou menos assim durante o ano inteiro, nessa região. [...]. Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 33.
 
 
 
A chuva que se aproxima.
Baía do Guajará - Belém-Pará-Brasil
Fotografia de Juliana Resque Campos - 2016


sábado, 4 de novembro de 2017

Um espetáculo imponente


"Fiquei deveras encantado ante a beleza da vegetação. Esta ultrapassava tudo que eu até então tinha visto.
A cada volta do rio, algo de novo se nos apresentava.
Ora um enorme cedro, que pendia sobre as águas, ora uma enorme árvore de algodão-seda que se destacava, como um gigante, acima da floresta.
Viam-se continuamente as esbeltas palmeiras açaís em vários grupos, muitas vezes erguendo os seus troncos uns cem pés para cima, ou se arqueavam então em graciosas curvas, quase encontrando  as da margem oposta.
Comumente encontrávamos também a palmeira "miriti", com os seus estípites retilíneos e cilíndricos, semelhantes a colunas gregas, tendo imensas copas de folhas em forma de leque, e de onde pendem os seus gigantescos cachos de cocos.
O espetáculo era na verdade imponente. [...].
Essas palmeiras cobrem-se de trepadeiras, que sobem até alcançar as suas grimpas, onde soltam então as flores.
À beira da água, veem-se numerosos arbustos em florescência, por vezes completamente cercados de convolvuláceas, "flores-da-paixão" ou begônias.
Toda árvore morta, ou semi-apodrecida, torna-se de parasitas de singulares formas e de belíssimas flores, enquanto nas palmeiras de menor porte e de caules de curiosas formas se entrelaçam os cipós, formando-se abrigos na floresta, por baixo dos seus emaranhados.
Para complemento, não faltam ali animação e vida.
As araras de plumagem de cor amarela e vermelha, muito vivas, passam continuamente, voando, lá bem no alto, enquanto os papagaios e periquitos, fazendo grande alarido, voam de árvore em árvore, à procura de alimento.
Dos galhos pensos sobre a água, aqui e acolá, vêem-se por vezes os balouçantes ninhos de guaches de plumagem preta e amarela, nos quais esses curiosos pássaros continuamente estavam entrando, ou saindo deles.
O encanto da paisagem ainda mais se realça pelo rio, todo cheio de curvas, ora para um lado, ora para outro, trazendo sempre à vista uma constante mutação de cenários". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979. p. 112-113.
 
 
 
Araras
 Arte de Paul Roberts Breathtaking.
www.pinterest.com


domingo, 29 de outubro de 2017

Pindorama


"Existem certos nomes na língua-geral, nesse curioso e bárbaro tupi-guarani, que possuem predicados sonoros, ondulações léxicas agradáveis ao ouvido. Antes mesmo de se lhes conhecer a significação,quase lírica, já se percebe alguma coisa de belo nas sílabas orquestradas dos vocábulos. Pindorama, que significa País das Palmeiras, é um deles.
O termo guarda, na ressonância clara, a nota panorâmica, o sentido pagão de Flora, os encantos artísticos e plásticos dos flabelos, das ventarolas, dos leques, das plumas, das palmas, dos penachos, que se abrem sobre os caules hieráticos desses fidalgos vegetais; e ainda parece ter sido idealizado por algum trovador silvestre perdido entre os tufos de folhagem da nossa verdoenga Planície.
E se um simples nome nos arrasta ao devaneio, enredando-nos o pensamento nos cipós e nas guirlandas florestais, avalie-se o que não sucede ao sábio estrangeiro, alheio a este turbilhão de plantas, a esta república de indivíduos verdes, onde em cada dez metros de solo, numa democracia de arbustos e de árvores, de fetos e de lianas, de gramíneas e de parasitas, se registra o mais variado, o mais robusto, o mais colorido, o mais imprevisto povo botânico. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930. p. 89-90.

Palmeiras Bacytris constanciae e Astrocaryum caudecens.
 Rio Trombetas, visto do igarapé Caypuru.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1903.
www.biodiversitylibrary.org


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A palmeira jacitara e seus espinhos



"Os verdadeiros cipós, cujo tronco principal tem o mesmo crescimento exagerado que nos arbustos-cipós se observa só em certos galhos, influem mais na fisionomia da vegetação litoral dos furos que estes. São principalmente as Passifloraceas e as Bignoniaceas [...], que envolvem os troncos e descem em elegantes festões das copas de árvores altas, produzindo aqui e acolá aquelas cortinas  de verdura matizadas de flores brancas, roxas ou cor de rosa que tanto impressionam o viajante. Munido com gavinhas, como estes cipós, encontramos ainda o Cissus sicyoides L. que entre todos os seus congêneres tem a particularidade de poder desenvolver raízes aéreas que, tais como fios suspensos, descem verticalmente dos galhos mais altos.
Um dos cipós mais vistosos dos furos, notável pelos seus cachos compridos de flores escarlates, trepadas nas árvores mais altas, sem ter órgãos especiais para se agarrar nas outras plantas. [...]. Como se vê, os cipós pertencem às famílias mais diversas, com adaptações múltiplas ao seu modo de vida. Mesmo da família das palmeiras, encontram-se, nas beiras dos furos, alguns cipós, pertencentes ao gênero Desmoncus e chamados vulgarmente jacitara. Estas palmeiras agarram-se nas árvores pelos espinhos que cobrem os caules e pelos folíolos distantes das folhas compridas, que são transformados em uma espécie de ganchos. [...]". Jacques Huber (1867-1914). Contribuições à geographia physica dos furos de Breves e da parte occidental de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ehnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 488-489, 1902. 

Desmoncus orthacanthos
J. Barbosa Rodrigues. Serum palmarum brasiliensium, v. 2, t. 54, 1903.
www.plantillustrations.org

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amazônia que eu vi: uma orquestra de mil vozes de aves


"[...]. Esforçamo-nos de romper uma passagem por entre as hastes de arumá (Marantha) e juncos mais altos que um homem.
Ainda não vemos nada, mas já uma orquestra de mil vozes de aves que vamos ouvindo cada vez mais distintamente à medida que avançamos é prenúncio de que não voltaremos sem resultado da nossa excursão. Pouco a pouco o entrelaçado da vegetação de brejo vai ficando menos denso e assim veio o momento onde as consequências de cada passo precisam ser cuidadosamente calculadas e premeditadas.
Por entre as últimas hastes podemos descortinar um aspecto desembaraçado sobre uma laguna de savana de alguns centos de metros em comprimento por outros tantos em largura.
A cena da vida animal que ora se apresenta aos nossos olhares é tão grandiosa e imponente que todos permanecemos estupefatos, retendo a respiração, cada um perguntando a si mesmo se o que vê é real ou não será uma "fata morgana" e deslumbramento de algum sonho; [...].
O que ali está em aves do brejo e aquáticas, palmípedes e pernaltas, acumuladas em um espaço relativamente pequeno; tudo o que está ali se enlameando, chapinhando, esgaravatando, bicando, mergulhando, nadando, voando, piando, grasnando, gritando, tudo ao mesmo tempo, num fervet opus incrível, desafia qualquer descrição; diante de tais quantidades é impossível contar e dificílimo mesmo avaliar e todos os recursos da linguagem não são bastante expressivos e brilhantes para dar uma ideia do barulho, da confusão que ali reina.
Algum êxito teria talvez, no que toca à vista, o pincel de um privilegiado pintor de animais, para o qual cada pequeno trecho da paisagem diante de nós formaria um grato assunto para uma tela de real valor". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi). Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 389-390, 1902.


Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906.